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Eleições 2022 | A demagogia de Lula não esconde sua obsessão por uma frente com a direita liberal dos ataques

Em seu tour pré-eleitoral, Lula tem dado algumas declarações contra as reformas e privatizações. Mas basta olhar sua política de construção de acordos com nossos inimigos para se eleger e seu discurso se mostra pura demagogia, um jogo duplo que semeia ilusões.

quarta-feira 14 de julho | Edição do dia

Bolsonaro e seu desastroso negacionismo, junto com Mourão e os militares, conseguiu jogar o país em um desastre sem precedentes a partir da pandemia, e se encontra em uma crise política aguda com os escândalos de corrupção na compra de vacinas. Com um governo marcado por absurdos praticamente semanais, desastres ambientais e miséria para a massa da população, ele se encontra em grande medida desgastado, ainda que tenha mais um ano e meio de governo.

Nessa situação, com a esquerda retomando as ruas e lutas operárias surgindo aqui e ali, os tempos se aceleraram. O governo, a direita do Congresso e o STF estão encaminhando ataques e privatizações a passos largos, enquanto a juventude, os trabalhadores e o povo pobre que foram às ruas buscam qual a estratégia para resistir à essa investida e se livrar de Bolsonaro. E é nesse cenário que um Lula reabilitado pelo judiciário golpista que proscreveu sua candidatura em 2018 volta à primeira página da política nacional, atualmente em um giro para construir uma frente ampla com a direita e novamente disputar a presidência.

Na semana passada, em entrevista para a Rádio Salvador, Lula disse que iria revogar o teto de gastos e fazer alterações na reforma trabalhista. Em outro episódio, na Rádio Bandeirantes, se colocou contra a privatização da Eletrobrás, um brutal plano bolsonarista que vem sendo levado à cabo em conjunto com o Senado e a Câmara de Deputados.

Porém, a demagogia de Lula se torna evidente para qualquer trabalhador que acompanhe a política nacional quando ele propõe que, para acabar com essas medidas que estrangulam a saúde, a educação e que estão transformando o Brasil em um laboratório neoliberal da precarização do trabalho, vai conquistar uma maioria na Câmara. Afinal, os próprios responsáveis pelos ataques de ontem e que hoje estão junto com o governo Bolsonaro-Mourão votando novos, como a reforma administrativa, certamente irão se colocar contra o mercado financeiro e os patrões em um futuro governo Lula, revogando o teto de gastos e a reforma trabalhista. A verdade é que, para se tornar uma alternativa viável para a burguesia e para o regime, Lula não quer e nem pode se colocar contra os ataques aprovados e os que estão por vir.

A demagogia explícita no histórico de submissão

Contra o teto de gastos, na verdade, a saída que Lula propõe não é sequer enfrentar o capital financeiro, que ele tanto volta e meia brada contra, e sim ser um servo mais responsável que o próprio Paulo Guedes. À Rádio Salvador ele disse: Governei oito anos com muita responsabilidade. Saímos de devedores para credores do FMI. Eu não terei teto de gastos. E nisso ele tem razão, porque seus governos se aproveitaram da alta das commodities, que enriqueceu o agronegócio e as mineradoras, para despejar mais de 7 trilhões de reais nos bolsos do imperialismo. O que ele esconde é que aquela alta não foi fruto da sua política econômica e sim da situação da economia mundial na época que favoreceu o Brasil, e que está longe de ser o cenário projetado para os próximos anos.

Confira: O PT foi quem mais pagou o saque da dívida pública na história do Brasil

Também seu discurso sobre a reforma trabalhista cai por terra quando analisamos os dados sobre emprego durante os anos de governo do PT, onde a terceirização realmente entrou no Brasil. Durante os governos de Lula e Dilma, o número de terceirizados no país (composto principalmente por mulheres negras), decolou de 4 para 12,7 milhões em 2013, e o PT se vangloriava desses números por ter “gerado empregos”. Sim, sub-empregos com salários reduzidos e sem direitos, que diminuíram o nível de vida de milhões e aumentaram o lucro dos patrões ao dividir a classe trabalhadora entre os “da casa” e os terceirizados, tratados como uma subcategoria estrangeira mesmo trabalhando no mesmo espaço e muitas vezes nas mesmas funções.

A frente ampla com a direita enquanto segura o freio da nossa luta

Longe de colocar seu peso para fortalecer as lutas operárias em curso, como a contra a privatização dos Correios, Lula já “perdoou” a direita que deu o golpe em 2016, para retirar Dilma e acelerar e aprofundar os ataques contra a população, e vem em uma corrida para formar suas alianças com eles rumo às eleições de 2022, com uma coleção de representantes dos interesses empresariais que inclui o Rodrigo Maia da reforma da previdência, Kassab, FHC e Paes. Tenta se mostrar como um ótimo gestor do capitalismo e suas alianças sinalizam à burguesia que a obra econômica de ataques da última década será preservada, ou inclusive incrementada, como dá a entender em suas ponderações de “por que não um Correios e Caixa de economia mista?”, ou seja, privatizando lucros e socializando prejuízos.

Enquanto expande seu espectro de alianças com nossos inimigos, o PT de Lula leva adiante uma trégua criminosa com o governo e os capitalistas por meio de seu papel dirigente, junto com o PCdoB, nas centrais sindicais (CUT e CTB) e no movimento estudantil (UNE e diversos DCEs). Nesses dois campos, estão operando uma divisão brutal inclusive nos atos, separando os atos da classe trabalhadora (contra as privatizações como a dos Correios) das manifestações contra Bolsonaro, como fizeram ontem.

Isso porque a estratégia não é dar um enfrentamento decidido contra os ataques e o governo, e sim desgastar Bolsonaro até 2023, enquanto se conserva a relativa paz social dos ricos, com mais um ano e meio de fome, alta do custo de vida, desemprego, desmatamento criminoso, retirada de direitos e venda das riquezas nacionais. Talvez para as burocracias políticas, sindicais e estudantis a situação não esteja tão desesperante para estarem tão tranquilas e festivas, mas não existe calmaria do ponto de vista da classe trabalhadora, pois os capitalistas seguem despejando a crise em nossas costas e nos matando com novos desastres ambientais, ataques aos povos indígenas ou crimes machistas, lgbtfóbicos e racistas. Por isso precisamos derrotar Bolsonaro e Mourão agora, com a força das ruas e da classe trabalhadora, como mostram os exemplos de luta de classes internacionais.

E se, portanto, não podemos ter confiança na frente ampla de Lula como uma saída para a catástrofe que vivemos e que cresce a cada dia, também não podemos apostar nossa força em outra ilusão que é o impeachment de Bolsonaro, reivindicado pelo PSOL, PSTU, UP e PCB junto com setores da direita como o MBL e o PSL. Isso porque o impeachment impulsionado pela CPI da Covid se configuraria como um mecanismo da direita do congresso para desviar nosso descontentamento, preservar o regime, os ataques, e colocar no lugar o racista do Mourão em um processo que demoraria provavelmente tanto quanto esperar as próximas eleições.

A saída é confiar somente na nossa força, na força da luta de classes, e não das instituições de um Estado feito para nos dominar. Ainda que tenhamos voltado a tomar as ruas, a política das direções petistas do movimento de massas impõe limites ao nosso movimento, e a esquerda acima mencionada não faz mais do que aceitar calada ou levantar a necessidade de uma greve geral (o que está correto), mas sem nomear quais os entraves que impedem os trabalhadores de chegarem lá.

Alguns, hora ou outra, dizem “não podemos esperar 2022”. Mas qual alternativa levantam se não a ilusão do impeachment? Nós do MRT e do Esquerda Diário propomos à esquerda construir um Comitê Nacional pela Greve Geral, uma unidade na ação entre os setores que compartilhem desse objetivo, para atacar com um só punho o governo. Nesse sentido, chamamos a Conlutas, dirigida pelo PSTU, e as duas Intersindicais a se somarem nessa proposta e a fazer reuniões de base e assembleias onde dirigem, ajudando a exigir das centrais de massas, como a CUT e a CTB, que convoquem assembleias de base em cada local de trabalho, com direito à voz e voto, para que os trabalhadores se tornem sujeitos da luta e possam decidir um plano de lutas nacional e organizar uma greve geral para derrubar Bolsonaro, Mourão e os ataques. Chamamos a esquerda a dar essa luta junto conosco e romper com sua subordinação ao PT, suas ilusões institucionalistas e a colaboração com a direita.

Consideramos que é preciso levantar a bandeira da Assembleia Constituinte Livre e Soberana imposta pelas lutas e mobilizações em curso, para apresentar uma saída independente de todas as alas desse regime herdeiro do golpe de 2016, que não mude somente alguns jogadores e sim todas as regras do jogo. Um processo assim permitiria ao povo batalhar para desfazer todos os ataques e reformas anti-operárias e, nesse caminho, nossa batalha é por convencer de que sem romper com o capitalismo é impossível atender plenamente as demandas das massas e por isso é preciso avançar para lutar por um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo.




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