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ED rodoviários | A força da greve da Carris, a traição do sindicato e como seguir a luta contra Melo

Os rodoviários da Carris cruzaram os braços, nesta segunda-feira (24), contra o projeto de privatização da empresa por parte de Melo e seus vereadores. A luta dos trabalhadores mostrou que, confiando nas nossas próprias forças, é possível derrotar Melo, os empresários e todos que nos atacam.

terça-feira 24 de agosto | Edição do dia

Centenas de rodoviários parados em frente à empresa, mesmo antes do sol nascer, mostrando que não permitirão a privatização. Os primeiros boiadeiros chegaram com os trabalhadores dos primeiros horários, mas ao desembarcarem também aderiram ao movimento. Nós da Juventude Faísca, do MRT e do Esquerda Diário, junto de outros setores, estivemos desde o início no piquete ao lado dos rodoviários. O resultado é que Sebastião Melo (MDB) não colocou em votação o projeto privatista nessa segunda, mesmo contando com maioria na Câmara para a pauta. A força dos trabalhadores impôs um recuo, mesmo que parcial e imediato, em seus objetivos.

A greve gerou simpatia também entre os trabalhadores das empresas privadas, expressando a potencialidade que tem de unificar os trabalhadores da Carris com os das empresas privadas. Inclusive, um desses trabalhadores relatou saber que se a privatização da Carris passar, a extinção dos cobradores e outros ataques passam ainda mais rápido. Ademais, apesar da deplorável propaganda midiática da RBS e da direita liberal nas redes contra a greve, ainda assim uma importante camada da população apoiou os rodoviários, como mostra neste vídeoOu seja, a greve de menos de 24 horas mostrou um potencial de unir rodoviários da Carris com os das privadas e ganhar parte da população para a luta contra os ataques de Melo e dos empresários.

No país em que Bolsonaro e Guedes impõem ataques e privatizações, como a MP 1045, a privatização dos Correios e da Eletrobrás, ergue-se uma importante resistência operária contra a privatização de uma importante empresa pública de ônibus urbano, que sustenta o transporte em Porto Alegre. Com o refluxo dos atos de rua e a disputa entre os autoritarismos de Bolsonaro e do Judiciário pressionando a conjuntura política ainda mais à direita, essa resistência tem que ser exemplo aos trabalhadores de todo o país. Assim como a greve da MRV e a luta dos indígenas contra o Marco Temporal.

Melo, seguindo seu líder genocida, aplicou a Reforma da Previdência no município, um duro ataque aos municipários. Para o transporte público prometeu privatizar a Carris, acabar com os cobradores, atacar o meio-passe estudantil, cortar mais isenções e, para os empresários, subsídios e redução de impostos. Não tenhamos dúvidas que a estabilidade dos rodoviários da Carris é algo que Melo tem pesadelos. Quer um transporte onde o regime de trabalho seja como o da MP 1045 de Bolsonaro, onde os trabalhadores não tenham direito, trabalhem doentes, e os empresários possam demitir a qualquer momento e, o mais importante, não tenham direito de manifestação política.

O corte de ponto para os carrisienses estava confirmado por Melo mesmo antes de começar a paralisação. Trata-se de um ataque ao direito de greve dos trabalhadores, ilegal, pois visa coagi-los a voltar a trabalhar. Nas duas assembleias que ocorreram ontem os rodoviários responderam que não iriam aceitar essa chantagem, pois "uma dia de trabalho vale menos do que o emprego" ou "menos do que a Carris". Na primeira reunião chegaram a votar que não iriam até a Prefeitura conversar com Melo, pois ele que deveria ir até a Carris. Uma mostra do espírito combativo presentes nos trabalhadores e o potencial que a categoria tem para vencer.

A reunião com Melo, a traição do sindicato, o "estado de greve” e como seguir a luta

Melo chamou uma reunião com os rodoviários para às 16:30hs. A Comissão de Funcionários da Carris, composta por ativistas da categoria, com setores ligados ao PCdoB e PT, junto dos dois delegados sindicais, do sindicato e alguns vereadores, se juntaram ao prefeito em uma reunião com distintos níveis de absurdos. Não entraremos em todos os detalhes dessa reunião, que pode ser vista aqui, mas ela deixou claro que a prefeitura está intransigente em privatizar a Carris e também que o sindicato e muitos dos presentes estão dispostos a negociar direitos com Melo (como foi o caso absurdo da vereadora do PCdoB que cogitou acabar com a isenção de carteiros, por exemplo).

Após sair da prefeitura, prontamente o presidente do sindicato, Abade, traiu os trabalhadores e declarou à imprensa que a greve estava encerrada e o "diálogo" com a prefeitura foi vitorioso. Além de “decretar” de forma burocrática e autoritária uma greve que é da categoria (e não da diretoria do sindicato), Abade claramente vendeu o movimento para o prefeito, como se tivesse algum mínimo de conquista na reunião que ocorrerá quinta-feira. Acontece que essa reunião, como o próprio Melo disse, é para a prefeitura apresentar slides da proposta de privatização e retirada de isenções. Nesse cenário, o sindicato traiu descaradamente uma categoria extremamente fortalecida. A primeira lição que devemos tirar dessa segunda-feira, é que os rodoviários podem confiar apenas em suas próprias forças, pois Melo virá com tudo. Não é possível confiar nem no Melo, nem na Câmara, nem na Justiça ou no sindicato, que atua em benefício dos seus interesses próprios. Deve-se exigir que o sindicato convoque assembleia de toda a categoria para unificar o movimento, mas a luta será garantida pelos trabalhadores e não pelo sindicato.

A Comissão e os delegados sindicais organizaram a última assembleia do dia para repassar o debate da reunião e decidir os rumos da luta. Resumindo, a proposta era encerrar a greve (como fez o sindicato), voltar ao trabalho, decretar um "estado de greve" em abstrato e reunir novamente com Melo na quinta-feira (26). O delegado Afonso (PSTU) chegou a ser vaiado por não defender a continuidade da mobilização. A Comissão falou em "diálogo" com a prefeitura, mesma linha que havia sido combatida na primeira assembleia, e uma "primeira vitória" da mobilização por conseguir mais uma reunião com Melo, seguido rapidamente de rechaço dos trabalhadores que não confiam nas palavras mentirosas de Melo. Então, o vereador do MES/PSOL, Roberto Robaina, fez uma longa intervenção detalhando os trâmites da Câmara, concluindo que o projeto não irá para votação nessa semana e conseguiu convencer os trabalhadores a voltar a trabalhar para entrar em greve em outro momento, quando Melo colocar para votar novamente. Na prática, acabou defendendo a mesma proposta da comissão, que não apresentou uma proposta concreta para seguir a mobilização além do “estado de greve”. O problema dessa proposta é que é preciso fortalecer a mobilização desde já, preparando a categoria para uma batalha ainda maior do que a que ocorreu nessa segunda-feira.

A mobilização dos rodoviários mostrou que é possível derrotar os planos de Melo e dos empresários. Para isso é necessário um plano concreto, como uma ampla campanha por um fundo de greve para que a categoria não fique refém dos ataques de Melo e da chefia da empresa. Pedir o apoio financeiro das centrais sindicais, sindicato, entidades estudantis, intelectuais de esquerda, vereadores e demais setores. Para vencer essa dura batalha, precisamos de mais, precisamos batalhar para ganhar a população para o lado dos rodoviários, mostrando que quem precariza e encarece o transporte são os empresários e Melo, e não os trabalhadores. Além disso, a unidade com os rodoviários das empresas privadas é o que pode impor uma derrota ao conjunto do projeto de Melo para o transporte. Por essa via é possível batalhar por um transporte 100% Carris, sob controle dos trabalhadores, readmitindo todos os rodoviários demitidos durante a pandemia e atacando o desemprego.




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