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AMANHÃ 1ª FASE FUVEST: posicionamento da gestão Pulso Latino

Neste domingo, 10 de janeiro, a prova da 1ª fase da Fuvest será aplicada a 130.525 inscritos, que disputam um total de 8.242 vagas de graduação na USP. A taxa de inscrição para realização da 1ª e 2ª fases, atingindo o valor recorde de R$ 182, é apenas um da longa lista de fatores excludentes deste vestibular em 2021. Em meio a uma crise econômica nacional agravada pela pandemia, que no Brasil atingiu nesta semana o trágico marco de 200 mil mortos, fruto do negacionismo criminoso de Bolsonaro e da negligência dos governos, como o de Doria, é preciso se perguntar: a que(m) serve o vestibular?

sábado 9 de janeiro| Edição do dia

Todos os anos, milhões de jovens e estudantes no país inteiro, muitos dos quais concluintes do Ensino Médio na rede pública de ensino, ingressam em verdadeiras maratonas de vestibulares para concorrer a uma vaga no ensino superior, apesar do direito previsto na Constituição brasileira para o acesso universal à educação. São meses, muitas vezes anos, de preparação para prestar essas provas, que marcam um período de desgaste, estresse e profundas dificuldades na vida de qualquer jovem que batalha por uma perspectiva digna de futuro, estudo e trabalho, diante da precarização da vida que é cada vez mais imposta à juventude em nosso país.

Historicamente, o vestibular representa um filtro social e racial que impede milhões de jovens de adentrarem a universidade pública, selecionando apenas uma parcela dos candidatos pelo seu desempenho em provas exaustivas e elitistas – quando sabemos que as condições de ensino no Brasil são extremamente desiguais entre a rede pública e a privada. Enquanto isso, a grande massa de estudantes que não é aprovada recorre à matrícula em instituições privadas de ensino superior, muitas vezes se endividando em programas como o FIES para pagar mensalidades.

No contexto da pandemia, essas disparidades históricas se tornam um abismo social ainda maior, separando, de um lado, os vestibulandos que tiveram condições materiais para acompanhar o ensino remoto desde a suspensão das aulas presenciais nas escolas e cursinhos pré vestibulares, e, de outro, todos aqueles que não dispunham das mesmas, os que tiveram que conciliar estudos e trabalho (muitas vezes presencial) nos últimos meses, os que não tiveram direito à quarentena ou tiveram de enfrentar casos próximos de infecção e mortes pela covid-19, além do aumento do desemprego e a diminuição de renda nas famílias.

Neste ano, o “protocolo de biossegurança” divulgado pela Fuvest orienta candidatos com suspeita ou diagnóstico confirmado de covid-19 a partir de 1º de janeiro, assim como os que tiveram contato com casos confirmados, a não realizarem a prova. Ao mesmo tempo, a fundação não oferecerá sequer a possibilidade de realização da prova em outra data. Mais um obstáculo imposto a centenas de milhares de estudantes que são obrigados a disputar uma vaga na universidade em meio ao cenário de agravamento no número de casos, em plena segunda onda da pandemia, o que já indica uma perspectiva de altos índices de falta no dia da prova. A exemplo do primeiro dia do vestibular da UFU (Universidade Federal de Uberlândia), realizado em 19 de dezembro, 39% dos candidatos não compareceram aos locais de prova, quando em 2019 este índice foi de 12,36%. Na primeira fase do vestibular da Unicamp para 2021, realizada nesta semana, o índice de falta foi de 13,8% entre os candidatos, contra 8,27% no último vestibular.

Apesar da grande pressão que se expressou nas redes sociais nos últimos dias e que levou a hashtag #adiaENEM aos assuntos mais comentados no Twitter, o ministério da Educação também manterá a aplicação presencial das provas do ENEM 2021 em 17 e 24 de janeiro, obrigando cerca de 5,7 milhões de inscritos ao risco de contaminação – muitos dos quais terão apenas ao sistema público de saúde para recorrer no caso de infecção pela covid-19, no momento em que vários estados do país voltam a beirar o colapso no atendimento e hospitalização dos casos.

A quase um ano do início da pandemia no Brasil, o negacionismo odioso de Bolsonaro e o governo estadual de Doria, antes “BolsoDoria” – que, ao lado da Reitoria, há anos sucateia, precariza e ataca com cortes bilionários as universidades paulistas, deixando os trabalhadores do HU da USP à própria sorte em meio à crise sanitária, sem testes, EPIs, contratação emergencial ou liberação do grupo de risco – agora protagonizam disputas eleitorais para oferecer um plano de vacinação à população, na mesma semana em que chegamos a 200 mil vidas perdidas pela covid-19. São os governos, instituições e a política neoliberal e negligente de todo regime golpista, junto com a extrema direita, os responsáveis pela catástrofe no combate ao vírus e pela situação trágica em que se encontram os jovens e trabalhadores em nosso país. A manutenção dos vestibulares em pleno contexto de agravamento da pandemia mostra a intenção clara e unificada destes setores de se apoiar em uma situação de extrema fragilidade social para tornar o vestibular, ferramenta histórica de exclusão da população trabalhadora, negra e pobre à universidade pública, ainda mais excludente – alinhada a todo projeto de universidade que sempre defenderam: privatista, elitista e avesso à produção de conhecimento crítico.

A gestão Pulso Latino do CAELL, retomando o histórico de luta de um dos cursos que mais se levantou contra a precarização do trabalho e do ensino da USP, se coloca pelo adiamento das provas, para que não sejam arriscadas a vida e saúde de centenas de milhares de estudantes, em meio à segunda onda de contágios e sem a disponibilidade de vacinas e testes para toda população. Mas nos colocamos também pelo fim desse obstáculo social e racial representado pelo vestibular, ainda mais intransponível aos jovens negros, trabalhadores, periféricos e precarizados no contexto da pandemia. Em meio à crise na qual nos encontramos, é preciso defender uma Universidade verdadeiramente aberta aos trabalhadores, que sustentam nossa instituição de ensino com seu trabalho, sem que tenham que furar o filtro excludente e racista do vestibular, para colocar toda a potencialidade da produção de conhecimento a serviço das necessidades reais da maioria da população.

A problemática dos vestibulares na situação de pandemia diz respeito à realidade que enfrentaremos nas universidades no ano de 2021, junto à imposição precária e excludente do ensino remoto, a continuidade dos ataques e cortes, e a crise de financiamento das universidades. Estes são temas que precisam ser tomados pelo conjunto dos estudantes para discutir, em cada curso e local de ensino, como enfrentar este cenário e nos colocar ao lado dos milhões de estudantes que ficarão de fora das universidades públicas. Para isso, é fundamental que as direções do movimento estudantil em todo país, como a UNE e DCEs (a exemplo do nosso na USP, dirigido pelo PT, PCdoB e Levante Popular da Juventude) organizem e construam assembleias virtuais em cada universidade, para organizar nossas forças de forma independente, para que sejamos nós, e não as reitorias, o governo ou o MEC, quem decida sobre os próximos passos e como deve se dar a entrada de novos estudantes nas universidades.




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