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Análise | A crise no Sri Lanka mostra as consequências da pandemia e da guerra na Ucrânia

Nas altas esferas do poder teme-se que as consequências econômicas da guerra na Ucrânia produzam levantamentos populares. Como tal, a crise no Sri Lanka é uma combinação de vários fatores e poderia se repetir em vários países. Seria uma oportunidade para a classe operária internacional?

quinta-feira 26 de maio | Edição do dia

Faz semanas que a situação econômica e social se tornou muito tensa no Sri Lanka, mas nos últimos dias deu um novo giro com ações radicais por parte da população, confrontos que causaram vários mortos e feridos e uma greve geral massiva. A população exige a saída do presidente, Gotabhaya Rajapaksa. Sob a pressão da mobilização operária e popular, o primeiro-ministro Mahinda Rajapaksa (irmão do presidente), assim como vários ministros, tiveram que renunciar. Na tentativa de acalmar a ira popular, o presidente nomeou um novo primeiro-ministro da oposição, Ranil Wickremesinghe, que já ocupou este cargo cinco vezes desde 1993!

Porém nada pode garantir que essa manobra funcione. A crise econômica é muito grave no país e afeta profundamente os trabalhadores e setores populares. A inflação está explodindo e as matérias primas estão esgotadas. Essa grave situação não surgiu do nada. É resultado de uma combinação de fatores externos e internos.

A pandemia do covid-19 golpeou duramente o país, limitando gravemente as exportações, o turismo (que representa 5% do PIB do Sri Lanka) e as remessas. Isso provocou a explosão da dívida do país e o colapso das reservas cambiais. Uma série de decisões internas para lidar com a situação agravaram a crise: para evitar o uso de moedas estrangeiras o governo proibiu a compra de fertilizantes na crença de que fomentaria o desenvolvimento da agricultura ecológica. O resultado foi uma queda da produção agrícola que agravou consideravelmente a atual crise alimentar. Mas o verdadeiro golpe de misericórdia foi a guerra da Ucrânia, que fez disparar o preço dos combustíveis e de produtos como o trigo, afetando diretamente a população. Como resultado, no dia 12 de abril deste ano o governo teve que declarar-se inadimplente com sua dívida.

Ainda que alguns analistas e líderes de instituições imperialistas como o FMI creem que o calote da dívida do Sri Lanka era necessário, a situação não parece tão fácil de resolver. De fato, o Sri Lanka esteve sob pressão nos últimos anos porque não podia pedir emprestado nos mercados financeiros internacionais a preços acessíveis, o que empurrou o governo a pegar empréstimos a credores privados e a fazer acordos bilaterais com países como Índia e especialmente China. Detém uma parte significativa da dívida do Sri Lanka, portanto, qualquer reestruturação da dívida deve se negociar com esses atores muito diversos.

A equação se torna muito delicada em um contexto de rivalidade e fricções geopolíticas a nível internacional. Como disse Foreign Affairs: “As rivalidades regionais e globais também complicam a forma que o Sri Lanka pode lidar com sua dívida. Os títulos do Sri Lanka estão principalmente nas mãos de credores privados nos EUA. A china quererá se assegurar de que qualquer alívio da dívida que [o FMI] ofereça ao Sri Lanka não seja utilizado principalmente para pagar estes detentores de títulos. Essas preocupações invariavelmente farão que um futuro processo de reestruturação da dívida seja mais difícil".

A situação é ainda mais delicada. As condições da “ajuda” proposta pelo FMI e pelos organismos financeiros internacionais muito provavelmente resultarão na acentuação da exasperação popular: aumento de preços, privatização de empresas estatais, congelamento de salários de funcionários, abolição de ajuda, entre outros.

Por isso muitos analistas estão preocupados pela situação social e pelo aprofundamento da luta de classes no país. O Sri Lanka vive dias que lembram um profundo levantamento popular, dirigido contra toda a casta política do regime e contra as classes dominantes ultra ricas e corruptas. The Economist descreve a situação com alarme: “os habitantes do Sri Lanka estão furiosos. No dia 9 de Maio os manifestantes queimaram dezenas de casas, em sua maioria pertencentes a políticos, o que provocou a renúncia de Mahinda Rajapaksa, o outrora amado primeiro-ministro. As forças de segurança evacuaram ele e sua família à uma base naval enquanto uma multidão tentava assaltar sua residência oficial. Milícias populares instalaram postos de controle fora dos aeroportos do país para evitar que ele e outros funcionários fugissem. O estado de emergência está em vigor. Ordenou-se o exército a disparar nos desordeiros e saqueadores quando os vir".

O principal medo dos líderes internacionais, incluindo o FMI, é que esses levantamentos populares se repitam em outros países, começando pelos estados mais pobres, mas sem descartar a possibilidade de que essas revoltas também aconteçam em países imperialistas. Entretanto, o sudeste asiático é uma das regiões de maior preocupação. Se trata de países muito sensíveis às variações dos preços dos alimentos, que atualmente se encontram sob uma forte pressão inflacionária. Pode-se ler no site do canal norte-americano CNBC: “Em 2021, as famílias filipinas gastaram quase 40% de seu gasto total em alimentos e bebidas não alcoólicas, segundo a Autoridade de Estatística das Filipinas. Em comparação, às famílias estadunidenses gastaram 8,6% de se sua renda disponível em alimentos, segundo o Serviço de Investigação Econômica".

Se a situação econômica a nível internacional foi fortemente impactada pela pandemia iniciada em 2020 e já se apresentavam tendências inflacionárias, é inegável que a agressão russa à Ucrânia está acentuando essas tendências econômicas e preparando o terreno para possíveis levantamentos populares. Assim escreve a analista Frida Ghetts sobre os últimos acontecimentos a nível internacional: “Do Peru ao Sri Lanka, o ataque da Rússia à Ucrânia está enviando uma onda de choque econômico que terá importantes repercussões políticas, especialmente porque ocorre depois de dois anos de uma pandemia mundial economicamente prejudicial. O presidente russo, Vladimir Putin, pode ter apontado para a Ucrânia, mas está criando instabilidade em todo o planeta. O dano já é visível em alguns casos, mas os impactos mais graves e duradouros desta guerra selvagem ainda estão diante de nós. Cada região e cada país encontrará novos problemas em seu próprio contexto, mas os contornos do problema já estão surgindo. O principal vetor da instabilidade é a inflação, cuja contribuição às convulsões sociais e políticas estão bem estabelecidas. Sabe-se que o aumento do preço do trigo e, portanto, do pão ajudou a dar impulso aos levantamentos da Primavera Árabe há uma década, o que desencadeou múltiplas guerras e revoluções no Oriente Média e no norte da África. A situação atual é ainda mais preocupante”.

Estamos longe de pensar que mecânica e automaticamente as crises econômicas geram levantamentos ou inclusive revoluções. Não podemos saber de antemão quais podem ser as reações operárias e populares diante de uma situação desesperada. Às vezes o assombro e a paralisia prevalecem sobre a ira. Inclusive no caso de revolta, levantamento ou mesmo revolução existe a possibilidade de que a energia dos trabalhadores e da juventude seja canalizado ou desviado por forças políticas conciliadoras ou francamente reacionárias. Por isso enfatizamos a importância estratégica, para a classe operária e setores populares, da construção de organizações políticas revolucionárias completamente independentes da classe capitalista nacional e dos imperialistas.

O ponto de inflexão da situação mundial após a pandemia e, em particular, a guerra da Ucrânia é atualizar hoje a definição que fez Lenin no início do séc. XX como a de “crises, guerras e revoluções”. Para evitar que as forças reacionárias saiam vitoriosas, a classe operária e as classes populares devem começar a se organizar e pensar em um projeto de sociedade que supere os horizontes do capitalismo e derrube esse sistema pela raiz.

Leia também: A guerra na Ucrânia e as polêmicas na esquerda trotskista




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