Opinião

POLÊMICA

A “complexa” vacilação da Resistência sobre a greve dos policiais no Ceará

Thiago Flamé

São Paulo

quarta-feira 26 de fevereiro| Edição do dia

A greve dos policiais do Ceará se colocou no cenário nacional como um dos pontos altos das tendências reacionárias da situação. O motim de bandos encapuzados, armados, que haviam dado ordens ao comércio para fechar no Ceará em uma típica ação miliciana, culminou com a cena de Cid Gomes avançando com uma retroescavadeira, que denota as práticas coronelistas da família Gomes, sendo baleado em seguida.

Qualquer pessoa em sã consciência que tenha assistido os vídeos que circularam amplamente na internet, percebe que esse motim de policiais muito provavelmente envolvidos com milicianos é algo absurdamente reacionário. Buscam instaurar o terror contra a população, impondo toque de recolher, enquanto demandam aumento salarial, melhores condições para reprimir e assassinar a população trabalhadora e pobre, e mais privilégios.

Frente ao motim policial, que sugere a nacionalização das milícias e de seus métodos, é necessário que a esquerda tenha um claro posicionamento de rechaço. Sem “mas”, nem “porem”. Primeiramente porque a crença de que a polícia é parte da classe trabalhadora, simplesmente por ser assalariada em ter como patronal o Estado é falsa. E isso se demonstra cotidianamente com a ação da polícia como guardião da propriedade privada em nome do Estado, que em momentos de crise como o que passa-se hoje em nosso país faz com que as taxas de violência policial contra os trabalhadores elevem-se às alturas. Crianças assassinadas dentro de casa, enquanto ocorrem operações policiais, trabalhadores alvejados com centenas de tiros, e o aumento de absurdas alegações de autos de resistência compõe o panorama da ação policial. Defender “melhores condições” para o exercício desta função, nada mais é que a defesa da letalidade mais eficaz contra os trabalhadores e pobres.

Já debatemos aqui a absurda posição do PSTU, que novamente se coloca como a quinta roda da direita apoiando ao lado de todo o bolsonarismo o reacionário motim do Ceará. Esta é sem dúvida a posição mais aberrante da esquerda. No entanto, não é a única a considerar que é “justo e necessário lutar” por melhorias salariais e condições de trabalho dos policiais. O Resistência, organização originada de uma ruptura do PSTU que atualmente está no PSOL, publicou uma nota que se não surpreende, espanta pelo malabarismo que tenta fazer para defender greves policiais legítimas separando-as da que hoje ocorre no Nordeste. Na referida nota o Resistência defende que “a atual greve dos policiais apresenta características muito diferentes de greves anteriores, como a de 2012, no período do governo de Cid Gomes. Na época ocorreu uma greve apoiada pelo movimento sindical e que se mesclou com assembleias de várias outras categorias de trabalhadores. Paralisações anteriores da PM e de bombeiros foram corretamente apoiadas porque além da reivindicação de salários, adotavam os métodos tradicionais de greve, como reuniões e assembleias. A atual é uma greve que ainda que esteja assentada na justa reivindicação de aumento salarial, tem métodos de ataques a instituições públicas, homens encapuzados controlando algumas regiões da cidade, obrigando os comerciantes a baixarem suas portas, e o uso de armas de fogo contra civis – como foi o caso do Senador Cid Gomes, com o qual nos solidarizamos – e uma direção associada à bancada da bala no parlamento”.

Vamos por partes. A greve de policiais de 2012 acima reivindicada teve como um dos principais porta-vozes o mesmíssimo Capitão Wagner, deputado do PROS do Ceará, que almeja disputar a candidatura à prefeitura em 2020, e que agora reivindicou a ação dos policiais no episódio da retroescavadeira como “legítima defesa”. Capitão Wagner foi porta-voz da polícia em 2012 tanto quanto agora em 2020, informação inclusive citada na nota própria da Resistência. Mas nem isso faz com que tirem qualquer conclusão coerente. Trata-se de um apoiador de Bolsonaro, e que não vê absolutamente qualquer problema na ação de policiais encapuzados que semeiam o terror contra a população. As distinções da greve da polícia de 2012 e da atual não se dão porque aquela tinha métodos legítimos, e agora não, mas porque a polarização e politização da polícia elevou-se com a eleição de Bolsonaro, dando vazão aberta às tendências fascistoides que sempre foram a marca desta instituição.

Também cabe ressaltar que a reprodução do senso comum tipicamente economicista e sindicalista de que a polícia é parte da classe trabalhadora, e não uma instituição violenta que atua como pilar do Estado capitalista é de grande indigência de visão. Aqui reside a crença de que trata-se de um setor da classe trabalhadora a ser disputado. De que a violência contra trabalhadores e a população por parte da polícia seria um problema de despreparo, ou de baixos salários. Mas este senso comum cai por terra quando se toma, por exemplo, a polícia norte-americana. No país mais rico do mundo, a polícia ganha o equivalente a R$124.118.40 ao ano, com um custo de vida 9% menor que a média brasileira. Mas isso não impediu que assassine negros tão corriqueiramente, ao ponto de desatar o movimento Black Lives Matter. Tanto é assim que Lênin critica duramente aqueles que não percebem que o objetivo estratégico a ser seguido é dado pelo exemplo da Comuna de Paris de 1871 de destruição da polícia, e não tentativas de amenizar o papel da polícia como se corresponde hoje a defender sua “desmilitarização”.

O Resistência que nasceu de uma ruptura do PSTU, como ala crítica à posição golpista daquele partido em 2016, não tem sido uma oposição consequente às posições mais aberrantes, seja de sua organização de origem, seja das adaptações frequentes do PSOL na voz de Marcelo Freixo à polícia. Tem se demonstrado prisioneiro de uma lógica política incapaz de ter qualquer consequência aos lampejos que vislumbra. Em um amálgama total, agora quer defender que o problema que os impede de não defender o atual motim fascistoide no Ceará é que este não se “organiza por assembleias”? Quando o Resistência não existia e ainda integrava o PSTU, este partido argumentava que a greve das polícias deveria ser apoiada por “quebrar a normalidade do Estado burguês”.Agora se vê como a única quebra da normalidade que pode vir pela ação de uma greve policial é pela direita.

Com isso mostra sua determinação em permanecer sempre na metade do caminho, ao sabor dos ventos, ao invés de extrair a conclusão de que a polícia não é parte da classe trabalhadora, e agora é o agente da expansão miliciana. Não deixa de ser irônico que os paladinos da “onda conservadora” tenham uma visão tão superficial deste debate. É chamativo que o Resistência seja tão razoável com um dos elementos mais fascistizantes da situação, praticamente lamentando por não poder apoiar a greve de milicianos da polícia do Ceará, enquanto defendem que estamos em meio ao “neofascismo”. A classe trabalhadora brasileira não necessita de vacilações como estas.




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