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Crônica | A primeira enchente a gente nunca esquece

Publicamos o relato de uma moradora da Zona Oeste do Rio de Janeiro sobre as enchentes ocorridas nessa semana

sábado 18 de dezembro de 2021 | Edição do dia

eu tinha onze anos. a casa do meu amigo foi carregada. vi as paredes tombarem inteirinhas e serem puxadas em segundos pela correnteza. ele não teve tempo de pegar nada, mas não saiu da água até resgatar os cachorros.
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a minha penúltima enchente não foi menos difícil.

era 2012, eu morava aqui em cosmos, bairro da periferia do rio de janeiro. estava voltando do trabalho, a água chegando ao joelho, quando vi uma mulher cadeirante e um menino – que depois soube que era uma mãe e seu filho de treze anos – parados no meio do nada. dois homens tentaram ajudar e desistiram.

bati num portão próximo, gritando muito. uma senhora atendeu, aparentemente tranquila. pedi, por favor, que deixasse a moça na cadeira de rodas entrar. ela abriu um sorriso e falou pra todos entrarmos, mas adiantou que a coisa não estava melhor lá dentro. reparei, então, que ela segurava um baldinho.

a casa estava arrasada. tinha uma mulher com bebê recém-nascido, uma criança de quatro anos com uma doença grave no pé, que não podia de jeito nenhum ter contato com a água suja, e a senhora idosa, mãe da mulher.

colocamos a mulher cadeirante na cama, junto das crianças, e eu, a senhora e o menino de treze fomos tirar água do corredor. até que eu tive a ideia de olhar por cima do muro.

era um terreno baldio, completamente alagado. de longe, vi um homem. gritei. expliquei que precisávamos de reforços e ele veio prontamente.
ficamos ali, lutando contra a corrente.

horas depois, quase todos os móveis destruídos, a água baixou e as pessoas pareciam tão felizes por estarem bem que fiquei comovida.
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ano passado teve uma enchente que arrasou grande parte da zona oeste. nada aconteceu comigo, mas não pude deixar de lembrar de quando eu e minha mãe andávamos pela comunidade do cavalo de aço depois das chuvas, pra visitar as amigas, ajudar a limpar as casas. me chamava especial atenção os montes de televisores nas ruas.

hoje, vejo imagem parecida no conjunto habitacional onde moro, mas de móveis e colchões.

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a minha última enchente foi ontem. digito esse textinho ainda com dor no braço.

por volta das oito da noite, a minha amiga de nove anos, a kayla, bateu na janela, muito forte, aos berros, pela primeira vez me chamando de bruna e não de tia. entrou esbaforida, mandando eu desligar todas as tomadas e colocar os móveis no alto, que a água estava chegando, que algumas casas lá na frente estavam alagadas, que tinha um monte de bicho, até cobra etc. etc. etc.

me vi nos olhos dela. reconheci aquele medo.

sugeri que ela tomasse um banho, tentei acalmá-la. foi o tempo de correr, colocar tudo pro alto, desligar tomadas, pegar rodo.

um perrengue.

enquanto empurrava a lama, senti um pouco de tudo. raiva. insegurança. mas às duas da manhã prevaleceu o sentimento de gratidão ao meu pai Omolu, que me cuida sempre, que protege meu corpo e meu Ori.

hoje, no entanto, ao ver que meus vizinhos perderam tudo, voltei a um sentimento fundamental pra mim: o ódio de classe, que é meu combustível, que me faz não desistir, apesar de todas as dificuldades.

é um absurdo como acontece de tudo aqui e ninguém vê.

exaltamos tanto a periferia, mas esquecemos de que elas não são iguais. que cada uma sofre violências específicas. uma coisa é subúrbio, outra é favela. uma coisa é favela na zona sul, outra é favela na zona oeste. uma coisa é favela vertical, outra é favela horizontal.

pessoas da extrema zona oeste do rio de janeiro – vilar carioca, cosmos, urucânia, santa cruz, sepetiba... – são totalmente invisibilizadas. por isso, o projeto genocida do atual governo alcança maior sucesso nessa região.




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