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Olimpíadas | A olimpíada é delas: mulheres conquistam 3 dos 4 ouros do Brasil em Tóquio

Isadora de Lima Romeraestudante de artes visuais no IA-Unicamp

quarta-feira 4 de agosto | Edição do dia

Ana Marcela Cunha na maratona aquática, a dupla de velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze e a ginasta Rebeca Andrade conquistaram o mais alto lugar do pódio e, assim, 75% dos ouros do Brasil vieram de atletas mulheres. O Brasil tem a maior delegação feminina da história do país, um reflexo da força das mulheres dentro e fora das quadras, pistas e águas, mas também, um reflexo da ainda enorme desigualdade dentro e fora do esporte.

Os primeiros jogos olímpicos da era Moderna foram realizados em 1896, mas só em 1996 o Brasil viu suas atletas mulheres subirem pela primeira vez ao pódio. Foram absurdos 100 anos de diferença para as mulheres conquistarem espaço no pódio olímpico.

Quando as medalhas vieram, foram logo quatro no vôlei de praia: Jaqueline e Sandra com o ouro, e a prata de Adriana e Mônica. Ainda em 1996, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, as brasileiras contavam com um time espetacular no Basquete, com Magic Paula e Hortência no elenco, que conquistou a prata e ainda veio o bronze com o vôlei de quadra.

Nos esportes individuais, o primeiro ouro feminino do Brasil veio só em Pequim (2008), com Maurren Maggi que saltou impressionantes 7.04m. Isso foi 88 anos depois do primeiro ouro masculino. Esse cenário que escancara a discriminação contra as mulheres no esporte. O longo período sem pódios, foi um percurso histórico que envolveu preconceito, falta de investimento público e estruturas para treino e, em alguns esportes, a prática feminina chegou a ser proibida por lei.

Em 1941, Getúlio Vargas baixou o decreto-lei 3.199 que proibia a prática de futebol por mulheres por ser “incompatível com as condições de sua natureza”. Além do futebol, qualquer tipo de luta também foi proibida para as mulheres, mas, mesmo assim, muitas ainda a praticavam na clandestinidade. “Essas mulheres que jogavam, pretas, pobres e suburbanas, estavam de fato quebrando vários paradigmas. Mas, a partir de então, o discurso público legitimado pelo Governo era de devolver a mulher ao ambiente doméstico, não de alçar voos tão grandes no ambiente público” conta Aira Bonfim, historiadora e pesquisadora, que foi curadora da exposição “Contra-Ataque! As mulheres do futebol”, em 2019 no Museu do Futebol, em entrevista para o El País. Para se ter uma noção, o futebol feminino só foi regulamentado em 1983 e o Campeonato Brasileiro de futebol feminino, nos moldes de hoje, só começou em 2013, cinco anos depois da medalha de prata conquistada pelas brasileiras no futebol em Pequim (2008).

Em Tóquio, a delegação olímpica feminina bate muitos recordes, com 48% da delegação, a maior participação feminina da história e 75% das medalhas de ouro, 3 das 4 até esse momento. Todos esses recordes demonstram, ao mesmo tempo, a garra das atletas brasileiras, a força imparável da luta das mulheres por seus direitos e a exclusão das mulheres nos esportes. Também escancaram a sociedade machista em que vivemos, isso porque são pódios que poderiam ter ocorrido muito antes se não fosse o preconceito, a lógica do lucro a qual os esportes são subordinados e a opressão cotidiana que sofrem a maioria das mulheres.

Para saber mais escute nosso podcast Feminismo e Marxismo: Mulheres e o Esporte

As brasileiras, em sua maiorianegras, que no mercado de trabalho em geral chegam a receber 60% a menos que um homem branco, sofrem na imensa maioria das vezes com a dupla jornada de trabalho, sendo responsáveis por manter os cuidados da casa e dos filhos. Esse cenário, por si só, impede que a maioria das mulheres tenham sequer tempo para praticar esportes, imagine então a dificuldade de conseguirem se profissionalizar em uma modalidade. Além disso, as mulheres, durante a pandemia, viram seu espaço no mercado de trabalho retroceder muito, e no esporte enfrentam um índice ainda mais alarmante de desigualdade salarial. Para pegar a paixão nacional como exemplo, o salário médio de uma jogadora de futebol feminino de um clube grande é de R$1.880,00, enquanto o salário do Neymar chega a ser 8.500 vezes mais alto. Clubes como o São Paulo gastam com a folha de pagamento cerca de 100 milhões no masculino, e, para o feminino, este número é na casa dos 100 mil.

Mesmo com todo esse cenário absurdo de desigualdade dentro e fora dos jogos, em Tóquio até o momento contamos com Mayra Aguiar que, com o bronze no judô, bateu um recorde por ser a primeira brasileira com 3 medalhas individuais. Rayssa Leal, nordestina de 13 anos sendo a mais jovem da história e a primeira medalha do skate brasileiro nas olimpíadas. Rebeca Andrade, levando a cultura negra para o solo, ao som de Baile de Favela e conquistando duas medalhas na ginástica, Laura e Luisa conquistando o primeiro pódio da história do tênis brasileiro.

A Fadinha do Skate, que volta ao Brasil da reacionária Damares, onde as meninas só devem vestir rosa, em cima do shape de seu skate e com a histórica medalha de prata, mostra que as brasileiras não vão se contentar em serem recatadas e do lar. E o ouro da atleta negra Rebeca Andrade, filha de mãe solteira, responde em grande estilo o comentário do racista e vice presidente da república Mourão, sobre a tal “fabrica de desajustados” que, segundo ele, seriam as famílias conformadas por mães solteiras e avós.




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