COLUNA

A sanha assassina dos militares da ditadura é cúmplice do genocídio de Bolsonaro na pandemia

Douglas Silva

Estudante de Ciências Sociais da UFJF

sexta-feira 2 de abril| Edição do dia

Durante a semana foram algumas declarações que reivindicaram a ditadura civil-militar brasileira. Os apologistas da tortura e assassinatos cometidos pelos militares desde 1964 – e, digamos, até os dias de hoje nos morros e favelas, mas também pelas tropas brasileiras no Haiti lideradas, inclusive, por Augusto Heleno ainda durante os governos petistas, por exemplo – se encontram ainda na impunidade e, agora, ocupando vários cargos dentro do governo de extrema direita de Jair Bolsonaro. A comemoração do regime militar expressa todo o reacionarismo encarnado nas fileiras militares, mas também de quem, outrora assassinava durante o regime mais sangrento da nossa história, hoje se encontram envolvidos até o pescoço com um governo negacionista que segue ceifando milhares de vidas durante a pandemia.

Enquanto a crise econômica, política, social e sanitária se aprofunda, os militares se empanturram com leite moça, 700 toneladas de picanha e 80 mil cervejas pagos com dinheiro público. Ou seja, enquanto milhares seguem esperando um auxílio muito inferior ao necessário para os gastos básicos, os militares demonstram que, tal como Bolsonaro, sua especialidade é matar. Afinal, bem como os demais atores golpistas, todos se encontram num vértice comum: são responsáveis pela caminhada a passos de tartaruga da vacinação do governo federal e governadores, pela super lotação dos leitos de UTIs e pelas mais de 300 mil mortes por covid19, enquanto todos eles vivem como verdadeiros parasitas sugando a vida dos trabalhadores e da população pobre.

Sobre os inúmeros crimes cometidos pelos militares durante seu regime, a saber, o genocídio de povos indígenas, assassinato de opositores e até o desaparecimento de crianças, não existem dúvidas, ainda que figuras como Mourão, aquele que entraria no lugar de Bolsonaro num eventual impeachment, comemore a “revolução” de seus pares em 1964, a ditadura é um fato marcado em nossa história do qual não podemos nos esquecer. Afinal, a crescente participação dos militares atualmente na política liga o alerta sobre a sanha autoritária e assassina dos milicos.

Por isso, a comemoração de um regime responsável por perseguir opositores, entre eles milhares de trabalhadores torturados e assassinados, não se trata de nenhuma novidade entre os verde-oliva, os quais foram, também, entusiastas do golpe institucional de 2016 e agora seguem, ainda que busquem se desvincularem da catastrófica condução feita por Bolsonaro durante toda a crise sanitária, apoiando e participando do governo.

Todavia, a cumplicidade dos militares, que tiveram Pazuello no Ministério da Saúde propagandeando “kit cloroquina” quando Manaus agonizava pela falta de respiradores, não está apenas na responsabilidade pelas mortes causadas pelo coronavírus, mas no apoio dado ao projeto golpista que garantiu o aprofundamento dos ataques, bem como a reforma trabalhista e da previdência, contra a classe trabalhadora e a instauração de um regime político ainda mais reacionário do que aquele firmado durante 1988, em que militares se viram poupados pelos seus crimes e ainda garantiram entulhos autoritários como a Lei de Segurança Nacional (LSN) utilizada hoje não apenas por Bolsonaro, mas por distintas alas golpistas, como o judiciário, para impor suas vontades e medir forças, enquanto voltam-se todos contra os trabalhadores.

Diferente do discurso interessado da grande mídia, a mesma entusiasta do golpe de 1964, como O Globo, o qual chegou a comemorar em suas capas de jornais a ditadura como representante do ressurgimento da democracia, os militares, incluindo aqueles que saltaram do governo durante a semana, como Fernando Azevedo e Silva, estão todos ligados a um passado que ambos, antigo e atual Ministro da Defesa, por exemplo, fazem questão de comemorar. Afinal, Braga Netto, quem mal assumiu o ministério, fez questão de dar saudações, como o antecessor, a ditadura em uma ordem do dia que comemorava o golpe.

As comemorações do golpe, que vão de Bolsonaro e Mourão ao anterior e atual ministro da defesa, são sintomáticas do grau de reacionarismo presente nas Forças Armadas, que nunca se viram punidas ou julgadas por seus crimes. Entretanto, mais do que qualquer agitação alusiva a um golpe militar no atual momento, a crescente participação dos militares na política surge como característica marcante do novo regime oriundo dos destroços da Nova República. A Constituinte de 1988, tutelada pelos militares, deixou as portas abertas para que os mesmos envolvidos em perseguições, torturas e assassinatos durante seu regime, entrassem, posteriormente, ainda mais na política brasileira e se vissem envolvidos novamente numa passagem de nossa história em que os mortos se contam aos montes, mais uma vez sob a égide dos milicos.




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