Opinião

COLUNA

A luta contra o golpe ontem e hoje

Foi na noite de 31 de março que o general Mourão, que não era familiar do atual vice, desencadeou o movimento de tropas para depor João Goulart e iniciar uma feroz repressão ao movimento de massas. Também vão fazer 57 anos, amanhã, do dia em que os marinheiros se sublevaram de armas na mão para lutar contra o golpe e que os estudantes e trabalhadores que recorreram às suas entidades pedindo armas e instruções de combate não encontraram nada

Thiago Flamé

São Paulo

quarta-feira 31 de março| Edição do dia

O que se seguiu ao golpe de 1964 é muitas vezes pouco conhecido e absolutamente manipulado pelos órgãos de imprensa hoje opositores à Bolsonaro, mas que nunca deixaram de ver o regime militar brasileiro como uma “ditabranda”, para usar o titulo de um editorial da “comunista” Folha de São Paulo de alguns anos atrás. O assassinato de Edson Luis no dia 28 de março de 1968, ou o fechamento do congresso da UNE de Ibiuna são muito mais conhecidos, que episódios como a sexta-feira sangrenta, em que 28 estudantes tombaram num protesto contra a repressão, em que as tropas dispararvam com armas de fogo contra jovens que resistiam a paus e pedras. Como é pouco conhecida também a sangrenta repressão que sofreu o movimento camponês e os povos indígenas que ousaram se insurgir contra o domínio dos latifundiários e seus jagunços, apagada pelo relato oficial de 600 mortos ou desaparecidos.

Os rumores de golpe estão presentes na retórica oficial e na ordem do dia do ministério da defesa e voltam para assombrar os que deveriam estar a ponto de se rebelar contra o atual governo. Se a ameaça de um auto golpe bolsonarista é agitada pela imprensa e mais ainda pela imprensa petista como forma de justificar sua própria política de passividade e canalização das contradições sociais para as eleições de 2022, o que os militares querem, e conseguem com o apoio complacente do STF e da grande imprensa, é alimentar ideologicamente sua base social de extrema-direita com as comemorações do golpe. Vemos saírem a luz do dia os tensionamentos que atravessam as cúpulas militares, mas não nos enganemos, que aí entre os generais demissionários não existem setores legalistas e democráticos. Querem evitar aventuras que possam comprometer a instutição golpista que todos defendem.

A memória do golpe militar de 1964 não traz à ordem do dia, no entanto, somente a luta contra a impunidade dos torturadores e assassinos de ontem e de hoje e as ameaças que enfrentamos. Mas também a memória do profundo ascenso operário, camponês e popular e das lições que aquele processo deixou.

Como sabemos, o golpe triunfou sem encontrar resistência. E é essa ausência de resistência mais do que sua força, o que explica esse triunfo. Tivesse o PCB e as organizações de massas organizado uma resistência séria junto aos marinheiros sublevados e os sargentos mobilizados, organizado e convocado uma greve geral nas cidades e insuflado a resistência camponesa o desfecho do processo teria sido bem distinto. Naquele fatídico 1 de abril os marinheiros deram o exemplo e se levantaram de armas nas mãos, numa expressão das energias que existiam nas forças operárias e populares para organizar uma resistência efetiva - o que não foi feito pelas direções, que confiram nos generais "legalistas".

Hoje a situação é completamente diferente. A retórica golpista ainda não encontra eco nas classes dominantes e qualquer tentativa neste sentido seria uma aventura perigosa por parte de um governo que se debilita a cada dia, ainda que tenha uma base social importante nas policias militares, nas médias patentes da oficialidade e em setores como caminhoneiros. A demissão conjunta dos comandantes militares revela as enormes fraturas nas cúpulas e sua oposição a aventuras militares arriscadas. Têm o temor de uma perda de controle da situação e das consequências de possíveis explosões sociais e de um inicial descontentamento nas próprias bases do exército, que vem se desenvolvendo desde a reforma da previdência dos militares e pode tanto ser capitalizada pelo bolsonarismo como abrir processos de diferenciação política mais complexos entre os praças.

Uma simples troca de governo, seja nas eleições de 2022, seja através da posse antecipada de Mourão, não seria suficiente para derrotar as forças de uma extrema direita dura e golpista que se fortaleceu nesses anos de golpe institucional. A espera passiva por 2022 e as tentativas de um pacto social promovidas por Lula e pelo PT favorecem a grande burguesia que aproveita o tempo para avançar o máximo possível com as suas reformas, enquanto as forças mais mais golpistas vão ganhando posições políticas e ideológicas. Se podemos aprender algo com o golpe de 64 é que não podemos confiar nos generais legalistas e ou nas articulações parlamentares e resistências “institucionais” para nos defender. Somente a entrada em cena da juventude e da classe trabalhadora, com seus próprios métodos de luta, as greves e as manifestações de rua, que pode inverter a balança ao nosso favor.




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