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Opinião | A eficácia da vacinação e a luta contra o passe sanitário na França

Anasse Kazib é dirigente ferroviário, membro do Revolução Permanente que tem apresentado sua candidatura às eleições presidenciais francesas de 2022. Nesta coluna expõe o seu ponto de vista sobre as atuais mobilizações que sacodem o país contra o passe sanitário de Macron e a necessidade de vacinação maciça.

sexta-feira 13 de agosto | Edição do dia

O passe sanitário é uma medida que o governo Macron usa para esconder sua falta de uma estratégia de saúde. No entanto, a eficácia e a segurança da vacina, em comparação com os riscos da Covid, são inegáveis.

A cada semana que passa crescem as mobilizações contra o passe sanitário, das quais participei. Ao mesmo tempo, a situação de saúde piora e a única resposta do Estado é impor medidas ainda mais repressivas, e tentar colocar a culpa da recuperação da epidemia nas pessoas que ainda não se vacinaram, para assim evitar falar sobre sua própria falta de uma estratégia de saúde.

Hoje em dia existe um ceticismo real em relação à vacinação, e não só entre os setores abertamente anti-vacinas, mas também entre toda uma parte da população que já não confia mais na palavra do governo, e com razão, tendo em conta a desastrosa gestão da crise sanitária. Também existe muita desconfiança em uma indústria farmacêutica comandada por grandes grupos que têm interesse econômico na produção de vacinas. Mas sobre essa desconfiança legítima se apoia um setor político e ideológico que espalha falsas notícias sobre a eficácia das vacinas, algo que é indiscutível.

Por isso resolvi escrever uma Thread no twitter, que reproduzo a seguir, no qual faço uma revisão do que se sabe até agora sobre a vacina, para responder a todas essas dúvidas, essas perguntas e essas desconfianças. Basicamente, para fazer um trabalho educativo elementar que o governo não pode fazer hoje. E sobretudo tudo, faço esta contribuição do ponto de vista de um trabalhador como outro qualquer, que se preocupa com a difusão de ideias reacionárias entre a sua classe social, que é a primeira vítima da Covid.

Em primeiro lugar, quero deixar claro que sou contra o passe sanitário, mas a favor da vacinação o mais massiva possível. Eu mesmo recebi minhas duas doses da vacina Pfizer desde maio. No dia seguinte à vacinação, meu braço doeu e tive febre. Quase todos os meus familiares estão vacinados e não tiveram nenhum problema particular pós-vacinação, ou seja, cerca de 200 conhecidos, ativistas, colegas, amigos, vacinados com nada mais sério para lamentar do que uma febre durate dois dias. Entre eles, alguns receberam uma vacina Pfizer, alguns receberam uma vacina AstraZeneca. E entre eles estão diabéticos, imunossuprimidos, atletas, jovens, idosos, etc. A grande maioria deles sentiu dor nos braços e um pouco de fadiga no dia seguinte, e alguns, que haviam passado por uma covid forte, tiveram febre um pouco mais alta.

Muitos céticos da vacina estão, na verdade, mal informados ou influenciados por notícias falsas. Outros duvidam da própria periculosidade de Covid, ao não haver experimentado diretamente e, portanto, duvidam da necessidade de se vacinar. Eu vi o Covid o mais perto possível. Meu padrasto passou um mês na UTI antes de morrer no Hospital da Universidade de Angers, e meu primo de 17 anos, que era diabético tipo 1, também morreu de Covid. Perdi um colega de 40 anos. Alguns de meus colegas perderam os dois pais. No prédio onde moro, o Covid matou vários vizinhos. Dezenas de meus amigos perderam um ou mais entes queridos. Na verdade, a Covid tem matado massivamente e continua matando a maioria das pessoas com mais de 60 anos, mas também pessoas que não tinham antecedentes.

Mesmo sem atingir uma situação extrema de morte, a Covid também tem efeitos de longo prazo na saúde das pessoas infectadas. Conheço várias pessoas que perderam o olfato e o paladar e não se recuperaram por várias semanas. Alguns ainda não os recuperaram. Outros estão sendo tratados para doenças causadas pela Covid, como miocardite ou embolia pulmonar. Eu vi a devastação de Covid com meus próprios olhos, vi como nos contavam no portão do cemitério, porque não mais do que 20 pessoas podiam assistir ao funeral de um ente querido que não puderam ver pela última vez antes do enterro, devido ao Covid.

E a vacinação já provou sua eficácia contra esses estragos. Tentarei demonstrar com números e exemplos concretos, comparando a situação de países que ainda são pouco vacinados, e países onde mais de 50% da população está vacinada, enfrentando a nova onda provocada pela variante Delta, ou às vezes pela variante Alfa, mais fraca.

Vamos começar com países com taxas de vacinação relativamente baixas, por exemplo, a Rússia, que está passando por uma grande onda da variante Delta. Tem apenas 17,5% dos vacinados com duas doses. Em 28 de julho, havia 22.420 casos positivos e 798 mortes em 24 horas. No Brasil, onde o Bolsonaro desempenha o papel de principal negacionista e anti-vacina, foram obrigados a acelerar o índice de vacinação diante da magnitude da nova onda. Com apenas 19,7% vacinados, em 27 de julho ocorreram 41.000 casos e 1.333 mortes em 24 horas. A Indonésia havia sido bastante poupada da Covid até agora, e a variante Delta virou tudo de cabeça para baixo, e o vírus está causando estragos entre os jovens. Com uma taxa de vacinação completa de apenas 7,6%, em 31 de julho, havia 37 mil casos positivos e 1.800 mortes em um dia.

Nestes três países, onde a proporção da população vacinada é baixa, a curva de casos positivos e a curva de mortalidade sobem juntas.

Agora, passemos aos países onde a população está em mais de 50% vacinada, que também enfrentam uma nova onda, às vezes com um número de casos tão grande quanto nos países anteriores. Nesses países, quando olhamos as curvas, vemos que a curva de mortes diverge e se afasta da curva dos casos positivos, em relação à que víamos há poucos meses. Nos Estados Unidos, houve 68.437 casos positivos, com 375 mortes apenas em 27 de julho. Isso é 27.000 casos a mais que o Brasil e 1.000 mortes a menos. A diferença: a população americana é vacinada com duas doses em mais de 50%. No Reino Unido, a mesma situação: no dia 20 de julho, no pico das curvas, foram registrados 46 mil casos contra 96 óbitos. São 1.200 mortes a menos que o Brasil, para o mesmo número de casos. 57,2% dos britânicos estão vacinados com duas doses.

Neste inverno, antes das grandes fases de vacinação nos Estados Unidos e no Reino Unido, a situação não foi a mesma. Nos EUA, antes da vacinação, para o mesmo número de casos positivos, ocorreram 976 óbitos, contra 375 atualmente. No Reino Unido, houve 1.250 mortes, em comparação com as 96 de agora.

Também na França a vacinação tem impacto, com 47,5% da população vacinada. No final de abril, para 28 mil casos positivos, ocorreram 398 mortes. Em 28 de julho, para o mesmo número de positivos, houve apenas 52 mortes.

Diante da nova onda epidêmica, a diferença entre países vacinados abaixo de 20% e países acima de 50% é edificante. Embora a vacina não impeça as infecções, especialmente com a variante Delta, ela salva vidas. As pessoas adoecem, mas à medida que a vacinação avança, ocorrem cada vez menos mortes.

Hoje, a nova onda afeta principalmente menores de 50 anos e não vacinados. Na Inglaterra, dos 80 mil casos registrados em junho, 67% dos positivos não estavam vacinados, 25% haviam recebido uma dose e 8% duas doses. Além disso, há casos cada vez mais graves entre quem está na faixa etária dos 30 anos.

Isso não significa subestimar as possíveis complicações que as vacinas podem causar. As vacinas, como qualquer medicamento ou terapia, podem ter efeitos colaterais graves, em casos muito marginais. No entanto, esses efeitos colaterais graves ainda são muito raros e são especialmente mínimos em comparação com os riscos da Covid. As vacinas da Covid estão possivelmente entre os produtos médicos mais vigiados de nossa história; são distribuídas globalmente e se tem liberado recursos e meios sem precedentes para desenvolvê-las, razão pela qual elas se desenvolveram tão rapidamente.

É normal nos preocuparmos com a velocidade com que eles se desenvolveram, mas também devemos pensar que, se todas as pesquisas médicas se beneficiassem de meios e financiamentos semelhantes, muitas descobertas poderiam ser feitas com a mesma rapidez. Além disso, os efeitos colaterais das vacinas geralmente aparecem nos dias e semanas após a vacinação. Nenhuma vacina teve efeitos colaterais reconhecidos mais de 3 semanas após a vacinação. Hoje, dado o número colossal de pessoas vacinadas e o tempo decorrido entre os primeiros testes e a vacinação mais difundida, temos o retrospecto necessário para dizer com certeza que as vacinas Covid são seguras e eficazes.

É normal preocupar-se com a velocidade com que elas se desenvolveram, mas também devemos pensar que, se todas as pesquisas médicas se beneficiassem de meios e financiamentos semelhantes, muitas descobertas poderiam ser feitas com a mesma rapidez. Além disso, os efeitos colaterais das vacinas geralmente aparecem nos dias e semanas após a vacinação. Nenhuma vacina teve efeitos colaterais reconhecidos mais de 3 semanas após a vacinação. Hoje, dado o número colossal de pessoas vacinadas e o tempo decorrido entre os primeiros testes e a vacinação mais difundida, temos o retrospecto necessário para dizer com certeza que as vacinas contra a Covid são seguras e eficazes.

Diante de um vírus que sofre mutações e mata, acredito que as informações que temos sobre os 2,5 bilhões de seres humanos já vacinados são convincentes. Isso não significa que devemos ter fé cega em uma indústria farmacêutica que faz da saúde um mercado como outro qualquer. Mas os números estão aí e deve ser feita uma distinção entre inovação biomédica e indústria farmacêutica.

O governo, que colocou os interesses econômicos dos patrões antes da saúde dos trabalhadores em cada fase da pandemia, e a lucrativa propriedade do setor da saúde, que faz de nossas vidas objeto de especulação, são os dois primeiros responsáveis pelo ceticismo de setores da população em relação às vacinas, incluindo as derivas conspiratórias e reacionárias as quais dá espaço.

É por isso que as patentes das vacinas devem ser liberadas e acabar com a lucrativa propriedade no setor da saúde. Os trabalhadores fizeram girar o mundo nos piores momentos da pandemia, foram os mais afetados e não devem ser os que paguem o preço pela irracionalidade com a qual o capitalismo lida com a atual crise e a pandemia.




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