Mundo Operário

EDITORIAL MRT

A saída é a unidade da classe trabalhadora que, como mostrou a pandemia, é quem move o mundo

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

segunda-feira 30 de março| Edição do dia

O Brasil é um dos poucos países que vai na contramão da busca por uma "unidade nacional burguesa" para enfrentar a pandemia do Coronavírus. Governantes de todo o mundo adotam medidas consideradas sensatas potencializando este sentimento de unidade onde estão supostamente "todos contra o vírus". O negacionista Boris Johnson está contaminado e até mesmo Donald Trump teve que estender o período de isolamento nos Estados Unidos diante do salto do número de mortos e contaminados. Isso torna as questões mais e não menos complexas em nosso país: a saída para a crise estará na unidade nacional dos governadores e do Congresso Nacional? Para os revolucionários, de forma alguma.

Em um país onde mais de 31 milhões de pessoas não tem acesso à água potável e quase 6 milhões não tem banheiro em suas casas deveria ser evidente que as medidas de isolamento, em si mesmas, são completamente insuficientes. Mas não pelos argumentos cínicos que coloca Bolsonaro que depois de tentar emplacar uma medida provisória para institucionalizar a miséria - colocando os trabalhadores com 4 meses de suspensão de salário - tenta aparecer como quem está preocupado com os "empregos" e com os trabalhadores informais. Trabalhadores estes, que entregam suas vidas para a Rappi, Ifood, Uber, etc, em condições absolutamente precárias sem nenhuma garantia de salário, estabilidade ou nenhum direito, que não podem simplesmente deixar de receber para sustentar suas famílias e que certamente a quantia de R$600 não dá conta de responder nem às mínimas necessidades de renda e os deixam sem nenhuma garantia de saúde.

As medidas dos governadores são insuficientes porque não levam em conta uma orientação elementar da OMS que é a necessidade de testes massivos. Sem isso, as quarentenas não podem ser organizadas de forma racional, isolando as pessoas que estão doentes - não somente os idosos como sugere Bolsonaro - e garantindo espaços adequados para tal, como seria com a expropriação de hotéis e clubes para tal fim.

Mas o fato é que mesmo as medidas ultra parciais que estão tomando os governadores tem sido alvo de protesto por parte de Bolsonaro e sua base dura bolsonarista, que longe de estar isolado conta com a voz de importantes empresários sedentos pelos lucros que estão perdendo com as quarentenas. As reiteradas provocações de Bolsonaro ao dizer que "vai morrer gente mesmo", "é só uma gripezinha" terminam sendo combustível para potencializar um sentimento pela retirada do presidente, mesmo que pelas vias institucionais. E quanto mais isso acontece mais aparecem como alternativa não somente Rodrigo Maia, mas todo e qualquer política da direita que frente a uma crise sanitária apareça como minimamente mais coerente. Até mesmo empresários agora são enaltecidos por setores supostamente de esquerda, como foi o caso de Luiza Trajano.

Tudo isso se evidencia claramente com a carta das centrais sindicais diretamente pedindo para que o Congresso tome o protagonismo, e pela própria política do PT que é de saudar a política dos governadores do Sul e Sudeste, ou seja, João Dória, Wilson Witzel e Eduardo Leite, golpistas e representantes da direita que mais odeia os trabalhadores. Esta áurea "humanista" leva a que o próprio PSOL, claramente dividido, também busque sua política por detrás de algum espectro burguês: seja assumindo a entrada do General Hamilton Mourão com o pedido de impeachment de Bolsonaro, seja agora com o lançamento da Carta Supra-Partidária assinada por 14 partidos entre eles PSB e PDT, ou a nova carta de ex-candidatos presidenciais pedindo que Bolsonaro renuncie (e Mourão assuma). O que tudo isso tem em comum, apesar das diferenças nas políticas de cada partido e até mesmo de cada corrente interna do PSOL, é deixar a classe trabalhadora de fora, justamente num momento em que fica nítido aos olhos de todos que é a classe trabalhadora quem move o mundo!

A política do #FicaEmCasa expressa um sentimento em amplos setores da população de que o isolamento é uma medida necessária. Isso é importante, mas como dissemos, insuficiente e as experiências por exemplo da Coréia do Sul e da Alemanha mostram isso claramente com a implementação de testes massivos. Mas esta política tem como contra-cara o abandono criminoso de toda a classe trabalhadora que segue ativa nos locais de trabalho, carregando nas costas toda a produção mas sem poder controlá-la: quem o faz ainda são os empresários e gerentes das fábricas sob a lógica irracional do capitalismo. Os sindicatos deveriam, ao contrário, ser uma força coordenada em uma grande campanha por testes massivos já, de forma a organizar racionalmente as quarentenas, mas batalhando em cada local de trabalho pelas condições mais mínimas como o álcool gel, as máscaras e os testes permanentes para os que estão trabalhando. Isso só será possível se os próprios trabalhadores assumirem pra si o controle da produção, reconvertendo as fábricas para produzir respiradores e todos os insumos necessários, reorganizando o transporte, a distribuição de alimentos e todo o necessário para enfrentar essa crise.

Isso deve ser acompanhado de um programa imediato para a saúde centralizando a saúde pública e privada sob controle dos trabalhadores da saúde, construindo novos leitos e contratando profissionais da saúde que estejam desempregados. Um salário de R$ 2 mil reais por pessoa que esteja sem renda, na informalidade ou desempregado, como medida emergencial, a partir da taxação das grandes fortunas. Tudo isso colocará em evidência que o pagamento da dívida pública, principal forma de espoliação imperialista no país, precisa ser imediatamente interrompido e rechaçado. Ao contrário da preocupação "cidadã" de defender "vidas e empresários", já que são os "empresários que garantem os empregos", seria a hora de coordenar uma política que fosse ainda mais na raiz das desigualdade do sistema capitalista e mostrar que a exploração não é uma "caridade dos empresários" mas que é fruto de um sistema de dominação na qual os trabalhadores tem sua força de trabalho roubada. É produto dessa exploração, das jornadas extenuantes, das precárias condições de moradia e saneamento que milhões de brasileiros chegam na pandemia com maior propensão ao vírus por debilidades imunológicas causadas pelo capitalismo, por sua sede de lucro.

É por isso que uma política revolucionária deve confiar na força da classe trabalhadora, mesmo que a situação atual dificulte as possibilidades de manifestações e greves coordenadas. Não está descartado, entretanto, que a experiência com as políticas dos governos se acelere ou que os impactos da crise, apesar da demagogia bolsonarista, sejam enormes e venham de forma acelerada. Uma evolução da situação nesse sentido pode dar espaço a processos de luta de classes, como já vemos em países como a Itália, um dos mais atingidos no mundo, com a greve do último dia 25, e em países como França e Argentina, onde setores da classe dão exemplos importantes de medidas contra a crise do coronavirus, dos quais nos orgulhamos de participar a partir da corrente internacional integrada pelo MRT. Neste processo, se estamos ao lado de todos os trabalhadores e a população que querem retirar Bolsonaro do poder, agregamos o rechaço aos militares, resquício asqueroso da ditadura militar no Brasil e todos os golpistas, que hoje se fazem de "eficientes" mas seus verdadeiros objetivos sempre foram as reformas e ajustes para descarregar a crise econômica nas costas dos trabalhadores. Uma política assim não daria lugar nem a Mourão, nem a Rodrigo Maia e nem a eleições antecipadas como defende uma ala do PT, todas saídas "institucionais". A medida mais coerente com a situação seria que assumisse um gabinete de emergência composto por trabalhadores da saúde, especialistas sanitários, sindicatos e demais organizações operárias e populares para colocar no centro as respostas emergenciais à crise atual. Esse gabinete de emergência teria como uma das suas tarefas centrais a convocação e organização de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que concentre todos os poderes legislativos, executivos e judiciário, onde pudessem ser debatidos democraticamente toda a reconfiguração do país para responder não apenas à questão imediata de garantir empregos e vidas, mas todas as questões estruturais que condenam a imensa maioria a levar uma vida de miséria desde sempre. Na luta por este programa, defendemos o desenvolvimento dos mais amplos organismos de auto-organização, que são a única garantia de uma saída democrática para essa crise, e ao mesmo tempo a base para que possamos avançar para um governo operário de ruptura com o capitalismo.

Estas medidas são as únicas que depositam a saída para a crise na classe trabalhadora e é por isso que o Esquerda Diário está dando uma grande batalha em todos os locais de trabalho e estudo, especialmente os sindicatos, ainda que virtualmente, para que lutemos unificados por testes massivos já, antes que o número de mortes aumente aos saltos. Reorganizamos todos os comitês editoriais do Esquerda Diário e os núcleos que organizam a produção escrita e audio-visual para que este diário, assim como todos que compõe a Rede Internacional de Diários, estejam a altura de levantar o programa mais correto para enfrentar a crise como sejam a imprensa que mais dá vazão para as denúncias operárias como entre metroviários, professores, aeroviários, operadores de telemarketing, trabalhadores da saúde mas também dando voz para as lutas operárias que temos confiança de que certamente irão se potencializar, apesar de suas direções burocráticas nas entidades sindicais e de uma esquerda tradicional que sempre buscam "frentes" que são supostamente "amplas" mas que deixam de fora justamente a força da classe trabalhadora. Todos as nossas iniciativas como o programa Esquerda Diário Ao Vivo com análises três vezes por semana da situação nacional, os Podcasts Internacional, Feminismo e Marxismo e Rádio Peão 4.0, o novo programa Quilombo Vermelho no Youtube, o Suplemento Teórico Ideias de Esquerda e o Canal Ideias de Esquerda estão a serviço desta batalha.

É por isso também que fazemos um ofensivo e audaz convite aos nossos leitores que queiram dar um passo à frente para se organizar atuando como colaboradores do Esquerda Diário ou diretamente construindo os Comitês Virtuais do Esquerda Diário em sua cidade ou estado, amplificando o alcance e a produção de nosso portal para que seja um componente ativo para dar voz à classe trabalhadora, a juventude, as mulheres, negros e LGBT.




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