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"A prática é bem diferente da ideia que vendem" relata professora de escola integral de SP

João Doria e Rossieli Soares querem avançar na imposição de escolas PEI no estado de São Paulo. Neste momento, várias escolas receberam a indicação para se tornarem PEI e as Diretorias de Ensino propagandeiam esse modelo sem dizer que esse projeto tem aprofundado desigualdades, excluído estudantes e implicado em relações de trabalho permeadas por assédio e sobrecarga aos professores. Reproduzimos aqui o relato de uma professora que trabalhou numa escola de ensino integral de São Paulo.

quinta-feira 29 de abril| Edição do dia

Ao primeiro olhar o Programa de Ensino Integral (PEI) parece atrativo, tanto aos alunos, pela possibilidade de vivenciar novas disciplinas quanto aos professores por acreditarem que irão desenvolver diferentes projetos com a possibilidade de um acréscimo de 75% no salário.

Contudo, o que as primeiras semanas provam é que a prática é bem diferente da ideia que vendem do PEI. São 9 aulas diárias, com o acréscimo de diversas disciplinas, variando de acordo com o ano, sendo comum a todos Eletiva, disciplina que encanta os olhos no primeiro contato, porém logo percebemos que não há verba para realizar as aulas ou mesmo a culminância e muitos acabam tirando do bolso o custo com os materiais. Na verdade, para nenhuma das novas disciplinas há materiais diferenciados para trabalhar, assim o professor deve se virar para garantir aulas diversificadas sem recursos e manter isso por um ano não é fácil, é custoso e injusto com os alunos pois foi prometido a eles “disciplinas diversificadas”.

O longo período dentro da escola é cansativo aos alunos, na prática após o almoço as aulas não rendem o suficiente, pois estão cansados e com sono. Como os alunos ficam mais tempo na escola, eles realizam várias refeições ali, 1 Almoço e 2 lanche. Porém, embora seja propagandeado que a merenda nas PEIs é um diferencial, na maioria das vezes os lanches que os alunos recebem é bolacha de maizena ou bolacha de água e sal, bolinho industrializado ou pão com manteiga.

A forma como o PEI está organizado acarreta muita transferência de alunos, por razões diversificadas, muitos tem compromissos com suas famílias, ou fazem cursos no contraturno e não podem ficar o dia todo na escola, muitos alunos se sentem pressionados com a cobranças de resultados, é muito comum ser dito aos alunos que “eles agora estão no PEI, tem que mudar”, ou quando um aluno demonstra não estar se adaptando falarem à ele e seus familiares que o mesmo “não tem perfil de PEI” e aconselharem a transferência. O PEI torna a escola muito mais excludente do que acolhedora, como querem nos convencer. Toda essa exclusão das PEI faz com que atendam um número muito reduzido de alunos, prejudicando as escolas do entorno que necessitam acolher esses alunos e acabam ficando ainda mais superlotadas.

Existe no PEI a tutoria, onde cada aluno escolhe qual professor será seu tutor naquele ano, e este deverá ser o responsável pelo aluno dentro da escola, acompanhando seu rendimento e atuando em casos de indisciplina, atendimento aos pais e acompanhando sua frequência, nesse caso o professor assume o papel que hoje nas escolas regulares é do mediador ou professor coordenador, e normalmente essas ações são realizadas nas chamadas Horas de Estudo, momentos nos quais o professor não está em aula e deve-se dedicar à sua formação, mas na prática isso dificilmente acontece, pois as tutorias devem ser realizadas toda semana, sobrando pouco tempo para o professor de fato dedicar-se à sua formação.

Há ainda a avaliação de desempenho, chamada de Avaliação 360, realizada entre todos os funcionários da escola, onde todos se avaliam e os alunos avaliam a todos, porém é prática da direção utilizar essa avaliação para pressionar os professores, pois o resultado dela pode acarretar a cessação. Nesse processo da 360 a direção tem a palavra final na avaliação, em um processo chamado de calibragem, onde uma comissão montada pela gestão (todos os coordenadores de área, coordenação geral, diretor e vice diretor) e supervisão calibram as notas recebidas, e avaliam os documentos entregues pelos professores se foi tudo cumprido, este último em um processo bastante produtivista, como os professore fazem seus planos de ação, a comissão de calibragem avaliam o quanto do seu plano foi cumprindo (exemplo 10%, 50%, etc.). Nesta calibragem a comissão pode diminuir ou aumentar a nota e os critérios são muito subjetivos, a palavra final é sempre da direção, inclusive isso está expresso em todos os documentos orientadores do PEI, o que normalmente acarreta uma direção autoritária e assediadora.

Qualquer tipo de ausência do professor é utilizado como instrumento de assédio (sim, qualquer tipo, licenças saúdes, doação de sangue, TER, abonada), isso acontece porque quando um professor está ausente aquele que está na escola em sua Hora de Estudo deverá substituir o colega, as direções utilizam essa regra para colocar um professor contra o outro, alegando que se um está sem hora de estudo é porque o colega se ausentou. Além disso, as ausências são utilizadas para retirarem pontos dos professores na calibragem da 360. Devido a isso é muito comum professores trabalharem doentes e debilitados. Ao fim do ano o ambiente que se depara é uma sala dos professores onde todos estão esgotados emocionalmente.




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