Internacional

A revolução internacional terá rosto de mulher

O que as reivindicações das mulheres em vários países - que vêm aumentando desde o início da pandemia – ensinam para o movimento internacional de mulheres?

Zuca Falcão

Professora da rede pública de MG

quinta-feira 4 de março| Edição do dia

Operárias em greve em Mianmar/ EFE

Em Mianmar, na Ásia, as operárias têxteis foram linha de frente de uma greve geral para enfrentar um golpe de Estado. Em Chicago, nos Estados Unidos, as professoras fizeram greve contra o retorno inseguro das aulas presenciais. Na USP, Universidade estadual de São Paulo, dezenas de trabalhadoras terceirizadas paralisam suas atividades e conseguem barrar demissões. Na Argentina centenas de milhares de mulheres saem às ruas para exigir justiça por Úrsula, vítima de feminicídio.

Estes são apenas uma parte dos exemplos de mobilizações de mulheres pelo mundo, somente nesses dois primeiros meses de 2021. Historicamente, as mulheres sempre estiveram na linha de frente das lutas por melhores condições de vida, em todo o mundo, porque também historicamente sempre estivemos submetidas à opressão e à exploração. E a pandemia, além de aprofundar essas condições, ressaltou o fato de que são as mesmas enfrentadas pelas mulheres trabalhadoras e pobres do mundo todo.

E a semelhança entre as duras condições impostas para as mulheres trabalhadoras em todo o globo não é simples coincidência, mas fruto de séculos de opressão capitalista que institui um controle sobre nossos corpos e nossas vidas, para nos manter em uma condição onde nossa principal função nessa sociedade seja a de garantir por meio da exploração o lucro dos capitalistas.

No mundo todo ganhamos menos que os homens ainda quando exercemos a mesma função. Isso serve para que os patrões possam lucrar ainda mais, instituindo que nosso trabalho vale menos. Em todas as partes do mundo, muitas de nós realizamos tarefas domésticas não remuneradas, aliviando aos Estados que despejam sobre nossas costas o peso de serviços que deveriam garantir. Em todos os países somos vítimas da violência e morte, unicamente por sermos mulheres, fato útil a um sistema que tem interesse de nos manter sob o mito do sexo frágil e assim perpetuar nossa exploração. E a maioria de nós, em todo o planeta, somos arrastadas a uma busca incessante por um padrão de beleza absurdo e irreal, nos fazendo assimilar a objetificação dos nossos corpos, desconhecendo todo o nosso potencial.

As péssimas gestões da pandemia mundo afora, deixaram claro que as prioridades dos governos são os empresários e seus lucros. E nós trabalhadoras sentimos dobrado o peso do aprofundamento da crise, principalmente aquelas que vivemos em países periféricos, que somos negras, indígenas, asiáticas, imigrantes, que somos mães... O peso da múltipla jornada com trabalho remoto, cuidado dos filhos e da casa, do aumento da violência doméstica no confinamento com os agressores, da exposição na linha de frente sem direito a um só dia de quarentena e arriscando as vidas, de sermos alvo principal das demissões e reduções salariais e de sermos vítimas majoritárias da Covid pelo descaso dos governos.


Sem EPI’s e tratamento adequado, mulher negra é obrigada a usar saco de lixo em clínica

Mas se a pandemia piorou nossas condições de vida por um lado, por outro aumentou nossa revolta e em muitos casos foi o estopim para a reação daquelas que estão exaustas de um sofrimento que cada dia fica mais claro que não nos pertence. E também tornou mais explícito que as mulheres trabalhadoras têm um inimigo em comum: o capitalismo imperialista, cujos caudilhos não têm escrúpulos nem limites para sacrificar os trabalhadores para manter a qualquer custo uma sociedade baseada na exploração, fonte de seus privilégios.

E se o nosso inimigo é um só não tem sentido combatê-lo separadas. Se em cada parte do globo, quando nos unimos sob os métodos da nossa classe, somos capazes de grandes conquistas, unindo a força internacional das trabalhadoras, junto à luta dos nossos irmãos de classe, criamos as primeiras condições para alcançar uma vida plena em uma sociedade livre de exploração.

Precisamos nos mirar nos exemplos que as trabalhadoras do nosso tempo que aumentam a cada dia, o exemplo de enfrentar aos Estados e patrões, de negar a seguir se sujeitando a regimes autoritários, frutos de golpes institucionais e herdeiros de ditaduras, que só servem pra perpetuar nossas mazelas. Mas também nos exemplos deixados por todas as lutas de trabalhadoras ao longo da história, como na Revolução Russa onde elas conquistaram direitos elementares avançados como ao aborto, que mais de cem anos depois ainda precisamos lutar por ele. E também das mulheres da Revolução Espanhola, que foram linha de frente na luta contra o fascismo e contra os governos capitalistas que apoiados pela burocracia stalinista, coveira de revoluções, impuseram a derrota a esse capítulo importante da história das lutas operárias.

Sigamos o exemplo das mulheres que golpeiam certeiro nesse sistema que nos divide, oprime e explora. Que não se iludem com uma mulher negra no comando do bombardeio de trabalhadoras e seus filhos em outros países, nem com as empresas que incluem pautas democráticas e de gênero em suas propagandas, enquanto impõem jornadas extenuantes e abusos aos seus funcionários. Que não se dão por satisfeitas com uma representatividade vazia de mulheres em altos cargos pois, em seu dia a dia, seguem sentindo o peso da fome, do desemprego, da precarização e do patriarcado no impedimento a uma vida digna. Mulheres que pela experiência cotidiana entendem que é preciso unir forças aos homens trabalhadores e não com mulheres da classe burguesa de seus patrões.

Que neste 8 de março nossa inspiração sejam as mulheres que põem a cara na luta por um futuro digno, e que emprestarão à revolução um rosto multiétnico, internacional e feminino.




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