Opinião

OPINIÃO

A urgência do combate ao regime do golpe

É preciso uma saída por fora do regime político golpista, embalada pela bronca que cresce em setores de massas ... contra Bolsonaro.

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 28 de janeiro| Edição do dia

O nosso país vive uma realidade de baixa luta de classes.

Não emerge um movimento da classe trabalhadora capaz de abalar o regime e girar a situação para a esquerda em perspectiva de construção de uma saída revolucionária.

Nesse marco, a crise se desenvolve, basicamente, nas alturas do próprio regime.
Ao mesmo tempo em que uma parte da esquerda – a mais institucional e de maior visibilidade – procura articular uma frente, a mais ampla possível, com a velha política burguesa e com setores do golpismo, e – tendo em mente as eleições de 2022 -, quer afastar Bolsonaro dentro das regras do jogo, isto é, movendo forças do próprio regime.

Procuram mobilizar [“pressionar”] os mesmos fatores de poder que, unidos, têm desfechado ataques históricos contra a classe trabalhadora [leis trabalhistas, previdência etc], os mesmos que conduzem a pandemia contra as massas, promovendo um estado de calamidade pública, ao mesmo tempo em que são estas as mesmas forças que sustentam e reproduzem o golpismo político de uma democracia degradada.

Mas é para essas forças de sustentação do regime que a esquerda mais visível se dirige, apostando que elas, em uma reviravolta, afastem Bolsonaro. E entre Mourão, que seria o desfecho de um impeachment bem sucedido e que não passaria de uma troca de guarda.

O problema de todo esse movimento nas alturas é que de esquerda não tem nada: não passará de uma operação de adaptação política ao regime como ele é.

O novo gestor assume todo o legado do golpe e seguirá descarregando a pandemia e a crise nas costas da classe trabalhadora. Na verdade o regime ganharia – com eventual impeachment – uma nova cara, enquanto o Brasil continuará afundando no caos atual e serão mantidos todos os ataques legais e institucionais ao povo pobre.

Por outro lado, depois de trinta e cinco anos de alguma estabilidade democrática – recorde histórico – a grande expectativa da classe trabalhadora, sobretudo acaudilhada por essa burocracia sindical – é a de uma saída pelo voto. Nesse momento este é o máximo que as massas aspiram, seu imaginário político ainda não passa por rupturas: o fetiche da democracia impera.

Essa é a realidade concreta.

A ultraesquerda ignora esse sentimento, como se vivesse em um mundo paralelo. E da esquerda institucional – que não conseguiu romper com o gradualismo eleitoral do lulismo pela esquerda – já falamos. Afunda na miséria do possível.

Portanto, desses dois campos não há o que fazer na conjuntura a não ser gritar pelo futuro socialista ou adaptar-se ao regime.

Qual a saída, então, que não está sendo tentada?

Apenas uma: lutar contra o regime A PARTIR do atual grau de consciência das massas. Que não vai se manter assim com a escalada nacional e internacional da crise orgânica e econômica. Organizar comitês por local de trabalho, nos movimentos sociais, que construam de baixo para cima, uma saída por fora do regime político golpista, embalada pela bronca que cresce em setores de massas ... contra Bolsonaro. Enquanto organizamos, finalmente, uma frente de esquerda anticapitalista que supere a tradição petista-stalinista pela esquerda e faça o trabalho da estratégia.

Trata-se, portanto, de canalizar esse ódio latente – especialmente pelo fiasco do governo com as vacinas e os escândalos nacionais como Manaus – para uma saída que não seja perpetuar o regime e sim romper com ele. E que traga, no seu bojo, da consigna democrático-radical, defensiva, os elementos materiais para a ofensiva proletária do momento seguinte.

A consigna democrática Por uma Constituinte livre, soberana e de massas é a única, no momento, que preenche esse objetivo. Dissolver o parlamento, Câmara e Senado, eleger deputados por número de habitantes para uma Câmara única que se reúna para debater abertamente a mudança das leis do país. Passar o país a limpo.

O ódio de massas seria canalizado para um terremoto político que teria a especial vantagem de instalar um grande debate nacional de massas ... político. Por mudanças que seriam muito mais que institucionais. E onde em cada local de trabalho tudo que é necessário mudar no Brasil seria alvo de intensa discussão. Com a classe trabalhadora operando como sujeito no debate político nacional que se abriria em um processo de luta por uma Constituinte de massas.

Mas se a esquerda anticapitalista se unir [como fez na Argentina com a Frente de Esquerda, encabeçada pelo PTS] e levantar, a partir de comitês de massas, um programa antipandemia e de transformações sociais [habitação, transportes, produção de alimentos, fim da dívida pública etc] eis que teríamos uma saída frontalmente antirregime, construída a partir das ruas e locais de trabalho, em formato de frente única operária; e que quebraria o ilusório mantra de um impeachment de uma ala do regime contra a outra e que, ao final, será um embuste, que resultará em um general ou o próprio STF [ou os dois] dirigindo nosso país, novamente contra nós.




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