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A nova geração operária na França e a necessidade de um Partido Revolucionário dos Trabalhadores

Embora um novo ciclo de luta de classes se tenha aberto na França desde 2016, a extrema-esquerda mal aparece como uma alternativa. Porém, a gravidade da crise aberta pela pandemia e o surgimento de uma nova geração operária forjada nesta onda de luta abre, nas circunstâncias atuais, a possibilidade de se construir um partido revolucionário na França.

terça-feira 6 de abril| Edição do dia

Abaixo, publicamos um artigo do diário Révolution Permanente, o site francês da Rede Internacional La Izquierda Diario. Uma análise da situação atual na França e da política de extrema esquerda, bem como de como o ciclo da luta de classes nos últimos anos deixou uma nova geração trabalhadora a partir da qual se pode considerar a possibilidade de construir um Partido Revolucionário.

Diante da crise, os trabalhadores estão órfãos de projetos políticos?

Há mais de um ano a pandemia do coronavírus abriu uma situação de crise com consequências duradouras. De fato, para garantir o pagamento da dívida pública contraída e restaurar a taxa de lucro das empresas capitalistas, as classes dominantes estão se preparando para fazer os trabalhadores pagarem através de reformas neoliberais, do aumento da produtividade e medidas de austeridade. No entanto, diante dessa perspectiva sombria, nenhum projeto político capaz de defender os interesses dos trabalhadores com uma estratégia à altura parece surgir.

Esta situação está profundamente fora de sintonia com a politização e as lutas intensas que se desencadearam nos últimos cinco anos na França. Em 2016 contra a lei trabalhista, em 2018 como parte do movimento contra a reforma ferroviária e a luta contra a seleção universitária, em 2018-2019 com o histórico movimento dos Coletes Amarelos, em 2019-2020 com o movimento contra a reforma da previdência e a histórica greve do setor dos transportes francês. Ao mesmo tempo, houve uma retomada das lutas em diferentes setores, como no setor da Educação Nacional ou nos funcionários das universidades.

Essas experiências foram marcadas tanto pela participação significativa quanto por seus próprios métodos de setores concentrados da classe operária, mas também pela entrada em cena dos setores operários até então ausentes das lutas como as precárias franjas semi-rurais da classe trabalhadora que foram a base do movimento dos Coletes Amarelos. Esses movimentos foram acompanhados e alimentaram fenômenos de politização profundos. A juventude foi uma verdadeira caixa de ressonância desta dinâmica e levou às ruas a denúncia da violência policial e do racismo, violência sexistas e sexuais ou da catástrofe climática em curso.

No entanto, enquanto os protagonistas dessas lutas têm muitas vezes questionado o sistema como um todo, quer se trate dos Coletes Amarelos invocando um imaginário revolucionário, de jovens mobilizados contra o racismo estatal ou ainda de ambientalistas para os quais o capitalismo é incompatível com a defesa do clima, a única perspectiva que parece ser dada hoje a essas lutas é de se moldar nessas instituições para, na melhor das hipóteses, transformá-las por dentro.

Este é particularmente o caso do projeto de Jean-Luc Mélenchon da França Insubmissa. Aspira a hegemonizar a esquerda e a extrema-esquerda em torno de uma candidatura visando reformar o sistema. Tal projeto eleitoralista e reformista envolve agregar setores heterogêneos e demonstrar um mínimo de responsabilidade frente aos pilares do sistema. Essa abordagem já leva a LFI (La France Insoumise, partido de Mélenchon) a adaptar-se frequentemente às instituições e às pressões das forças políticas dominantes, como fez ao entrar na unidade nacional reacionária de Macron após o assassinato de Samuel Paty ou votando uma parte dos artigos da Lei do Separatismo, mesmo que rejeitasse o texto como um todo. Pressões que, especialmente em tempos de crise, só poderiam se multiplicar ao máximo se Jean-Luc Mélenchon chegasse ao poder, levando-o a abandonar os elementos mais ambiciosos do seu projeto político, como as trajetórias do Syriza na Grécia ou Podemos na Espanha, que acabaram aceitando as limitações que enfrentavam e traindo os trabalhadores.

Na realidade, não só a gravidade dos ataques que estão sendo preparados, mas também a atual politização profunda e o radicalismo que existe na sociedade e coloca em questão seus fundamentos, feitos de exploração e opressão, só poderiam ser materializadas por um projeto revolucionário. Um projeto que assuma a necessidade de derrubar o capitalismo e construir outro sistema. Paradoxalmente no entanto, enquanto tal ideia se torna audível em uma escala relativamente grande, as organizações de extrema esquerda que supostamente a deveriam levar em frente parecem estar bem mal. Longe de ser inevitável, essa situação marca em primeiro lugar, o fracasso da extrema-esquerda em passar no teste da última onda da luta de classes.

NPA, LO: Qual o balanço para a extrema esquerda?

Uma organização que reivindica ser revolucionária e postula desempenhar um papel de organizadora dos trabalhadores e das classes populares na luta até morte contra o sistema capitalista é posta à prova nos grandes combates de classe que precedem a revolução. É em grande medida por sua intervenção na luta de classes que ela convence muitos trabalhadores da sua utilidade e a correção de sua política. É preciso constatar que nos últimos episódios da luta de classes a extrema esquerda passou mal nas provas.

Em particular, o movimento dos Coletes Amarelos cristalizou as dificuldades da extrema-esquerda em perceber fenômenos políticos novos e complexos. Lutte Ouvrière (Luta Operária, organização política de esquerda) escolheu conscientemente não se envolver num movimento que percebia desde o início a amplitude, erguendo uma barreira artificial entre os Coletes Amarelos e os “comunistas revolucionários”, e a maioria do NPA (Nouveau Parti Anticapitaliste), cedendo em parte e por muito tempo à ideia, dominante então na esquerda política e sindical de que era um movimento reacionário em torno do qual era necessário estabelecer um cordão sanitário, antes de aí se diluir, sem ter conseguido em momento nenhum conduzir uma política própria, consciente e coordenada a nível nacional.

Infelizmente, na luta contra a reforma da previdência, aparentemente mais "acessível" à extrema esquerda, as duas organizações têm mostrado as mesmas limitações. Em particular, Lutte Ouvrière recusou-se a participar das tentativas de coordenar os grevistas independentemente da burocracia sindical, opondo-se abstratamente a construção da greve nas grandes garagens, estações ferroviárias ou nas empresas à criação de elementos de coordenação do movimento. A maioria do NPA, por outro lado, teve grande dificuldade em estruturar qualquer intervenção nacional, as únicas iniciativas de alguma importância tendo sido tomadas pelas tendências minoritárias da ala esquerda do partido. Em ambos os casos, é impossível identificar contribuições significativas dessas duas organizações no quadro dessa luta histórica.

No que diz respeito ao NPA, tal recuo em sua capacidade de intervir está obviamente relacionado com a profunda crise pela qual o partido está atravessando e que hoje representa uma ameaça de implosão. Mas este é apenas o resultado de um longo processo, iniciado pela LCR (Liga Comunista Revolucionária) nas décadas de 1980 e 1990, do abandono de uma estratégia centrada no papel da classe operária (que o neoliberalismo havia proclamado a morte...), em favor da intervenção nos “movimentos sociais”, antes de dissolver-se num partido amplo não delimitado estrategicamente, o NPA.

Do lado da Lutte Ouvrière, que ainda tem redutos em setores estratégicos, reina uma forma de ceticismo, acompanhada de uma dose de nostalgia do antigo movimento operário francês, moldado pelo PCF (Partido Comunista Francês). Esse ceticismo, que sempre joga a culpa nos trabalhadores que supostamente não querem lutar, na verdade cobre a recusa em tomar parte ativa no trabalho de organização das camadas mais avançadas da classe e de uma nova geração operária em gestação, bem como de combater a política nefasta da direções sindicais burocráticas.

A nova geração da classe operária e o espaço para a construção de um partido revolucionário na França

Mais do que nunca, como mostram os elementos acima, há um espaço objetivo para construir um partido revolucionário com um forte componente operário e uma poderosa intervenção na luta de classes. Um partido que reivindicaria claramente um projeto de sociedade sem exploração ou opressão, o comunismo, e que teria um discurso revolucionário, antirracista, anti-imperialista, feminista, mas também ambientalista, capaz de se dirigir aos atores da última onda da luta de classes, fazendo demonstrações concretas na realidade.

O movimento operário viu surgir uma nova geração que poderia ser a alavanca para a construção de tal organização. A vimos pela primeira vez em 2014, na greve da SNCF onde, não compartilhando das normas da esquerda política e sindical, fora frequentemente ignorada pelos militantes da extrema esquerda. Desde então temos visto ela tomar lugar em cada uma das principais mobilizações que atravessaram o país, com perfis muito variados: muitos racializados e parte da imigração nas grandes cidades, trabalhadores e trabalhadoras participantes do movimento dos Coletes Amarelos da França periférica, militantes sindicais combativos e trabalhadores de categorias tradicionais.

Entre eles estão líderes sindicais radicais cujo aparecimento se inscreve em circunstâncias particulares. No contexto do declínio do PCF dentro da CGT e da renovação militante, jovens sindicalistas podem bem rapidamente ficar como responsáveis de organizações ou estruturas sindicais importantes. Esses emergem em um contexto pós-movimento dos Coletes Amarelos, que abriu uma crise no sindicalismo, enfraquecendo as barreiras impostas pela burocracia entre o sindical e a política e moldando essa nova geração de militantes operários.

Todo revolucionário digno desse nome deve prestar atenção a esse fenômeno e buscar a todo custo convergir com essa nova geração. Assim Trotsky disse em uma passagem de “Aonde Vai a França?” escrita no início da greve geral de junho de 1936: “Apesar de tudo o proletariado não repete a história desde o início. A greve sempre e em todos os lugares trouxe à tona os operários mais conscientes e destemidos. A eles pertence a iniciativa. [...] A principal conquista da primeira onda está no fato de que dirigentes surgiram nas oficinas e nas fábricas. Os elementos dos estados-maiores locais e dos bairros apareceram. A massa os conhece. Eles se conhecem. Os verdadeiros revolucionários buscarão se ligar com eles. Assim, a primeira auto mobilização da massa agitou, reanimou e renovou no seu conjunto o gigantesco organismo da classe. A velha casca organizacional ainda está longe de desaparecer, ela se mantém, ao contrário, com muita obstinação. Mas, por baixo, uma nova pele já aparece”.

A onda de luta de classes desse últimos anos ainda não teve certamente a mesma profundidade da que teve como ponto culminante a greve geral de 1936, na qual o surgimento de novos dirigentes operários se generalizou. Mas é em grande medida uma “nova pele” da classe que encarna essa nova geração de militantes operários, surgida das últimas experiências da luta de classes.

É com eles que um partido revolucionário dos trabalhadores pode ser construído à altura dos desafios da situação e da crise atuais com a condição de romper com o conservadorismo e o ceticismo dominantes na extrema-esquerda.

Révolution Permanente e seus referentes operários a serviço do projeto de um Partido Revolucionário dos Trabalhadores

No Révolution Permanente-NPA, tivemos o relativo mérito de ter aproveitado logo no início o surgimento dessa nova geração operária e de ter tentado nos fundirmos com ela. Seja como parte da “Batalha Ferroviária” de 2018 com a construção da reunião entre estações, da greve vitoriosa da Onet, do movimento dos Coletes Amarelos, do movimento contra a reforma da previdência através da Coordenação RATP-SNCF, ou atualmente na greve de Grandpuits e dos funcionários de manutenção das vias férreas da Gare du Nord, interviemos com uma mesma lógica: a de desenvolver em cada batalha um arsenal estratégico e programático que permita levar essas experiências o mais longe possível saindo do quadro imposto pela rotina sindical.

É através dessas experiências que pudemos fazer entrar em nossas fileiras numerosos jovens militantes operários, entre os quais verdadeiros líderes na sua região ou ramo como Anasse Kazib no SNCF, Adrien Cornet na Total, Gaëtan Gracia do bastião aeronáutico de Toulouse, Christian Porta da Neuhauser (indústria agroalimentar) em Moselle, mas também de jovens militantes como Rozenn em Chronodrive, bem como de outros camaradas no setor privado ou público, RATP, Saúde, Cultura, ou Educação Nacional. É ao lado desse militantes que desejamos lançar hoje uma campanha em torno da necessidade de um Partido Revolucionário de Trabalhadores.

Estamos levando essa perspectiva para o NPA tendo em vista seu próximo Congresso. Estamos convencidos de que a única saída progressista para a profunda crise que a organização está passando seria uma refundação em torno de um projeto desse tipo, mais alinhado com os desafios impostos pela nova situação, bem como com as tendências de radicalização que existem dentro da classe e têm sido expressas nas mobilizações dos últimos anos. Mas também nos dirigimos aos militantes da Lutte Ouvrière, aos sindicalistas combativos e também ao conjunto de jovens e trabalhadores, mas igualmente aos ativistas antirracistas, feministas ou ambientalistas, cientes de que cada uma de suas lutas requer a destruição desse sistema assassino que é o capitalismo e que para isso precisamos de uma ferramenta política revolucionária à altura dos combates de classe que se anunciam.




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