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Absurdo: 100 motoristas de ônibus foram demitidos pelo WhatsApp em Uberlândia (MG)

Raimundo Ferreira da Silva, representante dos condutores do transporte coletivo e um dos demitidos, fez uma forte denúncia na tribuna da Câmara Municipal nesta segunda-feira (8). Desde o início da pandemia os trabalhadores sofriam represálias e diminuições de salário por parte das empresas. As demissões ocorrem após paralisação por pagamento integral dos salários e melhores condições de trabalho.

quinta-feira 11 de março| Edição do dia

Foto: Reprodução/Diário de Uberlândia - motoristas paralisam o Terminal Central

Pelo menos 100 motoristas de ônibus de Uberlândia (MG) foram demitidos de forma revoltante na última sexta-feira (5), via WhatsApp. A demissão foi dada como por “justa causa” após paralisação dos trabalhadores pelo pagamento integral dos salários (que estavam parcelados em 3 vezes desde 2021) e por melhores condições de trabalho.

Os motoristas iniciaram a paralisação do serviço na sexta (5), e no sábado impediram que os coletivos circulassem no Terminal Central; um motorista chegou a ser preso pela polícia.

Raimundo Ferreira da Silva relatou na tribuna da Câmara Municipal que os trabalhadores sofreram redução salarial desde o início da pandemia, salários esses que não passam de R$1.400 reais (valor recebido mensalmente por cobradores de ônibus segundo previsto em Convenção Coletiva).

Apesar de poderem trabalhar 3 horas e 20 minutos ao dia pelas regras da prefeitura, os motoristas continuaram a cumprir a carga horária completa de 7 horas. Ainda assim, em 2021 os salários começaram a ser atrasados sem aviso prévio e parcelados em até três vezes, contrariando a CLT.

Além disso, o motorista informou que a categoria não recebeu o vale do mês passado e os funcionários são humilhados até na hora de pegar cesta básica, recebendo cobranças antes de conseguirem a cesta: "se decidirem que alguém não vai pegar, não pega".

Enquanto isso, as empresas privadas que atuam no transporte público de Uberlândia por licitação, a AUTO TRANS, SÃO MIGUEL e SORRISO DE MINAS, receberam nada menos que R$25 milhões de reais da prefeitura para supostamente garantir os salários e os empregos de seus funcionários, mas a própria prefeitura também não faz nenhuma fiscalização sobre como está sendo aplicado o dinheiro.

Os motoristas de ônibus são parte dos trabalhadores que não pararam durante a pandemia, mesmo ganhando pouco, recebendo atrasado, e sem equipamentos de proteção sanitária adequados. Enfrentam diariamente o risco de contaminação pela Covid-19 para continuar a garantir o serviço de transporte à população. A redução das frotas e horários de circulação por parte das empresas aumentou ainda mais o risco de contaminação com a lotação dos ônibus.

De acordo com Raimundo Silva, 14 motoristas de ônibus perderam a vida em Uberlândia pela Covid-19 e o descaso das empresas e governos. Em seu relato, conta como as máscaras distribuídas pela empresa eram de péssima qualidade e até para ter álcool em gel nos coletivos os motoristas tiveram que lutar, sem o apoio do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Triângulo Mineiro (Sindett).

As empresas fizeram contestações sobre atestados médicos com testes positivos para o coronavírus, impondo uma pressão para que trabalhadores infectados voltassem ao batente antes do período de isolamento exigido para evitar o contágio de outras pessoas. Como diz Silva, “tudo que é pra nossa segurança está sendo racionado.”

Raimundo denunciou ainda na Câmara que a polícia, que nunca garantiu a segurança dos trabalhadores nos pontos pelas madrugadas esperando a coleta de 3 da manhã, esteve pronta a receber a ordem da empresa para garantir o translado dos motoristas frente a possibilidade de manifestação, cumprindo seu papel de proteger os patrões e reprimir os trabalhadores.

Segundo ele, na empresa São Miguel os funcionários são oprimidos e chantageados por encarregados o tempo todo, incluindo um policial militar expulso da corporação que intimida e alteia a voz para os trabalhadores nas reuniões. Ele mesmo, antes de se pronunciar na Câmara, foi ameaçado em uma ligação confidencial que dizia para que “tomasse cuidado aonde iria e com o que iria dizer”. A empresa Sorriso manda mensagens ameaçadoras para os funcionários. Mas Raimundo Silva foi firme: “Eu não vou aceitar, não vou baixar a cabeça.”

Raimundo disse ainda na Câmara como se sente abandonado pela falta de representação do sindicato, que como organismo dos trabalhadores deveria buscar saídas para a insatisfação contra as empresas, mas ao invés disso virou as costas aos motoristas, incitando a empresa a fazer as demissões por justa causa e se separando da paralisação.

Desde antes da pandemia os ônibus rodavam pela cidade em condições precárias. Bancos quebrados, sem limpeza recorrente, com vazamentos de óleo, com freios e embreagens estragados, colocando em risco tanto a vida dos motoristas como dos usuários do transporte público. Tudo isto, junto a pandemia e a exploração das empresas, leva os motoristas de ônibus a verem respostas na organização da classe para a luta por direitos.

“Única coisa que estamos buscando é o que é de direito nosso. Eu queria que todo mundo que tivesse aqui ou que tá em casa nos ouvindo, se perguntasse se fosse com vocês, coloque-se no nosso lugar. Hoje eu não tenho dinheiro pra comprar leite pro meu filho, e eu tô trabalhando. Hoje, se eu tivesse um vício de cigarro eu não tenho dinheiro pra comprar um cigarro, posso abrir minha carteira pra mostrar vocês vê.”

As demandas dos motoristas são: pagamento integral dos salários, reintegração dos funcionários demitidos e cumprimento de acordos firmados na ultima Convenção Coletiva - que compreende reajustes salariais, adicionais de periculosidade, cesta básica, horário de descanso, entre outros direitos básicos.

Todo apoio a luta dos motoristas!




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