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DOSSIÊ 13 DE MAIO | A prenda de Bolsonaro e do regime golpista no mês da abolição: fome e corpos para velar

Cristina SantosRecife | @crisantosss

quinta-feira 13 de maio | Edição do dia

Imagem de Victor Cubaia

[...]Percebi que no frigorífico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago. Comecei a sentir a boca amarga. Pensei: Já não basta as amarguras da vida? [...]

Carolina Maria de Jesus – Quarto de Despejo

No mês da “abolição”, em uma conjuntura atravessada pelo recrudescimento da fome no Brasil e há apenas uma semana do brutal massacre de Jacarezinho, voltar à escrita de Carolina soa pura atualidade.

Amarga está a realidade nacional, que convive com o marco de mais de 428 mil mortos pela covid-19, fruto do negacionismo do governo Bolsonaro, que encontrou nos diferentes atores deste regime golpista, apoio para passar os mais nefastos ataques na classe trabalhadora e os setores oprimidos mesmo durante a pandemia, como foram as suspensões de contrato, corte de salários, anulação de normas de segurança do trabalho. E como se já não fosse amargura suficiente este governo negacionista, tantas mortes e violência policial, também temos 19 milhões de brasileiras e brasileiros amargando a presença da fome em seus lares.

Viemos denunciando aqui no Esquerda Diário a atualidade do problema da fome. Em dezembro de 2020, ainda com a população recebendo a última parcela do auxílio emergencial, o país registrou o equivalente a quase 10% da população total passando fome. O dado fica ainda mais contraditório quando constatamos que a produção agrícola do Brasil do mesmo ano foi suficiente para alimentar 11% de toda a população mundial, um contingente de aproximadamente 800 milhões de pessoas.

A fome não surge do nada, ela entra nas casas brasileiras e se senta à mesa à convite de Bolsonaro, de Mourão e de todo o regime golpista – de Dória e Rede Globo até STF –, que apoiaram o governo em cada um dos ataques que vieram para degradar ainda mais as condições de vida da classe trabalhadora e do povo pobre. Foi o STF que declarou constitucional a terceirização irrestrita junto ao governo Temer, jogando milhões no trabalho precário, quase sem nenhum benefício ou direito e com salários-miséria; a reforma da previdência só foi aprovada pelo grande apoio dos partidos da ordem que votaram a favor de que a classe trabalhadora tenha que trabalhar até morrer. O desemprego recorde que vemos hoje é fruto de todo um conjunto de desmonte de direitos da classe trabalhadora que os distintos governos descarregaram nas nossas costas em benefício dos especuladores da dívida pública.

Assim como o desemprego e a informalidade atingem com mais força a população negra, o mesmo acontece com a fome: 67,8% de negras e negros convivem com algum nível de insegurança alimentar no país. No Nordeste, onde há uma maior concentração da população negra, a situação é particularmente alarmante. A região concentra apenas 26,8% da população total, mas a insegurança alimentar atinge 73% dos nordestinos.

Mesmo diante da pandemia e da brutalidade da fome, nas periferias, favelas e palafitas deste país, a violência do estado corre solta. O massacre de Jacarezinho nos escancarou um retrato bastante nítido da realidade dos negros e pobres da nossa classe: nos matam de covid-19, nos matam de fome e nos matam na bala. No dia seguinte ao massacre, o vice-presidente da república, Hamilton Mourão, declara seu aval à operação, nisso que funciona como uma espécie de pena de morte não oficializada, porém decretada: “tudo bandido”. Quando Mourão fez esta declaração, as vítimas não tinham nem sido reconhecidas ainda.

Dizer é “tudo bandido” é a forma da extrema direita dizer que “tá ok”; porque esse setor da nossa sociedade acredita que eles sozinhos podem decretar pena de morte. Essa expressão mostra que a própria ideia racista de quem é “bandido” no Brasil tem rosto; é o mesmo racismo que foi protagonista do que deve ser um dos maiores exemplos de impunidade do mundo, que foi quando a polícia do estado de São Paulo invadiu o Carandiru e executou 111 detentos desarmados; é essa mesma ideia racista que manteve os índices de letalidade da polícia brasileira altos mesmo com isolamento social: a polícia brasileira conseguiu ter um aumento de 6% na sua letalidade no primeiro semestre de 2020 em comparação com o mesmo período de 2019; e é o mesmo racismo que faz com que sejamos negras e negros a maioria entre desempregados e entre os famintos do nosso país.

Em um texto de 1958, George Breitman¹ coloca que mesmo operando de maneira distinta dos tempos da escravidão, o racismo “foi mantido depois da abolição exatamente pela mesma razão que foi introduzido sob o sistema escravista que se desenvolveu do século XVI adiante: por sua utilidade como um instrumento de exploração; e por essa mesma razão, não será abandonado pela classe dominante de qualquer sociedade exploradora desse país”. Quando os argumentos religiosos se mostraram insuficientes para justificar socialmente o racismo, a “ciência” entrou em campo com todo tipo de “pseudo estudos” apoiados nas ideias eugenistas, que diziam comprovar nossa inferioridade em aspectos intelectuais, físicos e até mesmo morais. Nina Rodrigues, médico legista e psiquiatra, foi quem fortaleceu no Brasil a teoria do "criminoso nato" do psiquiatra italiano Cesare Lombroso. No seu livro Mestiçagem, degenerescência e crime, Nina Rodrigues coloca os negros como “delinquentes por natureza” e com base nesse preceito, propõe a criação de leis penais mais rígidas para a população negra.

Quando o vice-presidente Mourão fala impunemente que as 27 vítimas do massacre de Jacarezinho eram “tudo bandido”, é nestas mesmas ideias, de Cesare Lombroso e Nina Rodrigues, em que ele está se apoiando. Ideias que surgem para tentar responder a realidade material de uma burguesia medrosa, que convive dia e noite com o pavor da força da luta negra e por isso dedica tanto dos seus aparelhos ideológicos para justificar seu racismo e desta forma nos massacrar com as balas das polícias, nos dividir tentando apagar nossa identidade, nos matar de covid-19 e de fome.

É necessária a luta por derrubar Bolsonaro, Mourão e todo o regime golpista, que inclui o assassino Claudio Castro, governador do Rio de Janeiro, que é da base aliada do governo e responsável direto pelo massacre de Jacarezinho; luta que precisa ser independente do PT, que administrou o capitalismo brasileiro por 13 anos e também usou e abusou da mão dura do Estado: foi o governo que enviou tropas para reprimir nossos irmãos haitianos além de seu governador atual na Bahia, Rui Costa, comandar uma das polícias mais letais do país, que carrega a estatística de ter entre suas vítimas 97% de negros e negras. Hoje, 27 famílias do Jacarezinho velam seus mortos junto a outras 422 mil que vivem o luto de seus entes queridos mortos por causa do negacionismo deste governo. Muitas destas famílias, além da tragédia da perda, estão convivendo também com o dilema da fome.

Neste 13 de maio, nós do Esquerda Diário e Quilombo Vermelho estaremos nas ruas em defesa das vidas negras, levantando uma perspectiva da classe trabalhadora e do povo pobre e oprimido, que não inclui depositar nenhuma confiança em uma suposta reforma dessa instituição racista que é a polícia – seja civil ou militar – ou depositar qualquer expectativa em um processo de impeachment, que traria um governo do racista Mourão para seguir tocando a agenda do golpismo, o que para nós significa mais violência e mais fome.

As manifestações que acontecerão em todo o país precisam ser um ponto de apoio contra essa extrema direita herdeira da ditadura, mas também das variantes burguesas que se pintam de democrática, mas que mantêm todas as políticas de ataque as condições de vida das populações trabalhadoras e pobres de mãos dadas com Bolsonaro. Precisamos confiar na força da nossa luta, como vem fazendo o povo colombiano, que derrubou a reforma tributária do governo de Duque utilizando os métodos da classe trabalhadora – Greve Geral e mobilização –. Somente através de nossos métodos de luta e confiando na força da nossa classe seremos capazes de dar resposta aos problemas que afligem a classe trabalhadora e os setores oprimidos.

1 - Militante trotskista do Socialists Work Party nos Estados Unidos pela construção da quarta internacional e autor do texto “Quanto surgiu o preconceito contra o negro”, presente no livro A Revolução e o Negro das edições Iskra.




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