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MOVIMENTO ESTUDANTIL | A luta contra Bolsonaro e os desafios da esquerda: um debate com Afronte e Juntos

O Brasil não é para amadores e os intensos fatos políticos do último período têm suscitado debates e reflexões sobre como derrotar Bolsonaro e dar uma resposta para a profunda crise capitalista que assola a classe trabalhadora e a população. As manifestações do 29M e a construção do 19J tornaram público um debate de diferenças entre duas correntes de juventude do PSOL, o Afronte (Resistência) e o Juntos (MES). Nessa nota queremos fazer um debate com essas organizações e com todos aqueles que desejam debater qual seria a estratégia para a construção de uma esquerda anticapitalista e revolucionária em nosso país.

Odete AssisMestranda em Literatura Brasileira na UFMG

sábado 19 de junho | Edição do dia

Em todo mundo a juventude vem se rebelando contra a miséria que os capitalistas querem nos impor. Dos jovens palestinos contra o Estado assassino de Israel, às mulheres e LGBTs contra o golpe em Mianmar, passando pela revolta do povo colombiano contra o direitista Ivan Duque, a luta nas ruas é parte da situação internacional mesmo no contexto da pandemia. É nesse cenário que se deram as maiores manifestações de rua no Brasil durante a pandemia, e o 29M marcou uma inflexão na conjuntura. Se grande parte da juventude e dos trabalhadores sequer tiveram direito à quarentena, porque foram obrigados a seguir trabalhando, na maioria das vezes apenas para manter o lucros dos patrões, uma parte importante daqueles que tiveram direito ao isolamento social fizeram uma experiência depois de lutar contra o negacionismo de Bolsonaro, percebendo que não podíamos cair na falsa campanha do #FicaEmCasa da Rede Globo, de setores do regime político e das burocracias, que se utilizavam da justificativa sanitária para conter o descontentamento social, deixando as ruas para a extrema-direita.

Já são quase 500 mil brasileiros que perderam suas vidas pela covid, a fome e o desemprego afligem milhões. Não aguentamos mais ver as operações policiais nas favelas e comunidades terminarem com crianças, jovens e famílias negras destroçadas pela violência policial. Enquanto o Congresso aprova ataques como as demissões em massa e a privatização da Eletrobrás, as universidades têm seus orçamentos cortados, afetando a permanência estudantil, o funcionamento dos hospitais, os trabalhadores terceirizados e as pesquisas, afinal, negacionista ou não, a prioridade dos políticos burgueses é pagar 1,3 trilhão para os banqueiros que detém o roubo da dívida pública. 

É nesse marco que Juntos e Afronte discutem que não dá para esperar 2022, mas, ainda que tenham diferenças táticas, ambos defendem que nossa mobilização nas ruas deveria ser para pressionar que o teatro da CPI da covid leve esse Congresso reacionário a abrir um impeachment. Nesse artigo, vamos desenvolver melhor como, apesar das diferenças táticas entre eles, ambos terminam por se subordinar à política eleitoralista do PT, se adaptando não só às burocracias sindicais e estudantis, mas, na prática, levantando uma política que não coloca como tarefa derrotar Bolsonaro, suas reformas e todo regime golpista. Um debate que têm dois eixos fundamentais: o primeiro é sobre como seria construída a frente única para massificar as mobilizações e qual seria o papel do PT e de Lula nessa tarefa. O segundo é sobre como as organizações à esquerda do PT devem se posicionar para construir uma alternativa. 

Sobre a discussão de frente única é necessário pontuar, em primeiro lugar, que para nós estudantes, pensar essa tática para derrotar Bolsonaro passa necessariamente por uma aliança com a classe trabalhadora e que o Afronte faz uma confusão intencional com este termo, mesclando seus objetivos com a disputa eleitoral. A tática de frente única operária foi elaborada pela Terceira Internacional Comunista e tem como objetivo a unidade das fileiras operárias na luta de classes. Isso significa que busca impor que as direções burocráticas e reformistas dos trabalhadores façam parte de ações em comum entre amplos setores da classe trabalhadora, possibilitando a unidade na defesa contra os ataques dos capitalistas, apesar das diferenças políticas que existem entre suas direções. Se baseia, portanto, em acordo práticos entre esses setores e não implica nenhum tipo de subordinação de conteúdo, ou seja, é garantida a liberdade de crítica entre os partidos e organizações que a compõe, como diria Trotski: "marchar separados, golpear juntos". Isso, inclusive, é o que coloca um aspecto estratégico na frente única operária: permite aos revolucionários ampliarem sua influência entre as bases dos reformistas e conciliadores.

Então, diferente do que o Afronte diz, a frente única nada tem a ver com as reuniões de cúpula das Frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, que concentram setores que são parte das burocracias dos sindicatos e do movimento estudantil para votar calendários por fora de qualquer discussão com a base. A juventude do Resistência supõe que essas reuniões de burocratas seriam algo como a frente única necessária para enfrentar o bolsonarismo, e dizem nessa nota:

“Além disso, na disputa com o PT, nós entendemos que vale mais uma política de exigências com o objetivo de disputar os setores mais à esquerda do partido, sua base e os ativistas que se referenciam em Lula e no PT (que segue sendo a maior direção da esquerda brasileira) para que estejam conosco nas ruas pelo Fora Bolsonaro antes de 2022, do que a política adotada pelo Juntos, que prioriza uma campanha de denúncias permanentes e pura agitação de diferenças que não convencem ninguém e não permite disputar esses ativistas e as suas conclusões sobre os limites estratégicos do PT.”

O que não se sabe é quais exigências o Afronte faz, além de implorar para que Lula convoque as manifestações, argumentando inclusive que “mesmo se considerarmos a estratégia eleitoral de Lula, manter-se distante das manifestações de rua é um erro grave de sua parte.” O que vemos nas poucas assembleias e espaços de debates que têm acontecido nas universidades é como esse coletivo se coloca fortemente contra qualquer exigência à CUT, a CTB e a UNE, com falas que enfaticamente defendem que essas organizações vieram construindo a mobilização, sem nunca fazer uma única delimitação com a estratégia de canalizar toda energia que se expressa nos atos para as eleições. 

Já o Juntos vem construindo junto com seus aliados estalinistas da UP e PCB, e de algumas outras correntes do PSOL, como a CST, espaços próprios que supostamente seriam de “unidade da esquerda independente do PT”, mas que expressam uma outra forma de adaptação a essa organização e sua estratégia eleitoralista. Ali também está ausente a crítica ao papel das burocracias, que estão impedindo a luta, mesclando posições que oscilam da visão paralelista de que não precisamos das direções sindicais e estudantis para mobilizar, aos que defendem contrários a qualquer exigência concreta às organizações dirigidas por esse partido para que de fato construam um paralisação nacional, e até mesmo assembleias de base.

Tanto Afronte quanto Juntos estão na direção de importantes entidades estudantis do país, como o DCE da UFMG, da UFRGS e da UFRJ, e vêm mantendo uma prática que é bastante adaptada à política do PT e do PCdoB no movimento estudantil. Não fomentam espaços de auto-organização dos estudantes para promover o amplo debate sobre quais seriam as pautas a se levantar no ato e como, de fato, conquistar a unidade dos estudantes com a classe trabalhadora e os movimentos sociais, para derrotar o bolsonarismo e o conjunto dos ataques desse regime. Aliás, sempre se posicionam nesses espaços defendendo que a unidade construída é somente em torno da pauta do Fora Bolsonaro, e por esse motivo votam contra incluir até mesmo Mourão nas consignas, pois iria romper a ampla frente articulada. Um absurdo que só se explica quando sabemos que a tática defendida por ambos é a unidade pelo impeachment, que inclui até mesmo reacionários à la Kim Kataguiri e Joice Hasselmann, e para esse objetivo realmente não se pode avançar para questionar outros direitosos e golpistas que votaram por cada um dos ataques que nos fizeram chegar até esse situação calamitosa. 

Se não podemos esperar 2022, é preciso batalhar hoje por unificar a nossa classe contra todos os atores desse regime golpista que impõem uma série de profundos ataques, usando as suas instituições para defender os interesses da sua classe, da burguesia. O que nos divide é se aliar com aqueles que querem nos atacar. Por isso, sempre debatemos contrários à lógica da esquerda que defende que a nossa luta seja canalizada para saídas institucionais, como o impeachment. O que nos divide são as burocracias que estiveram paralisadas durante toda a pandemia assistindo o colapso sanitário e os ataques ao nossos direitos e agora buscam canalizar nossa força nas eleições, separando as demandas dos trabalhadores da luta contra o governo e o regime". Rumo à construção do 19J, uma das tarefas colocadas era denunciar a divisão de tarefas do PT, ao convocar um suposto dia de mobilização para o dia 18, que, na prática, não foi construído entre a classe trabalhadora, para que nesse chamado fique contida a ideia de que as centrais estão lutando contra os ataques econômicos de Bolsonaro, do Congresso e governadores, enquanto cada vez mais buscam transformar os atos do dia 19 em palanque eleitoral para Lula, política sobre a qual o Afronte declarou não se importar de fortalecer. 

Esse elemento nos permite refletir sobre o segundo eixo da discussão. Desde que retomou os seus direitos políticos, Lula aparece como o principal nome de oposição a Bolsonaro em 2022, e isso impactou profundamente a esquerda institucional, como o PSOL. A saída de Marcelo Freixo para um partido burguês como o PSB, ou a filiação do ex-parlamentar Jean Wyllys ao PT, são apenas algumas mostras públicas da crise que vem atravessando esse partido. Em sua nota, ao debater sobre a adaptação do Afronte à lógica de lamentar a posição de Lula e ficar pressionando para que ele tenha uma posição de esquerda, o Juntos argumenta que:

“Essa concepção mostra um erro estratégico do Afronte. Não é de agora que suas posições têm colocado a mesma confusão entre a unidade de enfrentamento ao governo Bolsonaro e a diluição dos anticapitalistas em um projeto de esquerda há muito já degenerado. É o mesmo erro que faz com que a corrente do PSOL na qual o Afronte se referencia, a Resistência, defenda que o partido se alie com Lula para 2022, buscando a construção de uma suposta frente de esquerda nas eleições para enfrentar o bolsonarismo.”

Criticam a adaptação do Afronte a Lula e o PT, no entanto, a "independência de classe" do Juntos/MES não existe nem nos estreitos limites do debate da nota que soltaram. Afinal se trata da mesma organização que defendeu voto em Baleia Rossi (DEM) na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, que propôs uma frente ampla não só com Lula e o PT, mas incluindo também PDT e Ciro Gomes, além de outros partidos burgueses com os quais o PSOL já fez alianças como o PSB e Rede. Ambas organizações são parte da prefeitura de Belém do Pará, com Edmilson Rodrigues (PSOL) como prefeito, que está com uma reforma da previdência engatilhada, que só não foi aplicada pela mobilização dos servidores, e aparece publicamente como aliado da Assembleia de Deus. Buscam se contrapor a essa diluição do Afronte ao petismo, com a defesa da candidatura de Glauber Braga (ex-PSB), que em seu manifesto não apresentou um único ponto de programa que busca se enfrentar com os lucros dos capitalistas, além de sequer citar o golpe institucional. 

Leia também: Glauber Braga, pré-candidato a presidente do PSOL: trajetória e programa sem independência de classe

Precisa ser questionada também a aliança entre o Juntos e a Correnteza, corrente de juventude impulsionada pela UP, que reivindica a tradição do stalinismo, junto à qual convocaram a suposta Assembleia Povo Na Rua - Fora Bolsonaro, uma live onde era impossível fazer uso da fala e que foi utilizada exclusivamente para reafirmar a linha das organizações convocantes em falas combinadas. Apesar da polêmica que abrem com o Afronte em defesa de não sermos submetidos aos mandos e desmandos do PT, reproduzem uma lógica semelhante, que vai na contramão da exigência a assembleias de base em cada local de trabalho e estudo, e se unificam para impedir a votação de políticas assim nas assembleias estudantis.

Internacionalmente afirmam que mobilizações populares levaram a eleição de governos progressistas. Ou seja, enquanto estas eleições são antecedidas por refluxos organizados das mobilizações, com canalização das esperanças dos ativistas em saídas eleitorais que acabam promovendo ataques e perseguições e nenhuma mudança estrutural, estas organizações não buscam tirar as conclusões dos processos mais avançados da luta de classes e dos seus limites nas saídas reformistas. Pelo contrário, reivindicam essas saídas como conquistas, e não como desvios. É assim que defendem que a Constituinte chilena pactuada pela Frente Ampla, com a conivência do Partido Comunista, já tenha enterrado a herança do regime de Pinochet, deixando para trás as dezenas de presos políticos e ignorando a Lei Anti-barricadas e Anti-Máscaras, parte do pacote do Acordo de Paz, que intensificou a repressão, ou a submissão ao mercado financeiro e ao imperialismo, com a cláusula de deixar ilesos os acordos internacionais.

Para saber mais: Por trás da Convenção Constituinte chilena

Diretamente chamaram votos no imperialista Biden, que bombardeou a Síria e defende Israel contra os palestinos. No Peru, frente à ofensiva fujimorista e da direita que precisa ser barrada nas ruas, nutrem ilusões em Pedro Castillo e na sua gestão do capitalismo peruano, sendo diretamente parte da frente que o elegeu e se furtando de defender os direitos das mulheres e LGBTs, posição também da Unidade Popular. E na França, defendem a posição da direção majoritária do NPA, que expulsou mais de 300 militantes que compunham a ala esquerda do partido, por defender, adivinhem só, que não era possível fazer uma frente com os reformistas e que o partido deveria apostar todas suas fichas na luta de classes. Observar esses exemplos da sua política internacional é importante para ver como, no Brasil, apesar de buscarem se diferenciar da adaptação do Afronte (que sequer debate mais profundamente esses temas internacionais), a estratégia defendida por esse coletivo também é bastante adaptada à lógica eleitoral da política dos capitalistas.

Pode te interessar: Peru: Com a mobilização, rechacemos as manobras do fujimorismo e da extrema-direita!

A luta pela unidade da nossa classe passa por se enfrentar com os profundos ataques em curso, por não separar as respostas do combate ao bolsonarismo da luta contra o projeto econômico que ele representa, o que necessariamente passa por um plano de lutas organizado desde a base para construir uma grande paralisação nacional, onde possamos mostrar nossa força não só nas ruas, mas parando setores estratégicos da produção e colocando em cena a poderosa classe trabalhadora brasileira, capaz de fazer os políticos e empresários capitalistas tremerem. E através dessa força colocada em movimento, nós da Faísca e do MRT, defendemos a necessidade de um governo dos trabalhadores de ruptura com o regime capitalista, mas por saber que ainda existem muitas ilusões com a democracia burguesa e como forma de acelerar a experiência desses setores, propomos a luta por uma assembleia constituinte livre e soberana, que poderia ser um instrumento para enfrentar o bolsonarismo e todo o regime golpista, mudando não somente os jogadores. Essas são parte das batalha que damos em cada local de estudo e trabalho onde estamos, defendendo espaços democraticos de autoorganização e o que levaremos hoje às ruas de todo país, nesse 19J.




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