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A juventude israelense se mobiliza contra Netanyahu

Os protestos massivos que pedem a renúncia do primeiro ministro são cada vez mais fortes. Enquanto isso, nesta segunda-feira, o Exército Sionista disparou contra supostos militantes do Hezbollah na fronteira com o Líbano.

quarta-feira 29 de julho| Edição do dia

A crise econômica e o segundo surto de Covid-19 (desta vez mais forte e generalizado) estão atingindo os habitantes do Estado de Israel. Nas últimas semanas, o governo de Benjamin Netanyahu enfrentou diferentes protestos de israelenses devido à grave situação econômica causada pelo coronavírus - que totaliza 2.000 pessoas infectadas por dia.

Os grupos de manifestantes, fundamentalmente jovens de uma classe média empobrecida, apontam para o primeiro-ministro pela má administração do combate contra o vírus, a inflação que vem subindo nos últimos meses, o desemprego - que disparou com a pandemia -, e os casos de corrupção pelos quais ele é acusado.

Nos protestos participam artistas, trabalhadores independentes e - como dissemos -, uma grande maioria de jovens, muitos dos quais acabaram de perder o emprego, que cresceram sob os sucessivos governos de Netanyahu (que está no poder há 13 anos) e que não veem um futuro muito promissor para suas vidas. Enquanto os palestinos, os árabes israelenses que são tratados como cidadãos de segunda classe pelo Estado judeu, ainda permanecem distantes dos protestos.

Neste domingo completou-se onze dias desde o primeiro grande protesto perto da residência oficial do primeiro-ministro em Jerusalém, quando os primeiros manifestantes foram presos e a polícia usou caminhões de água para reprimir a multidão. Até agora, pelo menos oito grandes protestos foram realizados na rua Balfour, cada uma maior que a anterior.

A repressão desses protestos é um fato, até agora o Estado só utilizava forças repressivas contra os palestinos, principalmente na Cisjordânia ou na Faixa de Gaza, contra judeus nacionalistas ultraortodoxos que protestavam contra a corrupção de Netanyahu e apenas contra Israelenses laicos, quando se trata de ativistas pró-palestinos que procuram ajudá-los contra o avanço das escavadeiras do exército sionista.

Segundo o jornal israelense Haaretz, no sábado à noite, a Praça de Paris - também em Jerusalém - estava lotada com pelo menos 10.000 manifestantes. O número de pessoas presas também aumentou desde o primeiro protesto, com 55 pessoas presas na quinta-feira. No sábado, houve pelo menos mais 12 pessoas presas. Os bloqueios de ruas com barricadas foram reprimidos com gases e carros de água da Polícia.

As demandas centrais dos protestos eram compostas pelas demandas de uma juventude frustrada e desempregada.

Muitos deles têm empregos precários, os chamados "autônomos" ou "independentes" que compõem as fileiras de trabalho dos aplicativos. Também existem assistentes sociais que atendem a casos como os de violência de gênero, que vêm sofrendo diversos ajustes no orçamento do estado.

Haaretz menciona que na medida em que crescem os protestos vão se somando mais trabalhadores autônomos, artistas e movimentos sociais, LGBTQI e ambientalistas, entre outros.

O setor de turismo tem recebido o maior golpe devido à situação com o Covid-19, pois, devido às restrições da quarentena anterior, o fechamento de restaurantes, praias ou piscinas onde uma grande parte da juventude israelense trabalhava havia sido imposta. Desta forma, o aumento do desemprego é notório, atingindo quase um milhão de pessoas em uma população de nove milhões.

Por que os palestinos não participam?

Embora estejamos acostumados a observar protestos palestinos nessas terras, desta vez eles permanecem expectadores, apesar de serem o setor social mais atingido pela pandemia, ocupando os empregos mais precários e a anexação propagada do território que o Estado de Israel está buscando.

Este ponto é importante para entender sua ausência nas manifestações, embora tenha havido alguns protestos em Haifa, onde participaram partidos como Hadash, composto por "árabes israelenses". No entanto, a verdade é que os palestinos veem essas manifestações pelo que são: apenas contra Netanyahu.

Ezequiel Kopel, especialista no Oriente Médio, em diálogo com La Izquierda Diario comentou que “apesar do fato de haver pessoas nas marchas que participam regularmente contra a anexação da Cisjordânia, as marchas são vistas como contra Netanyahu, que inclui desde a corrupção à má administração do coronavírus, não contra a ocupação da Palestina”. Por esse motivo, são mobilizações que não pertencem aos palestinos, nesse sentido, acrescentou Kopel que embora "haja pedidos contra a ocupação, os palestinos veem isso como um problema essencialmente israelense, contra a figura de Netanyahu".

Os combates contra o Líbano podem ser um meio de conter os protestos?

Nas últimas horas, foram relatados alguns conflitos na fronteira com o Líbano, onde Netanyahu anunciou que havia frustrado um ataque do Hezbollah dias atrás. Algo que não pode ser verificado. O que se sabia era que na semana passada, em um bombardeio de bases iranianas na Síria, Israel assassinou um líder daquela milícia xiita.

Desde então, as Forças de Defesa de Israel (IDF) aumentaram sua presença enquanto elevavam o tom com os libaneses. A troca de tiros de hoje ocorreu no disputado Monte Dov, também conhecido como Granjas de Shebaa, uma área anexada por Israel na guerra de 1967. Não é por acaso que Netanyahu começou a levantar um discurso bélico, de proteger as fronteiras e os Cidadãos israelenses de um suposto ataque, à medida que semana após semana aumentam os protestos contra ele. Já o fez no passado.

O primeiro-ministro já havia enfrentado um movimento, também composto principalmente por jovens, onde centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em 2011 para protestar contra o alto custo de vida, a bolha imobiliária e o colapso da classe média, a partir dos impostos excessivos e altas taxas de juros.

O movimento atual é atravessado pelo desemprego causado centralmente pela crise do Covid-19 e pelo aumento do custo de vida. Naquela época, Netanyahu, em aliança com o Partido Trabalhista, prometeu corrigir os problemas sociais e econômicos do país, aplicando algumas medidas, mas usando centralmente a guerra contra Gaza em 2014 (liderada por Benny Gantz, o atual Ministro Geral da Defesa que substituirá o Primeiro Ministro em 2021) para encerrá-lo e sobreviver à crise do governo.

Além disso, ao longo de sua campanha eleitoral, ele usou a guerra na Faixa de Gaza contra o Hamas, a anexação das Colinas de Golã (um território disputado com a Síria), os bombardeios de instalações iranianas na Síria e, finalmente, a prometida anexação de 30% do território da Cisjordânia, como uma maneira de alinhar a população por trás dos objetivos nacionalistas para resolver crises internas.

No momento, os protestos contra a figura de Netanyahu estão crescendo - e onde não há muitas alternativas, já que Gantz desapontou grande parte de seu próprio eleitorado quando concordou em formar um governo com o atual primeiro-ministro.

Mas será fundamental para os setores da juventude que não vêem um bom futuro à vista, que se proponham a fazer um chamado aos palestinos a se mobilizarem juntos para derrubar os planos sistemáticos de guerra de Netanyahu, conter as tentativas de anexar os territórios palestinos, lutar lado a lado pela plena igualdade de direitos de árabes e judeus, visando o próprio Estado Nacional Judaico de Israel, que baseia sua existência na opressão do povo palestino.




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