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TRIBUNA ABERTA | A cruel pedagogia do vírus: do sonho à realidade em ser professora no Rio Grande do Norte

Confira o depoimento de uma professora da rede estadual de ensino do Rio Grande do Norte

Larissa NunesAdvogada Prof. de Sociologia SEEC RN Doutoranda em C Sociais UFRN

terça-feira 13 de julho | Edição do dia

Foto: Assecom/Governo do RN

Ser professora era um sonho antigo, após concluir a graduação em Ciências Sociais, ainda em 2009 e percorrer a especialização e o mestrado, percebi que faltava algo, a prática docente. Assim, em 2017, ingressei na licenciatura em Ciências Sociais e concluí em 2019. Em 2016 fiz o concurso e somente em 31 de dezembro de 2020 fui nomeada para ser professora efetiva de Sociologia no Estado do Rio Grande do Norte.

Do sonho, da meta de ser professora e a realidade em ser professora e educadora da rede pública de ensino no RN, nomeada durante a pandemia do COVID-19, assumi.

Me deparei com as dificuldades dos alunos, que são inúmeras, dentre as principais destaco a falta de equipamentos adequados para assistirem as aulas e para realizarem as atividades, o acesso à internet precário, pois constantemente os alunos ressaltam que a conexão ficou lenta ou caiu, eles usam celulares emprestados dos pais ou de irmãos mais velhos. O ambiente da casa de muitos não é favorável, barulho, calor, cômodos pequenos, muitas pessoas dentro de casa, são poucos ou raros os alunos que abrem a câmera durante as aulas.

Além disso, dos equipamentos, da internet, das residências, existem outros problemas, alunos que retrataram ter crises de ansiedade e depressão, dentre outras problemáticas causadas pelo isolamento social em pessoas que estão em desenvolvimento e que precisam da sociabilidade dos seus pares para as trocas.

Outro aspecto, que inicialmente perguntei nas aulas, foi se algum aluno estava passando necessidade em casa ou se estava em contexto de violências, expliquei quais os mecanismos que existem e a quem eles podem procurar, a importância das políticas sociais e da existência do Centro de Referência de Assistência Social, de que poderiam se inscrever, quem ainda não havia feito, o acesso ao cadastro único e de que poderiam até mesmo fazer o ENEM e outros concurso com isenção da taxa de inscrição.

É perceptível a dificuldade que os alunos possuem em acompanhar e participar das aulas, isso também remete a falta de estímulo no ambiente familiar para os estudos, além de, provavelmente, não ter pessoas com escolaridade para tirar dúvidas das atividades ou até mesmo, acredito que a maioria, de pais e mães que trabalham o dia inteiro fora e não resta tempo para acompanhar os filhos.

Outro ponto que me chamou bastante atenção foi a participação das alunas mulheres, muitas estão responsáveis pelos cuidados da casa e dos irmãos mais novos, isso compromete o processo de aprendizado, imagino que muitas alunas estão preparando o alimento, estão lavando roupas, louças, cuidando da limpeza da casa, sobrecarregadas de atribuições que foram direcionadas por não estarem na escola, a cultura machista ganha espaço e desde cedo atinge de forma agressiva o estudo das mulheres e o seu desenvolvimento educacional.

Na escola já foi observada a evasão escolar, alunos que nunca conseguiram acompanhar nenhuma aula no formato de ensino remoto, alunos que pediram transferência da escola e outros desistiram. Cabe ressaltar, que alunos do sexo masculino já relataram que foram trabalhar para ajudar no sustento da casa e não estavam acompanhando as aulas.

No que se refere ao professor, educador, mediador de saberes, ah, esse tem sido extremamente desafiador, assim como para os alunos da rede pública de ensino, os professores não receberam nenhum auxílio, treinamento, equipamento para realizar as aulas em formato remoto, a responsabilidade foi jogada para os servidores.

A precarização do trabalho, essa é a expressão que mais representa a nossa categoria, são mais horas trabalhadas, o número do WhatsApp foi disponibilizado e fomos incluídos em dezenas de grupos, a todo momento mensagens são enviadas, alunos que perguntam constantemente, afinal, somos praticamente os únicos que tiramos as dúvidas, haja vista a falta de outras pessoas com grau de instrução que saiba ensinar os deveres de casa.

A falta de uma jornada fixa, o uso dos equipamentos e da internet e energia, tudo custeado pelo professor, é desestimulante, cansativo, os problemas psicológicos também atingem os professores, que estão sobrecarregados, ansiosos, dores de cabeça são frequentes, dores de coluna, por ficar muitas horas em frente ao computador, problemas na visão pelo contato direto com as telas.

Outro aspecto, pais de alunos enviam mensagens exigindo questões que não são de competência dos professores, criticando o formato das aulas ou a quantidade de atividades, existe toda um contexto de demonização do papel do professor, especialmente partindo de pais ou responsáveis que são bolsonaristas, um discurso marcado pelo ódio aos servidores, aos professores, aos educadores e atém mesmo para algumas disciplinas, como a de Sociologia e Filosofia, por serem as que diretamente proporcionam os alunos a reflexão.

Antes de tomarmos a segunda dose da vacina estamos sendo obrigados a retornarmos para a sala de aula, isso é tão absurdo, cruel e, sobretudo, é um ataque a categoria dos professores. O discurso é: é preciso voltar, a escola está devidamente preparada e seguindo as normas, quem não comparecer terá o seu salário descontado. Na verdade, o retorno é obrigatório, a categoria não foi ouvida, as escolas não estão preparadas, não existem equipamentos de informática para as aulas e para auxiliar os professores, muito provavelmente seremos contaminados e pode ocorrer mortes, professores, alunos, familiares e demais membros da comunidade escolar, estão imersos em incertezas e podemos entrar na estatística dos mais de 500 mil mortos.

Eu tive a possibilidade de ficar em isolamento social, em trabalhar em formato remoto e não adquiri o vírus, estou extremamente temerária com a possibilidade de contágio.

A sensação é de indignação, de falta de respeito, de falta de planejamento, as escolas não estão preparadas, os alunos não estão vacinados e os professores só estão com a primeira dose da vacina. Colocar uma pia de plástico do tamanho de uma peneira no meio do pátio da escola, um tubo de álcool gel e um potinho de sabão, não é o bastante para frear esse vírus, se alguém tiver alguma dúvida, passe em uma escola e veja os procedimentos adotados, chega a ser vergonhoso! Mas não podemos ficar apenas nas falas, as nossas ações e a nossa participação política são de extrema importância para denunciar e para enfrentar esse desmonte da escola pública, é preciso exigir melhores condições de trabalho e, sobretudo, gritar um #forabolsonaro!




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