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Greve da MRV em Campinas | A greve dos trabalhadores da MRV e uma lição estratégica à luta negra

Neste texto busco refletir sobre uma lição estratégia para lutas dos negros que podemos tirar do processo de greve dos 700 trabalhadores da MRV em Campinas-SP, que já faz 40 dias. Que levando em conta a história da classe trabalhadora brasileira e dos negros e negra, a luta negra contra o racismo só pode ser levada até o final enquanto luta de classe.

domingo 22 de agosto | Edição do dia

Neste texto busco refletir sobre uma lição estratégia para lutas dos negros que podemos tirar do processo de greve dos trabalhadores da MRV em Campinas-SP. Uma composição social que poderia ser vista como única e isolada, demonstrarei que no Brasil é mais que regra, muitas vezes falado, porém não é levado até o final o potencial revolucionário que os negros podem cumprir. Que a luta negra contra o racismo só pode ser levada até o final enquanto luta de classe, com a classe trabalhadora e os setores oprimidos contra a burguesia que utiliza os mais fortes preconceitos para extrair o máximo de mais-valia.

Já faz 40 dias que 700 trabalhadores da construção civil da empresa MRV entraram em greve, exigindo o direito de receber o PLR, que a empresa nega a pagar aos operários, mas paga a alta cúpula. De maioria negra e nordestina, esses trabalhadores se mostram mais que conscientes que sem eles nada é feito, os anos de experiência na área lhes dão autoridade de dizer que conhece todas as partes dos prédios do grosso início aos mínimos detalhes de finalização.

Nós do Esquerda Diários acompanhamos todos os dias o processo, cobrindo de solidariedade e apoio a luta desses trabalhadores. Não precisou de muito tempo para nos chamar atenção a conformação daqueles trabalhadores, a esmagadora maioria de negros e com sotaques nada paulistanos. Bahia, Pernambuco, Piauí e Ceará são os estados que a maioria alí tinha origem, muitos já há mais de 30 anos deixaram seus estados para morar em São Paulo.

Com grande ânimo eles contavam suas histórias, desde lembranças da juventude quando ainda não tinham se aventurado pelo Brasil, com um grande saudosismo e também contavam suas trajetórias até chegarem ali. O histórico de trabalho é gigantesco, desde trabalhar nas grandes indústrias automobilísticas e químicas, no comércio e feiras, mas com um tempo preponderante na construção civil.

Os trabalhadores e trabalhadoras da MRV não são uma exceção, são um pequeno reflexo de negros e nordestinos que foram e são uma parte da classe trabalhadora residente na maior metrópoles do país. Aqueles que passaram a maior parte das suas vidas construindo material e economicamente a grande São Paulo, mas que dentro do sistema capitalista significa por anos levantarem prédios gigantescos e serem sujeitados a morar em casas de tábuas por receber uma miséria de salários, como é em Campinas.

A migração nordestina para o sudeste

O contingente migratório do nordeste do país se deu por vários motivos, em relação à economia entre 1887 e 1930, em que teve o primeiro grande fluxo de migração, é notável que era esmagadoramente baseado no trabalho rural [1]. A composição basicamente de grandes proprietários de terras que empregavam camponeses pobres para trabalhar nas suas plantações, em situações semelhantes à servidão . Ou seja, para a população nordestina a realidade era viver na fome imposto pela concentração fundiária e pela constante secas que agredia a região

Do outro lado do país, a combinação de industrialização e um grande demanda de construção civil tornou um grande atrativo para quem não possuía terra para plantar e nem dinheiro para sobreviver. Por exemplo, até a década de 30 só para São Paulo foi estimada a chegada de mais de 280 mil pessoas oriundas do Nordeste e de Minas Gerais [2].

Nas décadas de 50 e 60, o número de nordestinos fora da sua terra natal dobrou. A atração se fortaleceu com a expansão da fronteira agrícola e o crescimento da construção civil, agora no Rio de Janeiro e em especial em Brasília, que foi construída do início ao fim com a força de trabalho negra e nordestina, e nível de industrialização de São Paulo em um constante aumento.

Assim, mesmo com a falta de Censo demográfico que esclareça exatamente a migração nordestina, entre a década de 40 e 70 foi contabilizado a porcentagem de ausência de naturais de cada estado nordestino:

(fonte:https://journals.openedition.org/confins/19451)

Nesse sentido, podemos concluir que a fuga de condições precárias de vida majoritariamente rural e as condições degradantes das cidades nordestinas somada com uma expectativa de melhorar de vida nas grandes cidades no sudeste, visão proporcionada pelo avanço econômico, colocou os nordestinos em um papel fundamental para o avanço das metrópoles no sudeste.

Se olharmos mais concentradamente para São Paulo podemos ver uma prova demonstrativa de como a classe trabalhadora brasileira possui uma complexidade profunda, onde a migração cumpre um papel muito importante e somado pelos capitalistas com as opressão racista e do patriarcado jogam a classe trabalhadora brasileira na miséria. Tanto no século passado como foi demonstrado, a mão de obra que foi se estabelecendo boa parte era negra oriunda do nordeste, isso porque aqui não entraremos no contingente de ex-escravos que se localizavam no sudeste do país.

Esta situação, de enfrentar diariamente condições de trabalho e vida cada vez mais precárias, não mudou nas vidas dos negros e negras no século XXI. Peguemos alguns dos postos de trabalho em que as mulheres negras são maioria, para demonstrar como a herança escravagista permite uma extração absurda de mais-valia, como por exemplo a terceirizadas da limpeza.

A classe trabalhadora e o trabalho precário no brasil.

Antes de entrar em especificações de categorias da classe trabalhadora, deve ser colocado que em relação aos trabalhadores formais, as mulheres representavam 43% em 2015, quase metade da classe trabalhadora formal, dentre estas 27% eram mulheres negras. Isso fica claro que a classe trabalhadora feminina e negra é enorme, porém ganha ainda mais peso quando colocarmos em consideração os trabalhos informais e que as vezes são análogas à escravidão. [3]

Por exemplo o trabalho doméstico, ele é uma marca do regozijo da burguesia brasileira em possui serviçais, e que a muito tempo no brasil a massa de trabalhadoras domésticas não possuíam o direito a formalização e se mantinham verdadeiramente em tempo integral dentro dos lares, estando 100% do tempo a disposição para os patrões. Em 2018 o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicou que 92% dos trabalhos domésticos (diaristas, babás, jardineiros e cuidadores) são ocupados por mulheres, no qual 68% são mulheres negras. [4]

Estes cargos são precários por excelência, junto com a terceirização e as novas formas de trabalhos uberizados, concretiza mais uma divisão da classe trabalhadora imposta pelos patrões. Isso permite uma normalização da situação degradante que a população trabalhadora vivencia, que vem sendo aprofundada ainda mais pois golpe institucional de 2016, com ataques categóricos por exemplo a reforma trabalhistas, reforma da previdência e MPs da morte de Bolsonaro, como a MP 1045.

Para a burguesia cada vez mais tenta precarizar e dividir a classe trabalhadora, como é explicitado:

“Dessa forma rebaicam o custo da própria força de trabalho, se apoiando nas diferenças no interior da classe trabalhadora (entre mulheres e homens, negros e brancos, jovens e velhos, imigrantes e nativos) para naturalizar que apenas uma parcela matenha alguns direitos, que sejam as mulheres que desempenham determinadas funções como o serviço de limpeza, de cozinha, na educação, sejam a maioria dos profissionaris da saúde, caixas de supermercado, telemarketing”. (Marcello, P. 2021) [5]

Portanto, não bastasse a burguesia usar a diversidade dentro da classe trabalhadora é como mácula para justificar as diferenças salariais e condições de trabalho, ora com teorias embasadas em premissas religiosas, ora com pseudociência. Ela formula divisões para a classe trabalhadora por tipo de contrato empregatício, como diferença entre efetivos e terceirizados. A questão que fica é qual a saída então para os nordestinos e nordestinas, negros e negras, homens e mulheres, e todos o setores oprimidos e explorados?

A luta dos trabalhadores MRV pode mostrar o caminho.

Estes trabalhadores que se colocam em greve em exigência ao pagamento de PLR e de melhores condições de trabalho, luta contra uma grande construtora que está mais que acostumada a tratar seus funcionários como simples peças descartáveis, assim como todas as empresas. A MRV é um exemplo de como os grandes empresários constroem seus lucros em base a miséria que seus funcionários são obrigados a viver, o sucesso edificado sob a precarização do trabalho.

No histórico da MRV é marcada de vários processos por trabalhos análogos à escravidão, empresa que surfa diretamente na tradição escravocrata da burguesia nacional. E ainda possui a demagogia de carregar como slogan a promessa de “construir sonhos” e não garantir sequer papel higiênico nos canteiros de obras. Em uma carta as atletas olímpicas brasileiras, que participam do projeto #ElasTransformam financiado pela empresa, as trabalhadoras afirmam:

“Aqui em Campinas, entramos em greve já faz mais de um mês e a empresa não negocia a nossa pauta e agora cortou nosso salário. Na obra, falta material, falta epi, papel higiênico e muitas de nós ganhamos menos do que os homens. Mas a verdade é que sem a gente a obra não termina, a gente que faz a limpeza todos os dias, que faz o rejunte dos apartamentos e que agora luta, junto com nossos companheiros, pelo direito à PLR e melhores condições de trabalho, porque a MRV é acusada até mesmo de ter trabalho análogo à escravidão.” [6]

Isso demonstra que para a MRV nem todas podem transformar e escancara que para as empresas patrocinar mulheres ou até mesmo fazer propagandas apelativas com crianças negras, não está subordinado a garantir melhores condições para todos seus funcionários. Pelo contrário, utilizam essas iniciativas para esconder a miséria que submetem seus trabalhadores, muitas mulheres e negras.

Sendo assim, mostram que para defender o interesse da classe trabalhadora não podemos confiar nas empresas, e sim na auto-organização dos trabalhadores junto com os setores oprimidos. Com o método próprio da classe trabalhadora, a greve, parando a construção e prejudicando nos lucros de Rubens Menin, dono da MRV e da CNN Brasil, onde mais dói.

As empresas se apoiam no racismo, no patriarcado, na xenofobia e em todas as opressões para poder extrair ainda mais seus lucros, ou seja, jogar a classe trabalhadora negra, feminina e nordestina em condições mais precárias para garantir seus bilhões. Por isso que os métodos de luta devem ser com paralisações, atos de rua, panfletagens, assembleias, organização de comitês de luta, são maneiras da classe trabalhadora orquestrar suas batalhas, massificá-las e ganhar o apoio da população.

Um outro exemplo é a própria carta das trabalhadoras da MRV as atletas olímpicas, um chamado à solidariedade entre mulheres, um maneira de mostrar que a greve pode e deve abarcar a lutas dos setores oprimidos dentro da classe trabalhadora, com ações que consiga levar até o final as demandas destes e tentar explorar a unidade com outros setores.

A grande lição que devemos pensar para luta dos negros e negras, homens e mulheres, que todos os dias sofrem com a precarização do trabalho, junto com todos oprimidos, é que com os métodos e política da classe trabalhadores podem dar uma resposta verdadeiramente anti-racista e contra o patriarcado. Pois lutar contra os baixos salários que as empresas pagam podem e devem ganhar um corpo de luta contra o racismo e patriarcado, pois como já foi demonstrado são por essas opressões que é normalizado essas situação.

E se essas lutas não ganham esse caráter mais claro e decisivo é por causa da separação superficial entre as demandas econômicas e democráticas que as grandes centrais sindicais fazem, superficial porque ela não existe na prática. Então o elemento que poderia ainda mais potencializar as lutas da classe trabalhadora contra esse sistema é mantidas separadas, em que a CUT e CTB dirigidas pelo PT e PCdoB, respectivamente, são as principais barreiras para o desenvolvimento da nossa luta.

Frente a barbárie de Bolsonaro, Mourão e também setores como o Congresso, governadores e STF, que são poderes que lutam entre si, mas que estão juntos em atacar os trabalhadores, aquelas organizações que poderiam organizar nossa luta mantém a classe trabalhadora paralisada. E deixam as lutas que estão ocorrendo isoladas, sem querer massificar, pois a política que levam para o conjunto dos trabalhadores é esperar até as eleições de 2022, com a candidatura do Lula.

É nesse sentido que as organizações de esquerda, como PSTU com a CSP-Conlutas e as organizações PSOL com todo seu peso, devem atuar para pressionar as grandes centrais sindicais, que não deixem processos de lutas como os trabalhadores da MRV, marcadamente de negros, negras e nordestinos, ficarem isoladas. Que possa potencializar mais as as lutas, ligando com a população em geral, outros setores de trabalhadores, o movimento de negros, de mulheres e entre outros, em que possa fortalecer e unificar nossas lutas.


[1https://journals.openedition.org/co...(acessado em 05/08/2021.)

[2Idem

[3Assis, O. e Helena, D. Formação e anatomia da classe trabalhadora feminina e negra no Brasil. In: Parks, L; Assis, O. e Cacau, C. (orgs.). Mulheres Negras e Marxismo. São Paulo: Edições Iskra, 2021.

[4https://agenciabrasil.ebc.com.br/ec...,(acessado em 17/08/2021)

[5Marcelo, P. Pele negra e rosto de mulher: terceirização, mulheres negras e luta de classes. In: Parks, L; Assis, O. e Cacau, C. (orgs.). Mulheres Negras e Marxismo. São Paulo: Edições Iskra, 2021.





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