Internacional

REBELIÃO NA COLÔMBIA

A juventude de Cali na linha de frente contra o governo de Duque, sem confiança no “diálogo” com o inimigo

A juventude do principal centro da rebelião colombiana vêm protagonizando os enfrentamentos com o governo de extrema-direita e publica uma carta com suas reivindicações. Diante da repressão brutal e das tentativas do Comitê Nacional de negociar com o governo, contra todas as manobras, a juventude se solidariza com os trabalhadores e indígenas, e afirma que só a luta nas ruas abre caminho para vencer.

quarta-feira 12 de maio| Edição do dia

Federico Rios / The New York Times

A juventude vem sendo protagonista dos protestos por toda Colômbia. Dela e de diversos outros setores se ouve o grito de Fora Duque e a necessidade de uma paralisação com prazo indefinido até derrubar todas as políticas do governo assassino e repressivo do amigo de Bolsonaro. O que vemos hoje é uma fúria e combatividade que busca os meios de ir até o fim, ao contrário das burocracias encasteladas nas direções das centrais sindicais e movimentos sociais reunidos no Comitê Nacional da Paralisação (CNP), que vêm buscando um “diálogo” com o governo que só leva à desmobilização, como foi visto já nas manifestações de novembro de 2019.

No sudeste de Cali, cidade epicentro dos protestos na Colômbia, se encontra o bairro rebatizado de Puerto Resistencia. Lá, onde se dão os maiores enfrentamentos, a juventude fez sua voz ser ouvida nas ruas e apresentou um conjunto de demandas em uma petição, ao passo que se dava o fracassado encontro entre Duque e os dirigente da CNP. Essa é a geração que cresceu vendo a impotência e a injustiça social, e que agora entrega a própria vida na linha de frente da luta, sofrendo a mais bárbara repressão enquanto suas reivindicações fundamentais são excluídas dos debates das cúpulas.

Leia também: A explosão da luta de classes na Colômbia é um alerta a Bolsonaro e à direita regional

No comunicado, expressaram apoio moral para todos os pontos da linha de frente da cidade e por todos os lutadores assassinados pela polícia e pelas milícias reacionárias. Também exigiram que se respeitem os direitos constitucionais fundamentais dos manifestantes, levando em conta a brutalidade descomunal que as forças de repressão estão descarregando sobre a população.

Como parte de uma juventude que se rebela contra todas as políticas e planos do governo Duque, agradeceram e se solidarizaram com a Minga Indígena, recentemente atacada por civis armados, em plena luz do dia e enquanto se encontravam em uma das regiões mais ricas da cidade. Os indígenas foram alvejados e o crime continua impune, mesmo tendo ocorrido em um local sempre repleto de policiais e soldados - que “casualmente” não estavam lá na hora, mesmo sendo presença confirmada para reprimir todos os protestos e inclusive amedrontar famílias e causar o terror em bairros periféricos.


Cali, Colômbia: Juventude da linha de frente em Puerto Resistencia

O correspondente do periódico El País em Cali relatou que “O bairro está rodeado de barricadas e postos de controle. Foi erguido algo como uma pequena república independente, onde desapareceu a presença do Estado”. E disse ainda que “Puerto Resistencia tem vida própria. Existem assembleias onde é discutido o futuro da nação e hospitais improvisados para atender os feridos”. É justamente lá onde mais jovens morreram nos protestos, enfrentando as forças de repressão do Estado.

A juventude apontou o governo de Iván Duque e seu padrinho político, o ex-presidente Álvaro Uribe, como responsáveis pelos assassinatos e pela atual crise social e humanitária. Portanto, como parte dos que lutam em Puerto Resistencia, incluíram entre suas exigências: “confirmar a responsabilidade da Polícia e da ESMAD (Esquadrão Móvel Anti-Distúrbios) pelos atos de força desmedida no país; esclarecer os responsáveis por danos e abusos que até o momento deixaram dezenas de mortos e centenas de desaparecidos; a retirada do projeto de lei que busca deteriorar ainda mais o sistema de saúde, que já se encontra em total catástrofe desde as reformas neoliberais aplicadas por Uribe (Lei 100)”.

A juventude colombiana também se mostra profundamente pró-operária e exige “a retirada de outros projetos de lei que precarizam ainda mais as condições de trabalho, que há décadas vêm sendo deterioradas”. Exigem também “uma reforma previdenciária, eliminar os salários vitalícios e reduzir em 50 por cento a remuneração dos governantes, injeção econômica para os pequenos e médios negócios e sanções aos políticos que ultrapassarem o afastamento de seus trabalhos, tal como indica a lei atual”.

Leia também: Os ares latinos de luta: façamos como os colombianos, façamos tremer Bolsonaro e golpistas

No que concerne à região da cidade de Cali, reivindicam “revisão dos casos de morte, abuso sexual e violação de direitos na comunidade do Departamento do Valle, aplicação dos orçamentos nas áreas de cultura, saúde, educação, criação de emprego e muitas outras demandas lógicas e justas que compõem uma infinidade de demandas não atendidas ao longo da história do país e que seguem vigentes”.

A Paralisação Nacional continua. Após não chegar a um acordo na reunião de segunda, enquanto se multiplicam as denúncias de abuso por parte das forças armadas e os incontáveis vídeos, fotos e transmissões ao vivo provam a certeza de impunidade com que a polícia a atira e mata. Mães de jovens de Cali denunciaram que caminhonetes brancas (com características similares às que foram associadas ao uso de armas de fogo contra manifestantes) estão entrando nos bairros e perguntando, com nomes próprios, onde estão os que fizeram publicações sobre a violência policial nas redes sociais. Querem calar os que estão expondo a realidade nacional que os meios de comunicação colombianos e internacionais escondem desde o início dos protestos.




Tópicos relacionados

Violência Estatal   /    Iván Duque   /    Colombia   /    América do Sul   /    América Latina   /    Violência policial   /    Internacional

Comentários

Comentar