Economia

TENDÊNCIAS DO CAPITAL

A produtividade em tempos de estancamento secular

As três alas do mainstream na pós-crise 2008. O problema crucial da baixa produtividade. A respeito da subsunção real do trabalho ao capital. Umas linhas para a reflexão marxista.

Paula Bach

Buenos Aires

terça-feira 9 de junho de 2015| Edição do dia

Num recente artigo motivado pela terceira reunião do FMI pós-crise 2008, Gavyn Davies assinala no Financial Times que ainda que se esperasse que a grande crise financeira de 2008 provocaria um reordenamento fundamental da macroeconomia, sete anos depois se observam poucos sinais dessa “grande transformação”.

Não obstante, afirma que os políticos e teóricos mais influentes do mainstream estão divididos ao menos em três alas. Por um lado, Larry Summers, promotor da tese do estancamento secular. Por outro, Kennet Rogoff, uma ala otimista que sustenta que o estancamento desaparecerá assim que termine a desalavancagem da dívida. Por último, e quem sabe mais importante, Olivier Blanchard, condutor ideológico do FMI que no departamento de pesquisa deste órgão tende a coincidir com a posição de Summers. O que pretendemos assinar aqui é que uma divisão similar se reproduz num terreno que, se querem, mais teórico, tem a ver com as causas e possíveis derivações do débil crescimento da produtividade nos últimos anos e décadas.

O piloto da prosperidade

Como antecipamos em artigos anteriores, economistas como Gordon, Eichengreen, Summers, identificam e discutem a diminuição de longo prazo do crescimento da produtividade. Existem argumentos contrapostos sobre este assunto, que outro artigo do Financial Times define como “o piloto mais importante da prosperidade”. O jornal britânico afirma que apesar dos fabricantes estadunidenses terem adotado a automatização como parte de sua estratégia contra a deslocalização para a Ásia, o crescimento da produtividade em toda a economia norte-americana está próximo a um ponto morto. Além disso, um quadro similar se apresenta em todo o mundo, revelando “o problema mais crucial da economia mundial na atualidade”. Menciona, também, que a debilidade do crescimento da produtividade nos últimos anos está no coração do porquê os países avançados mantiveram uma rotina de baixo crescimento desde a crise, mesmo quando o desemprego diminuiu. Como assinalamos, a questão também constitui um grande núcleo de discussão no interior da burguesia. Do ponto de vista do prognóstico, a ala otimista sustenta que a fraca performance da produtividade seria um legado transitório da transição. A desaceleração da demanda mundial deprimiu temporariamente a disposição das empresas em investir em novos equipamentos e ideias, e a perspectiva mais cautelosa golpeia a produtividade.

No entanto, e também segundo o Financial Times, dados recentes do think-tank Conference Board mostram tanto que o crescimento médio da produtividade do trabalho nas economias maduras se desacelerou de 0,8% em 2013 para 0,6% em 2014, quanto que a queda é prévia à crise de 2008. Segundo a instituição, a queda do crescimento das economias europeias e japonesa, que começou na década de 90, se relaciona com uma lenta adoção de tecnologia. Nos Estados Unidos, por seu lado, a mais eficiente das principais economias, a produtividade começou a diminuir já em 2005, como resultado da queda dos dividendos que haviam tido um alto crescimento no contexto da revolução da tecnologia informática (IT) de 1990. De acordo com o FED de São Francisco, a produtividade dos Estados Unidos cresceu qualitativamente entre 1995 e 2003, impulsionada pelo auge da IT, com um crescimento que duplicou a média de 1,5% fixada nos anos 70, 80 e princípio dos 90. Concluindo, segundo o Financial Times, ainda que a produtividade – que indica a eficiência da utilização dos insumos como mão de obra e capital – tenda a evoluir durante longos períodos, as leituras do The Conference Board confirmam uma tendência de longo prazo de debilidade do crescimento que está gerando alarmes em todo o mundo. O problema esteve, inclusive, presente no último discurso de Janet Yellen, que citou a produtividade “relativamente débil” da economia dos Estados Unidos. Mas, para dizer a verdade, a burguesia não parece ter clareza alguma sobre as causas que explicam este significativo fenômeno.

A polêmica sobre as causas

As tentativas de explicação são várias. O Financial Times demarca entre as opiniões de distintos analistas que as empresas não estão investindo o suficiente em novos equipamentos e ideias, estão “desperdiçando” dinheiro em recompra de ações e dividendos e que a diminuição de longo prazo no investimento como porcentagem do produto resulta num lastro importante. Por exemplo, segundo um informe do instituto Apen e da Fundação Mapi, existe um “atraso significativo do investimento de capital” nos Estados Unidos, resultando num importante fator que contribui para o baixo crescimento da produtividade. Enquanto em 2014 o PIB real esteve ao redor e 8,7% acima do nível do final de 2007, o investimento interno privado bruto cresceu apenas 3,9% no mesmo período. Outro argumento se associa ao fato de que o setor de serviços – no qual o crescimento da produtividade é muito mais lento do que na manufatura – ocupa parte crescente das economias avançadas.

Alguns afirmam que este argumento, não obstante, é impotente para explicar tanto a tendência recente à diminuição do crescimento como o fato de que inclusive nos países chamados “emergentes” a taxa de crescimento da produtividade também se desacelerou. Um amplo setor coincide – com dissidências – que nos últimos anos se desenvolveram grandes avanços técnicos como a robótica, os motores autoconduzidos ou o genoma humano, entre outros. Também há amplo consenso em que as áreas de inovação têm escasso peso no conjunto da economia. Isto é, que as novas invenções não são incorporadas como fator qualitativo para a reprodução ampliada do capital, questão que explica o freio no crescimento da produtividade e, em última instância, da economia.

Mesmo que se trate de um problema certamente complexo que merece ser estudado em profundidade, a questão remete a uma certa independência entre a invenção e a criatividade humana, de um lado, e as possibilidades do capital de colocá-las em prática para o crescimento capitalista da economia, de outro.

Subsunção real

Em princípio, o baixo investimento parece ser um dos elementos chave que contribuem para explicar a questão. O problema é que a teoria burguesa, no melhor dos casos, se conforma com as explicações imediatas e jamais indaga as causas últimas. O que explica o baixo investimento? Aqui apenas adiantaremos breves elementos para refletir sobre o assunto.

Diante da crise dos anos 70 e como parte da ofensiva neoliberal, o capitalismo absorveu a China e a Europa do Leste colocando a conquista do que havia perdido como condição necessária de sua expansão e sobrevivência. Porém, essa absorção, sob a forma da tendência à sobreacumulação de capitais na China e sua conversão num novo competidor por espaços mundiais de acumulação, recoloca hoje o problema num nível mais “global” e complexo. Até certo ponto Rosa Luxemburgo colocou o assunto em termos graves ao assinalar que o capitalismo não pode subsistir economicamente que não seja penetrando a sociedade num sentido capitalista, mas sem consumar essa penetração. Dizia que uma sociedade capitalista pura é uma contradição. Pode-se ver, em grande medida, a chamada “globalização” como expressão dessa contradição, resultante do esquema neoliberal que, como disse Summers, permitiu os anos de crescimento moderado, mas “aceitável”. No entanto, tanto a crise de 2008 como as condições atuais da recuperação revelam esta contradição. Os alarmes do capital soam e no horizonte se desenha a necessidade de conquistar novos espaços para a acumulação, sem os quais o investimento permanecerá débil. E esse investimento débil é em grande o fator que impede incorporar as novas invenções num grau de reprodução ampliada que permita uma expressão vigorosa da economia capitalista. Até certo ponto, esta incongruência se mostra como limite da capacidade do capital para expropriar os saberes e capacidades humanas colocando-os a serviço da produção incrementada não apenas de valores de uso, mas de valores de uso portadores de valor e, portanto, de mais-valia, substância única criadora de capital. A diminuição do crescimento da produtividade expressa, então, ao menos como tendência, os limites para a subsunção real do trabalho ao capital. Ou, dito de outra maneira, coloca em questão o modo especificamente capitalista de produção.




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