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ARGENTINA | A nova onda de lutas operárias na Argentina e os desafios da esquerda

Esta semana discutíamos com companheiros e companheiras sobre o que esta se passando na classe trabalhadora. Os grandes meios de imprensa, oficiais e opositores, se “passava musica”. Contudo as noticias que mandavam nossos correspondentes de várias regiões nos ajudavam a encontrar uma resposta.

quinta-feira 18 de março | Edição do dia

O frigorífico Arrebeef, que conta com 1000 trabalhadores, segue em estado de ebulição, com a fabrica rodeada e o sindicato traidor ocupado. Os metalúrgicos de Siderar Canning rechaçaram a conciliação falsa e voltaram a entrar em greve. Uma assembléia da linha B do metrô votou a paralisação em defesa da saúde dos trabalhadores. Nesse mesmo dia, nas ruas portenhas se agitavam. A avenida “mais ampla do mundo”foi cenário de cortes de rua e caravanas: o movimento piqueteiro que denunciava a pobreza, as e os jovens entregadores fartos da precarização, os trabalhadores do Swiss Just que por pouco não foram demitidos.

E chegavam mais noticias:ferroviários despedidos marchavam ao Minitério do Trabalho; enfermeiras do hospital Larcade completavam um mês de mobilizações, trabalhadoras da pesca bloqueavam a porta do Apolo Fich em Mar del Plata exigindo a reincorporação, leiteros do Mayol levantavam tendas em frente a planta exigindo que os paguem os salários, os jovens do Hey Latam completavam a primeira semana de ocupação contra o fechamento.

Indo para o sul nos interávamos da ocupação do Digital Fueguina por 200 trabalhadores que lutam pelo próprio salário. Também da mobilização unitária de ceramistas, enfermeiras, professores e desempregados de Neuquén, continuada dois dias depois por 1500 trabalhadores da saúde. Nos interamos das marchas massivas contra a mega mineradora contaminante em Chubut. Indo ao norte, soubemos da paralização na fabrica de papel de Tucumán, de marchas da saúde e o conflito no Ingenio San Juan, além do protesto dos motoristas, trabalhadores do comércio e professores de Jujuy.

Contudo, talvez o conflito mais estendido, que começada a atravessar o pais, ocorria nas escolas de 14 estados. Por salário, contra a precarização, contra a volta às aulas presenciais e inseguras. Em Mendonza ocorreu uma paralisação contundente acompanhada por mobilizações em várias cidades. Em Tucuman houve marchas auto-convocadas massivas. O mesmo se repetiu em outras cidades. Em Chaco, Santa Cruz e Tierra del Fuego, as paralisações somaram 90% de acatamento e com mobilizações. Se contagiaram as cidades de Misiones, Entre Rios, Rio Negro, Catamarca.

Como veremos mais adiante, esses processos recém começaram. Existem desigualdades, terão que enfrentar as tentativas de serem derrotados e contidos. Contudo há uma mudança.

1. O primeiro impulso

Os acontecimentos dos últimos dias foi um raio em céu sereno? Não, rebobinemos um pouco. A pandemia e a quarentena não somente foram um golpe a saúde e ao bolso de milhões, como também a capacidade de resposta operária. As cúpulas sindicais deixaram passar, contudo havia outro motivo, mais político: as ilusões e expectativas de grande parte da classe trabalhadora em um novo governo peronista depois de anos de macrismo. Segundo o Ministério do Trabalho, em abril de 2020 houveram somente 25 paralisações e 8 mobilizações em todo pais.

Contudo, as coisas começam a se mover. Entraram em cena os precários, Guernica foi a mais conhecida e massiva de uma série de lutas por terra e moradia, que ocorreram em várias cidades. Também a juventude que trabalham com aplicativos, comidas rápidas e residentes eram parte das primeiras respostas, como os trabalhadores da limpeza de Córdoba e feirantes de distintas cidades.

Depois começaram a despertar a classe trabalhadora ocupada. Em setembro, graças a nossos correspondentes em todo pais, dizíamos que se escutavam “múrmuros nos portões”. O próprio ministério já reconhecia 125 paralisações de 91 mobilizações. Capais que lhes passou alguma...

No ultimo trimestre de 2020 vimos o crescimento dos conflitos, alentada sobretudo pelos atrasos de salário. Dezembro terminou agitado com a dura greve nacional dos trabalhadores do azeite por 20 dias, as mobilizações auto convocadas dos trabalhadores da saúde, novos conflitos nas linhas e seções da UTA, e lutas em distintas fábricas (metalúrgicos en Gálvez, Loma Negra, Gri Calviño, etc).

Podemos dizer que essa foi uma primeira onda de lutas desde que começou a pandemia no governo de Alberto Fernández e Cristina Kirchner.

2. Uma conta em branco?

2021. Tudo indicava que o efeito verão ia “acalmar os ânimos”. O governo confiava que a situação econômica começaria a recuperar os empregos e salários. Inclusive retirou ajudas, como o IFE (para os informais) e as ATP (para as empresas). Mas os problemas de fundo permaneceram e alguns se aprofundaram.

E quais são os motores do mal estar?

A confirmação de que durante o primeiro ano de governo peronista não somente não se recuperou o poder aquisitivo, mas seguiu-se perdendo, a situação desesperadora dos setores mais empobrecidos, o mal estar na “primeira linha” que segue dando a vida em péssimas condições de trabalho e salário, a ameaça de fechamento e demissões massivas em setores que seguem em crises (ou a usam como desculpa), as tentativas patronais de voltar a “nova normalidade” expondo as vidas dos trabalhadores.

Por tudo isso, janeiro começou com conflitos que podiam ser “isolados”, mas que não “tiraram férias”. Paralisações em linhas de transporte (Mar del Plata, La Matanza, Florencio Varela, etc), em outras empresas privadas, hospitais (Larcade, Notti), professores precarizados, desempregados, trabalhadores rurais autoconvocados no Rio Negro, entre outros.

Fevereiro arrancou com mobilização em Mendonza de 500 trabalhadores viniculas auto convocados. Seguiu com uma forte paralisação contra as demissões na Firestone (Lavallol), paralisações e piquetes em Guerrero Motos (Santa Fe) pelo mesmo motivo, conflitos em empresas de distintos setores e pontos do pais (Saúde em Mendoza, Municipais em Neuquén, YPF Vaca Muerta, Médicos de Santa Fe, Tercerizados de Edesur, Correio Argentino).

Uma série de conflitos começaram a se destacar, como o de aeronáuticos. Ainda que LATAM conseguiu o afastamento “voluntário” da maioria de seus funcionários, graças ao favor do governo e dos sindicatos, o setor combativo cumpriu 10 meses de luta pela continuidade do trabalho. Seu conflito foi ligado ao dos terceirizados da Aerolinea (GPS e Securitas), que depois de várias ações conseguiram romper com o congelamento salarial.

No metrô, o rechaço aos descontos ilegais a trabalhadores maiores de 60 gerou medidas de força que a condição kirchnerista utilizava para negocias com Larreta e Metrovias. A recente paralisação da Linha B confirmou que a vontade de defender a saúde operária segue intacta. Em Jujuy acontece um processo muito interessante entre os trabalhadores ruais. A Ledesma, com muitas trabalhadoras e uma nova condição combativa, protagonizou mobilizações para ampliar a quantidade de planos de entressafras e conseguiu duplicar-los. Começaram as primeiras resistências dos professores que se estenderam nas ultimas semanas.

A juventude voltou a sair às ruas. Os que tomaram a frente foram os jovens entregadores do Pedidos Ya. Em Santa Fe, San Luis, Mendonza, Cordoba e Buenos Aires, os jovens fizeram paralizações e caravanas por reivindicações salariais que confluíram em uma medida nacional. Essa juventude nos abre a porta para nos determos num dos fatos mais importantes que traz esse novo ano.

3. Ataques duros, respostas duras

No dia 24 de fevereiro, após 86 dias de acampamento e frente a quebra de empresas, os tele operadores da Hey LATAM decidiram ocupar o call Center em Rosário. E disseram ao Estado que podem colocar essas instalações, aparatos e sua capacidade ao serviço da comunidade, atendendo chamados para enfrentar a pandemia ou a violência de gênero.

Depois de ocupar a empresa, foram com uma bandeira que dizia “não às demissões massivas” até o frigorigico Arrebeef. Ali foram recebidos por muitos dos seus mil trabalhadores. “Nos pagam 20 mil pesos por quinzena. Nunca fizemos nada, contudo puxaram tanto a corta que a romperam”. O gigante da carne foi ocupado e rodeado pela população que os apoiavam. Nos últimos dias se mantiveram firmes apesar das manobras e dos ataques. Ocuparam também a sede do sindicato, que já estava “vendido” a patronal.

Em poucos dias surgiram outros exemplos. A ocupação da empresa de logística Swiss Just contra a terceirização. O bloqueio duro com paralisação geral em Siderar Canning contra o ataque ao convenio e ao ativismo. A “permanecia” pacifica na Clinica San Andés frente a vacinação, outro bloqueio na pesqueira Apolo Fish, a recente ocupação da Digital Fueguina e uma na YPF de Rosario.

Todos esses processos mostram algo novo, ao menos por um tempo. A decisão de ocupar as empresas (ou bloquea-las por um tempo) frente aos fechamentos, as demissões massivas ou ataques brutais às condições de trabalho. Um método histórico retomado por setores que inclusive não tinham uma grande experiência de organização.

Mas não é somente uma percepção nossa. Segundo o Ministério do Trabalho, em novembro e dezembro de 2020 houveram ao redor de 15 bloqueios e ocupações por mês. Quase o mesmo que em uma semana de fevereiro, uma época tradicionalmente tranqüila. Tanto que nem se deram a tarefa de fazer as estatísticas.

O ultimo dado o traz um analista próximo ao mundo empresarial. Na sua coluna com titulo “As lagrimas do patrão” no jornal La Nacion, Francisco Oliveira conta que “durante 2020, ainda com salários perdendo frente a inflação, o Covid, a quarentena e a ameaça de fechamentos de posto de trabalho facilitaram a convivência entre empresários e dirigentes de sindicatos. A pandemia terminou, contudo 2021 parece ter iniciado distinto”. Depois de citar alguns bloqueios de fabrica, sentencia “o establishment econômico contempla o cenário com preocupação”.

4. O que se passa na classe trabalhadora?

Voltamos a pergunta inicial.

Em primeiro lugar podemos dizer que estamos frente uma nova onda da luta de classes. Ainda que a crise “recém começa”, ainda que todas as cúpulas sindicais estejam alinhadas como governo, são cada vez mais os setores que mostram sua disposição a resistir aos ataques. Isto é algo que não víamos há anos. Depois das lutas de 2014 e das jornadas de dezembro de 2017, o peronismo político e sindical buscou contentar a insatisfação com a consigna “até 2019”.

Um fenômeno que, vale notá-lo, hoje não tem seu centro na zona metropolitana. Mas sim, a “novidade” é que muitas das lutas que contamos vem de empresas, campos, escolas, hospitais do interior.

Em segundo lugar, há exemplos de radicalição iniciais, mas muito interessantes. Vemos métodos mais duros e decididos de luta, recuperando tradições históricas da classe trabalhadora, ,como as ocupações de empresa e bloqueios totais. Em terceiro lutar, há um crescente mau estar com as cúpulas sindicais que começam a expressar um fenômeno de auto organização em distintos grêmios e lugares do pais. Seções da UTA (Córdoba, Rosario, Tucumán), call center (Rosario, Tucumán), rurais (Jujuy, Tucumán, Río Negro), hospitais (várias cidades), professores (também em várias cidades), ou em conflitos como Arrebeef, Apolo Fish, Pedidos Ya, Siderar, para nomear alguns.

Esses fatos marcam o surgimento de alguns setores de “vanguarda”, mais combativos, que não víamos nos últimos anos. Mas que, diferente de outros momentos, terão em frente um governo peronista tentando resgatar a Argentina capitalista.

Para seguir refletindo sobre este processo e também para influenciar nessa experiência política, no final de março o jornal La Izquierda Diário e o Movimento de Agrupações Classistas relançamos nossa rede de milhares de correspondentes, em mais de 60 sindicatos e centenas de cidades pelo pais e pelo mundo.

5. A esquerda classista e seu papel para os momentos que virão

Como dizíamos se tratam de processos iniciais. Haverão avanços e retrocessos. O governo e os empresários tentarão os dividir e conter, como fazem agora com o “imposto ao salário” que chega a alguns setores sindicalizados. Contudo estamos convencidos de que distintos fenômenos como os que recorremos se extenderão nos próximos anos. Não somente em nosso pais, já estamos vendo também em outras partes do mundo.

É impossível presidir os tempos, mas estamos entrando em uma etapa marcada por uma crise econômica internacional profunda, um drama sanitário que joga lenha nessa recessão e uma catástrofe social que já golpeia milhões.

Cada um dos pactos que fez o governo da Frande de Todos com os empresários e a burocracia tem um objetivo de descarregar essa crise sobre o povo trabalhador. O mesmo é a decisão de honrar a fraudulenta divida com o FMI e os “bancos abutres”. A oposição de direita que já conhecemos, pressiona para um ajuste mais duro.
Por isso, cada uma destas lutas é uma oportunidade para que a esquerda classista se jogue com suas propostas.

Por um lado, apoiando cada conflito e processo de auto organização para desenvolver toda sua força operaria, com assembléias, comitês de luta e tudo que ajude a organizar o ativismo.

Por outro, apostando no reagrupamento dos setores em luta e combativos. Não somenta para “bancar” cada conflito, mas sim para ter mais força para exigir as direções para que convoquem medidas unitárias (ou paguem o custo de não faze-lo). Os caminhos para enfrentar e superar as burocracias e direções reformistas será um grande tema de debate para o proximo congresso do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas).

Há outro tema urgente, como colocamos aos companheiros do movimento piqueteiros, as organizações de ocupados e desocupados combativos e da esquerda que devemos enfrentar a divisão da classe trabalhadora. Primeiro com ações comuns nas ruas, mas também colocando em pé encontros e coordenações democráticas, que nos permitam debater e sair a lutar juntos por um programa para que a crise seja para pelos capitalistas.

Um programa que combate o flagelo do desemprego, rechaçando as demissões e apoiando a ocupação de cada empresa que feche ou demita massivamente. Que proponha uma saída de fundo, um plano de obras publicas controlado pelos trabalhadores, assim como a redução da jornada de trabalho para 6 horas, sem rebaixamento dos salários, para repartir as horas de trabalho entre ocupados e desempregados.

Um programa para recuperar o que foi perdido esses anos e que ninguém ganhe menos do que custa sustentar uma família. Para rechaçar as tentativas de precarização e defender nossa saúde e nossas vidas. Para conquistar teto e moradia para todos.

Com estas bandeiras ao calor das lutas, a esquerda classista se prepara para confluir com milhões de trabalhadores, mulheres e jovens que estão fazendo uma nova experiência com o peronismo no poder.

Esta nova onda de conflitos é conscientemente ocultada pelos grandes meios de comunicação. Por isso aos leitores do La Izquierda Diario dizemos abertamente que não podem ser indiferentes ou esperar que “lutem” em seu lugar de trabalho e estudo. Os convidamos a se somarem a essa nova onda, difundindo, comentando, escrevendo no diário. Apoiando cada luta, sendo parte desse reagrupamento que impulsionamos para triunfar.




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