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Análise | A crise de hegemonia do PSB em Pernambuco

Este artigo é uma análise sobre a crise de hegemonia do PSB em Pernambuco e algumas hispóteses sobre sua recomposição no marco do curto prazo de tempo do calendário eleitoral.

sábado 30 de julho | 16:46

Imagem: Felipe Ribeiro

Está se desenvolvendo uma crise de hegemonia do PSB em Pernambuco. Ela se expressa em três aspectos: a) a dificuldade do PSB emplacar seu candidato Danilo Cabral nas eleições para governador; o alto índice de rejeição de Paulo Câmara, 63%/Pesquisa Conectar (em 2017 essa rejeição era de 74%/Instituto de Pesquisa Plural); b) a passagem para o lado da oposição de partidos como o Solidariedade e as famílias Ferreira em Jaboatão, Lyra em Caruaru e Coelho em Petrolina que estão na briga direta pelo executivo estadual e já foram ou da base aliada Frente Popular ou do PSB, com destaque para Marília Arraes; c) os “perdedores absolutos” em Pernambuco, isto é, os setores precários, desempregados, em sua grande maioria uma juventude negra que sentem mais profundamente os fatores sociais e econômicos da crise no Brasil, aprofundados pelas fortes chuvas são parte importante do rechaço ao atual governador do PSB. É nesse setor que Marília Arraes possui maior vantagem sobre os demais candidatos (1). Esse artigo tem o objetivo de analisar o desenvolvimento da crise de hegemonia do PSB em Pernambuco e apontar algumas hipóteses de recomposição da sigla nesse processo.

As debilidades do projeto político do PSB (2007-2013)

Não é possível compreender a crise de hegemonia do PSB sem entender o impacto da crise de 2008. Ela mostrou uma debilidade estrutural no capitalismo pernambucano baseado na primarização da economia quando viu se esgotar as trocas comerciais e a queda nas exportações com o processo de diminuição do crescimento da economia chinesa. Por outro lado, o governo federal, principal fiador e investidor de obras na região cessou suas benesses no momento em que a oligarquia Arraes/Campos tentou alçar vôos mais altos, se postulando ao governo federal em 2014, indo para oposição do governo Dilma, apostando tudo na candidatura de Eduardo Campos para a presidência e tornando-se um dos partidos que apoiou o golpe de 2016. No entanto, com a evolução política de certa recomposição do PT e particularmente da figura de Lula, o PSB teve que retroceder às alianças anteriores, mas já com os ônus econômicos e políticos de ter sido um partido apoiador do golpe. Esses fatores combinados pegaram em cheio o PSB que até o momento não conseguiu emplacar nenhum outro candidato com tanta popularidade quanto Eduardo Campos e viu se esgotar, pelo menos por hora, a possibilidade de emplacar um projeto nacional de tal magnitude.

A crise de hegemonia do PSB em Pernambuco se abriu em 2014, combinando a crise internacional de 2008 (que teve seus efeitos mais evidentes no país na recessão de 2014), o fim do período lulista do boom das commodities, com o fim dos investimentos federais no estado de Pernambuco, bem como a diminuição de financiamento de créditos de bancos como o Banco Nordeste e o BNDES. Como se pode ver nas tabelas abaixo há um decréscimo nas operações de empréstimo pós-2014, mas antes deste período há um aumento gradual e bem sensível.

O governo Eduardo Campos (2007-2014) foi o que mais recebeu investimentos federais nos governos Lula e Dilma. Entre 2007 e 2012, Pernambuco recebeu R$ 7,3 bilhões em investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), por meio do Orçamento Geral da União. Segundo dados do Ministério do Planejamento, a Petrobrás investiu R$ 24,8 bilhões entre 2011 e 2012. Nesse período (2008 e 2012), Pernambuco cresceu mais do que a média nacional:

Entre 2007 e 2012 a indústria cresceu 6,1%, serviços 5,4% e 3,4% da agropecuária (2). Ao mesmo tempo, pagou a dívida pública que nos primeiros anos do governo Paulo Câmara comprometia 72,2% da Receita Corrente Líquida do estado e 51% dela era em dólar (3).

O padrão de acumulação da burguesia em Pernambuco durante os anos do governo Eduardo Campos se baseou na primarização da economia o que fortaleceu as oligarquias no interior; na expansão do 3º setor tanto da região metropolitana quanto no agreste; e concessão de isenções e investimentos para o setor industrial tanto privado quanto estrangeiro. A medida que ia fazendo isso, Eduardo Campos colocou de pé também uma grande máquina de obras públicas que, de forma débil e sem resolver os problemas estruturais da cidade (enchentes, deslizamentos, transporte público precário), foi mudando a cara da cidade que cada vez mais ganhava projeção nacional também com o turismo, enchendo o bolso das empreiteiras da especulação imobiliária.

Garantindo os interesses do agronegócio, dos empresários do ramo automobilístico, das construtoras e do capital financeiro, pagando a dívida pública que havia sido contraída na época da ditadura militar, Eduardo Campos também mantinha boas relações com setores importantes da burguesia industrial e financeira. Cansava de se reunir com presidentes e CEOs do Grupo Gerdau, Grupo Odebrecht, Fiat do Brasil e bancos Bradesco, Itaú, JP Morgan e BTG Pactual. Numa entrevista cedida em 2014 a Forbes Brasil, quando questionado sobre o “socialista” no nome do partido ele respondeu categoricamente que o que importava de fato era ter “regras seguras para passar confiança aos que vão empreender. O mais importante, num país capitalista como o Brasil, é não ter preconceito nem com o empresário, nem com o lucro. Depois, precisamos promover regras bem feitas nos setores estratégicos” (4). Ou seja, é com esse espírito que pela primeira vez o PSB tentava se alçar como um partido nacional se colocando como uma alternativa viável aos capitalistas nacionais e internacionais, apontando inclusive a necessidade de passar mais ataques do que o PT já vinha fazendo.

Mas o fato é que quando o PSB rompeu com o PT em 2013 para construir um caminho independente como a candidatura própria ao executivo nacional em 2014, os empréstimos de bancos nacionais e o dinheiro repassado desde da União também cessaram. Nesse momento passaram a se combinar dois elementos bem determinantes da crise do PSB. O primeiro deles é que pelo fato das obras feitas no governo Eduardo Campos não tocar no essencial, como a construção de casas populares e saneamento básico, a população, sobretudo da região metropolitana, foi se dando conta que os investimentos em obras de infraestrutura não se transformaram em benefícios. Pelo contrário, se deram conta que toda propaganda burguesa do crescimento de Pernambuco não se transformou numa melhora das condições de vida que de lá pra cá só pioraram. Os trabalhadores foram vendo com cada vez mais desconfiança o projeto político do PSB, porque aquele projeto propagandeado por Campos do desenvolvimento da cidade foi se transformando no seu contrário. São inúmeras as obras inacabadas da região metropolitana, além das denúncias de corrupção da Odebrecht e o governo Campos que pode ter recebido até 100 milhões de reais para concluir a obra do complexo prisional de Pernambuco (5). Além disso, os efeitos econômicos da crise aumentaram ainda mais a precariedade do trabalho, a informalidade, o desemprego e a fome. Isso fez com que um setor precário da população pernambucana, para utilizar a definição de Matias Maiello, os “perdedores absolutos” (6) da globalização, passasse a sentir os efeitos da crise de 2008 de forma mais intensa.

As fissuras do PSB

Não há como entender a crise de hegemonia do PSB e as fissuras que sofreu sem localizá-la também no cenário da política nacional. O golpe institucional e a posterior ascensão do bolsonarismo atenuaram o surgimento das fissuras dentro da sigla. A nova correlação de forças imposta pelo golpe e posteriormente pelos ataques do regime, e o fortalecimento do bolsonarismo como uma corrente de extrema-direita de alcance nacional, de certa forma organizam a política regional.

A morte de Eduardo Campos em 2014 pôs fim ao plano nacional de fortalecimento do PSB enquanto uma corrente nacional do regime. Como havíamos dito, na oposição do governo Dilma e com poucos recursos para dar continuidade ao projeto econômico de Campos, Paulo Câmara viu sua popularidade paulatinamente decair. Ele havia sido eleito em 2014 com 68% dos votos, já no final de seu primeiro mandato acumulava uma rejeição de 37%. Ainda que tenha se localizado como golpista em 2016 o que acabou lhe favorecendo frente ao cenário nacional e ajudou a pleitear uma posição no regime que estava se transformando, isso não foi o suficiente para lhe dar qualquer fôlego na retomada daquele antigo projeto nacional. Isso porque naquela altura a recessão já havia golpeado em cheio o bastião do PSB. Vendo essa debilidade estratégica de impulsionar um novo projeto político no marco da recessão econômica, antigos aliados e partidários passaram para o outro lado, o da oposição.

O PSB em Pernambuco começou a sofrer seus primeiros golpes. A primeira a romper com o PSB foi Marília Arraes no início de 2016 que foi para o PT, meses depois Raquel Lyra deixou a sigla em direção ao PSDB, por último em 2019, Miguel Coelho que foi na época para o MDB. Em 2018, Anderson Ferreira abandonou a base de governo, a Frente Popular. Na realidade, essas mudanças eram sinais do desgaste do PSB e indicava que cada uma dessas famílias dissidentes levaria a frente seu próprio projeto político. A hegemonia do PSB abriu suas primeiras fissuras e algumas famílias que estavam dentro daquele projeto encampado desde Eduardo Campos viram a possibilidade de aproveitar a debilidade do PSB em impor um projeto político que pudesse aglutinar novas forças surgidas da correlação de forças imposta pelo golpe institucional. O próprio bolsonarismo e seus representantes regionais, o agronegócio, especialmente a produção de frutas no Sertão pernambucano e o pólo têxtil do Agreste onde empresários se apoiam no histórico ataque às leis trabalhistas para precarizar o trabalho e explorar ainda mais a mão de obra naquela região, compõem a base social da qual pôde surgir a oposição do PSB.

Uma delas é o clã dos Ferreira, a família com maior representação evangélica em Pernambuco, ele é composto além de Anderson, pelo deputado estadual André Ferreira (PSC), o vereador do Recife Fred Ferreira (PSC), casado com a irmão de André e de Anderson e o patriarca da família, o ex-deputado Manoel Ferreira. Eles dirigem a prefeitura de Jaboatão dos Guararapes onde Anderson se afastou para concorrer ao governo. Ainda que o bolsonarismo não seja um fator determinante na política regional, a família Ferreira e a Família Tércio, ambas da Assembleia de Deus Nova de Paz, disputam essa base social bolsonarista no estado. O que chama a atenção é que Anderson Ferreira lidera as intenções de voto entre os mais ricos (os que ganham acima de 10 salários mínimos) (7) que evidencia uma elite bem reacionária, principalmente na região metropolitana de Recife e uma extrema direita que não consegue capitalizar os setores mais precários do estado.

Raquel Lyra vem de uma tradicional família pernambucana onde seu pai, João Lyra, foi vice-líder do governo de Miguel Arraes na Alepe e chegou a governar o estado quando Eduardo Campos se lançou para a presidência. Em 2018, Caruaru sob o comando de Raquel Lyra teve o PIB de R$ 7,14 bilhões, sendo uma das três cidades que mais cresceu no interior do Nordeste. Isso está ligado ao fato de o polo têxtil Caruaru-Toritama-Santa Cruz do Capibaribe ter se tornado o 2º maior do Brasil e o 3º setor da cidade também ter crescido bastante. Esse crescimento está baseado na precarização do trabalho da produção têxtil e das milhares de pessoas desempregadas que lançam no trabalho informal, sobretudo no comércio de jeans. As condições impostas pela reforma trabalhista favoreceram o fortalecimento desse setor burguês que a família Lyra se apoia. Bolsonaro vendo esse fator de crescimento econômico na região tentou aproximar a família Lyra para seu projeto e não à toa investiu através do ministério do Turismo milhões de reais na cidade. A medida em que Bolsonaro foi se desgastando nacionalmente, mas sobretudo no Nordeste, as relações entre os Lyra e Bolsonaro não desenvolveram, mas mesmo assim Raquel Lyra não deixou de aproximar uma base bolsonarista como o apoio da cúpula evangélica da Assembleia de Deus AD Brás (8).

Talvez seja Miguel Coelho (União Brasil) o que tenha mais se beneficiado com o governo federal quando esteve à frente da prefeitura de Petrolina. Enquanto seu pai, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) era líder do governo no Senado, foi uma verdadeira farra em emendas que chegaram ao valor de R$ 350 milhões apenas para Codevasf, repassados por seu pai e seu irmão, o deputado Fernando Coelho Filho (DEM-PE) (9). Mas para além das emendas, Bolsonaro que sempre teve como aliado o agronegócio, via em Petrolina a possibilidade de construir novos aliados do mesmo ramo, justamente, em um estado estratégico e um dos bastiões do PT no Nordeste. Petrolina em 2021 foi considerada pela Consultoria Urban System a melhor cidade do agronegócio para se lucrar (10) e é o principal setor agroexportador de Pernambuco (11). Mas com o desgaste de Bolsonaro nacionalmente fizeram a família Coelho mudar sua estratégia e ir pouco a pouco se distanciando dele. Hoje com Luciano Bivar se postulando como pré-candidato a presidência, Miguel Coelho prefere se manter neutro na polarização Lula e Bolsonaro (12).

As fissuras no PSB só podem ser compreendidas se levarmos em consideração o desgaste político regional da sigla e reorganização de forças no regime do golpe institucional. Ainda que o PSB tenha se mantido a favor do golpe, isso não foi o suficiente para que as famílias Coelho, Lyra e Ferreira abandonassem o barco e se articulassem sob outras bases sociais.

As frações burguesas pernambucanas

A principal fissura do PSB segue sendo a disputa entre a oligarquia Arraes e Campos que se aprofundou na última eleição para a prefeitura de Recife em 2018 onde disputaram os primos João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT). Quando Marília rompeu em 2016 com PSB talvez tivesse em mente que o PSB ainda mais girado à direita e apoiando o golpe institucional pudesse criar dificuldade para dialogar com a forte base petista no estado. Por outro lado, essa ruptura nada tinha a ver com princípios, Marília Arraes é mais uma defensora da propriedade privada e representa os interesses de sua família que até pouco tempo esteve no poder em Pernambuco, não à toa frente a impossibilidade de se lançar candidata pelo PT por conta da aliança com o PSB, migrou pro Solidariedade de Paulinho da Força.

Marília Arraes (Solidariedade) segue sendo a pré-candidata que melhor vem capitalizando as debilidades do PSB e por isso lidera nas intenções de voto desde o começo do ano. Na realidade, a localização que ela tem hoje no cenário regional é proveniente de alguns fatores. Ela goza de bastante popularidade na região metropolitana de Recife, sobretudo na capital, onde pôde fazer essa disputa acirradíssima pelo executivo municipal com João Campos. Os demais candidatos não são tão conhecidos quanto ela. Outro elemento é um fator já mencionado antes, o PSB passa por uma crise para emplacar um candidato. Todo imbróglio envolvendo o nome do ex-prefeito Geraldo Júlio (PSB) e a dificuldade de Danilo Cabral (PSB) surgir como um concorrente à altura, abre caminho para Marília. Por último, e acredito ser o mais importante, ela é uma pré-candidata identificada com o Lula. Mais uma vez o cenário da política nacional é chave para compreender as divisões entre partidos e as oligarquias em Pernambuco.

A reabilitação de Lula por parte do regime dificulta a possibilidade das oligarquias opositoras aproveitarem mais profundamente as debilidades do PSB. Ainda que esteja nos planos da chapa Lula-Alckmin o apoio da 3ª via (Tebet, Bivar e Kassab) o que poderia dar um renovado fôlego aos outros concorrentes da direita como Lyra e Coelho, por hora Marília Arraes é a que mais sai fortalecida por se vincular a Lula. E isso tem gerado alguns problemas, sobretudo porque o acordo que o PSB fez com o PT para ter em suas fileiras o tucano espancador de professor, Geraldo Alckmin, sela o palanque de Lula apenas para Danilo Cabral. Nessa toada, alguns militantes do PT foram expulsos por preferirem Marília ao invés de Danilo e Carlos Siqueira, presidente já anunciou que faria o mesmo caso alguém de sua sigla não concorde com o apoio a Danilo.

Mas por trás de todas as rusgas internas, Lula segue uma linha próxima a um palanque duplo, “emprestando” seu capital político para Marília, pelo menos até agora. Lula fez sua primeira aparição em Pernambuco na semana passada, esteve em Garanhuns, Serra Talhada e Recife, o que marca o início da campanha de Danilo e do próprio PT no estado. As escolhas por essas cidades não foram à toa. Garanhuns é a cidade natal do ex-presidente e Serra Talhada é a segunda cidade mais importante do Sertão onde Marília conquistou uma base eleitoral sólida para ser a deputada mais votada de Pernambuco em 2018. Todas elas, incluindo Recife, também têm uma base na militância petista pró-Marília importante.

Recife concentra a parte mais robusta do eleitorado de Lula. É justamente na capital e na região metropolitana onde se concentram os “perdedores absolutos” de Pernambuco que se desprenderam da base política do PSB por serem o setor que mais sente a crise econômica e social da cidade e a identificam também com a gestão de Paulo Câmara (além de Bolsonaro, é claro). Pernambuco bate recorde de desemprego, com 17%, segundo maior índice registrado no Brasil em 2022, tem recorde de trabalho informal, chegando a 48,8% em 2020, possui um dos maiores índices de fome, com 48,3% das famílias com algum grau de insegurança alimentar, dados de 2018, e um dos maiores déficits habitacionais e de saneamento básico do país, segundo o qual apenas em Recife há um déficit de 71.160 moradias e apenas 30,8% das pessoas têm serviço de esgoto e 81,7% de água, segundo dados deste ano. Foi o estado onde a pobreza mais aumentou entre 2019 e 2021 e ocupa o quarto lugar no ranking nacional com 50,3% das pessoas vivendo com apenas 497 reais por mês (13). A disputa entre Marília e Danilo se dará por esse setor, não é a toa que ambos fazem demagogia com “gerar empregos” e voltar aos “tempos de Eduardo Campos” como faz o pré-candidato do PSB e como faz a pré-candidata do Solidariedade que fala em “erradicar a miséria” no estado. Lula tem 53,5% (14) das intenções de voto no estado, quanto mais forem identificados com ele, mais próximos da vitória estarão.

As tentativas de recomposição do PSB

Mas o fato é que mesmo com essa espécie de palanque duplo, Marília estabilizou nas intenções de voto tanto na Ipespe/Folha quanto na Paraná Pesquisas em torno de 30%. Além disso, certamente o palanque duplo está com dias contados. Lula já enfatizou que seu candidato é Danilo Cabral (15), mas também porque a burguesia pernambucana já escolheu seu candidato. Basta ver que Danilo esteve com o presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe), Ricardo Essinger, e com a diretoria e o presidente da Federação de Comércio de Pernambuco (Fecomércio), Bernardo Peixoto, para selar acordos de sua campanha. A Fiepe representa os interesses do capital imperialista na região, sobretudo em Goiana que abriga uma das mais modernas plantas automotivas, com uma das maiores concentrações operárias do Brasil, além do Complexo de Suape em Cabo de Santo Agostinho. O 3º setor ainda que acene para o PSB, tem interesses distintos e no último período não esteve tão próximo de Câmara por conta de sua política de restrições e lockdown durante a pandemia e seguem com uma linha de desgaste do PSB, principalmente com o Jornal do Comércio. Ainda que tenham recebido muito bem a redução do ICMS dos combustíveis aprovada na Alepe e sancionada por Paulo Câmara (16).

O alinhamento de dois setores burgueses importantes atrás do PSB numa campanha em que seu candidato não deu nenhum sinal de recuperação é chamativo. O PSB governa a 14 anos o estado de Pernambuco e se tem uma coisa que foi capaz de ser é uma verdadeira vitrine da precarização do trabalho. Pagando baixíssimos salários, com alta taxa de desemprego, precarização e fome, o PSB mostrou que pode ser um estabilizador do regime do golpe, mantendo intacta uma das principais obras do golpe institucional que foi a reforma trabalhista e elevando as taxas de lucros de capitalistas estrangeiros e nacionais, pagando salários mais baixos que a média nacional. Vale lembrar que João Campos aprovou a reforma da previdência municipal em meio a pandemia. Além disso, a polícia vem ganhando um peso bem forte no seu governo, não só por conta do Pacto Pela Vida, acentuando os traços racistas da oligarquia Campos. Além disso, a partir dos desdobramentos do 31 de Maio, repressão que cegou dois trabalhadores, Eriberto Medeiros (PSB), ex-comissário de polícia e presidente da Alepe, passou a desempenhar um papel chave no regime concedendo ainda mais benefícios a polícia militar, civil e científica.

Ricardo Essinger deixou bem claro o que o setor industrial quer:

“Estamos vivendo um tempo de incerteza, com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia e também pelos efeitos ainda da pandemia, mas é importante reforçar que estamos em processo de crescimento. Logo, é indispensável que o setor privado seja estimulado, porque ele gera emprego e renda, para impulsionar ainda mais desenvolvimento econômico” (17)

Não é à toa que Danilo enche a boca para dizer que irão voltar aos “tempos de Eduardo Campos”. Quando ele diz isso, ainda que acene ao setor da classe trabalhadora mais precarizada do estado, como quem diz “voltaremos a crescer e terá emprego”, época onde a taxa de desemprego era baixa (18), ele quer dar uma resposta bem clara aos setores burgueses e ao capital estrangeiro, dizendo “faremos de tudo para que suas demandas sejam atendidas”. A corrida para se vincular à chapa Lula-Alckmin também corresponde em alguma medida em dar uma resposta a esse setor. Quando se alinham a candidatura de Lula que já falou que não será da esquerda e não revogará nenhuma das reformas, nem a trabalhista, tanto Danilo quanto Marília dizem a esse setor que “Pernambuco será o lugar da precarização, onde vocês poderão lucrar muito com o suor e sangue do trabalhador pernambucano”.

Mesmo com apoio da chapa Lula-Alckmin e com setores importantes da burguesia pernambucana apoiando o PSB nessa corrida eleitoral, a pergunta que fazemos é: será que o PSB terá tempo hábil até o 1º turno das eleições para conseguir se recompor política e eleitoralmente e chegar a um eventual segundo turno com Marília Arraes?

A chave para entender esse processo é que caso a chapa Lula-Alckmin vença (o cenário mais provável) e a medida que o eleitorado pernambucano identifique Danilo Cabral como o candidato de Lula e caso ele saia vencedor, abre um novo cenário para o PSB no estado. O que o PSB almeja é a possibilidade receber novamente fartos investimentos do governo federal, só que agora com um eventual vice-presidente do seu partido, algo inteiramente novo. Há o cenário de que Marília siga liderando as intenções de voto nas pesquisas e de um eventual segundo turno com Raquel Lyra, implicaria em mudanças mais profundas no acordo de Lula com o PSB, inclusive de desvincular a imagem de Marília a de Lula. Entretanto, o desenvolvimento segue em aberto. Paulo Câmara já fez um empréstimo de 600 milhões de reais para seguir as obras do Plano Retomada (19), só no Sertão foram investidos 93 milhões em obras (20). Não se sabe ainda os efeitos do Auxílio Pernambuco que irá pagar até 2.5000 reais para desabrigados e desalojados por conta das fortes chuvas nos últimos meses na RMR, Mata Sul e Agreste.

O cenário de crise internacional impossibilita qualquer tipo de recuperação econômica a ponto de voltar ao nível de crescimento do governo Eduardo Campos, o que tornaria débil uma recuperação mais robusta da crise de hegemonia em que se encontra. Ainda mais que está em aberto o caminho que tomará as oligarquias opositoras, se permanecerão na oposição ou se realinharão à Frente Popular. O que está em jogo aí é se o polo têxtil do Sertão e o agronegócio do Agreste continuem crescendo, as oposições ao PSB tendem a seguir. Deve-se levar em consideração também os efeitos da guerra da Ucrânia, sobretudo no setor agroexportador pernambucano. Além disso, liga-se o alerta por conta da segunda queda consecutiva do PIB norte-americano, um dos principais parceiros comerciais de Pernambuco (21).

O bolsonarismo, por outro lado, por mais minoritário que seja, já é um fator político importante da região, especialmente na base evangélica. Com um cenário pouco provável de recuperação econômica, a família Tércio e a família Ferreira entram na disputa para capitalizar pela direita os próximos desgastes do PSB. No dia 6 de agosto está marcada mais uma marcha para Jesus em Recife, com a presença confirmada de Bolsonaro.

Mas o fato é que o PSB iniciou a pouco tempo sua campanha no estado e, certamente, colocará em ação sua máquina eleitoral para que Danilo Cabral chegue em um eventual 2º turno com Marília Arraes. Sem sombra de dúvida o PSB estará disposto a tudo numa eleição tão crucial para a sigla. Do outro lado, Lula vê com bons olhos a vitória do PSB não porque é o partido do seu vice, Alckmin, mas pelo fato de que a oligarquia Campos se propõe a ser um importante ponto de apoio para estabilizar o regime do golpe institucional, justamente em um dos bastiões do petismo no Nordeste. Isso com a ajuda das burocracias sindicais que seguem um caminho de conciliação e adaptação à oligarquia Campos e a burguesia pernambucana.

Notas

1. https://jc.ne10.uol.com.br/colunas/jamildo/2022/07/15040712-segundo-pesquisa-para-governo-de-pernambuco-anderson-ferreira-lidera-entre-os-mais-ricos.html
2. Ver: https://exame.com/economia/como-fica-a-economia-pernambucana-depois-de-7-anos-de-campos/ e https://www.estadao.com.br/noticias/geral,especial-sucesso-economico-de-pernambuco-tambem-deve-credito-a-governo-federal,1110544
3. Sobre a dívida pública de Pernambuco:https://www.esquerdadiario.com.br/Entenda-por-que-acontecem-tantos-deslizamentos-e-enchentes-em-Pernambuco
4. https://forbes.com.br/forbeslife/2014/10/leia-entrevista-de-eduardo-campos-forbes-brasil-de-junho/
5. https://veja.abril.com.br/politica/governo-de-pernambuco-ganhou-cheque-especial-da-odebrecht-sugere-gravacao/
6. Segundo ele: “Setores empobrecidos, precarizados, quando não desempregados, especialmente da classe trabalhadora, muitos deles jovens, que ficaram virtualmente por fora do “pacto social” neoliberal, que em muitos casos foram expulsos para as periferias das grandes cidades, sendo em muitos casos estigmatizados pela burguesia e pelos grandes meios de comunicação.” Ver também: https://www.esquerdadiario.com.br/Revolta-e-revolucao-no-seculo-XXI
7. https://jc.ne10.uol.com.br/colunas/jamildo/2022/07/15040712-segundo-pesquisa-para-governo-de-pernambuco-anderson-ferreira-lidera-entre-os-mais-ricos.html
8. https://jc.ne10.uol.com.br/colunas/jamildo/2022/07/15041512-em-ato-no-recife-raquel-lyra-recebe-apoio-liderancas-evangelicas-da-regiao-metropolitana.html
9.https://cultura.uol.com.br/noticias/45104_ex-lider-de-bolsonaro-no-senado-e-responsavel-por-verba-federal-de-r-330-milhoes-para-projeto-politico-do-filho.html
10. https://exame.com/brasil/com-frutas-para-o-mundo-petrolina-e-a-melhor-cidade-para-o-agronegocio/
11. https://www.fazcomex.com.br/blog/exportacoes-de-pernambuco/
12. https://jc.ne10.uol.com.br/colunas/jamildo/2022/06/15022021-miguel-coelho-vai-adotar-estrategia-positiva-em-relacao-a-lula-e-bolsonaro-diz-aliado.html
13. https://jc.ne10.uol.com.br/economia/2022/07/15045648-em-pernambuco-a-fome-mora-no-quintal-dos-poderes.html
14. https://jc.ne10.uol.com.br/colunas/jamildo/2022/07/15045512-pesquisa-para-presidente-lula-vence-bolsonaro-no-nordeste-veja-numeros-de-cada-estado.html
15. https://jc.ne10.uol.com.br/politica/2022/07/15047788-governo-bolsonaro-promove-a-barbarie-diz-lula-sobre-escalada-da-violencia-politica.html
16. https://jc.ne10.uol.com.br/economia/2022/07/15045572-gasolina-mais-barata-paulo-camara-sanciona-reducao-do-icms-para-combustiveis-em-pernambuco.html
17. http://fiepe.org.br/em-noite-de-prestigio-a-fiepe-entregou-as-medalhas-do-merito-industrial-a-personalidades-e-politicos-do-estado/
18. https://jc.ne10.uol.com.br/blogs/jamildo/2012/01/31/governo-eduardo-comemora-menor-taxa-de-desemprego-desde-1997/index.html
19. https://jc.ne10.uol.com.br/colunas/jamildo/2022/07/15037123-paulo-camara-assina-dois-emprestimos-de-rs-600-milhoes.html
20. https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2022/06/plano-retomada-aporta-no-sertao-com-cerca-de-r-93-milhoes-em-investim.html
21. https://www.fazcomex.com.br/blog/exportacoes-de-pernambuco/




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