Educação

REABERTURA INSEGURA DAS ESCOLAS

A comemoração cínica e interessada de Rossieli da “essencialidade” da educação

Rossieli Soares, secretário da Educação de SP, em coluna da Folha de SP no último domingo, 28, comemorou o decreto de Doria do dia 26 de março que efetiva as escolas como serviço essencial no estado; e também reeditou uma velha disputa pela opinião popular, que ganhará mais contornos após o fim da pandemia da Covid-19. Trata-se desta: quem se importa com a educação no Brasil? Quem irá defendê-la? Com seu título impactante “Escola essencial para sempre” e exibindo o decreto já questionado por muitos como uma medida completamente irresponsável, ele quer convencer a todos de que os seus defensores são os que querem as escolas abertas mesmo nos momentos mais críticos da pandemia – como é hoje, quando a média móvel de mortes em SP é de 668,71 em ascensão, sendo que na sexta-feira 26, dia da assinatura do decreto, o número total diário chegou ao recorde de 1193 mortes só no estado de São Paulo. Mas nós professores sabemos categoricamente o quanto isso é uma falácia completa. E provamos todos os dias com o nosso trabalho o porquê.

quinta-feira 1º de abril| Edição do dia

Foto: Rubens Cavallari

A princípio, qualquer um de nós poderíamos concordar com a sua frase de efeito que lhe serviu de subtítulo: “Infelizmente, a pandemia esfregou na cara do brasileiro que a nossa sociedade não se importa com a educação”. Mas a nossa leitura dessa afirmação é totalmente diferente da que o secretário – ou o “secretino”, como alguns professores carinhosamente o chamam – propõe. No lugar de “brasileiro” lemos “classe trabalhadora e povo pobre” e no lugar de “sociedade” lemos “capitalistas e seus governos”. Quem já estudou, trabalhou ou trabalha numa escola pública sabe que a educação, nestas escolas, nunca recebeu a importância que nós damos por parte dos governos capitalistas, e “a pandemia só esfregou” ainda mais na nossa cara isso. Por isso é necessário desmascarar a falsificação da realidade que o excelentíssimo promove neste texto e em todo o seu discurso público.

Pra começar, Rossieli usa a palavra “essencial” do decreto – critério usado na pandemia para designar os serviços indispensáveis para a sobrevivência imediata da população – como nós a entendemos no seu sentido generalizado; e faz isso para dar a entender que defender agora as escolas abertas significa defender que a “sociedade” valorize a educação sempre. Como se ele e seu chefinho na cadeira de governador fossem os grandes paladinos da educação (diz que “fizemos história”). E como se a imensa maioria dos educadores, dos intelectuais e pesquisadores, de pais e mães trabalhadores e inclusive dos seus próprios secretários de saúde que são contra a abertura das escolas sem segurança sanitária fossem os grandes vilões que não se importam com a educação. E faz isso para esconder, obviamente, os seus reais motivos para querer garantir a abertura das escolas: resguardar os milhões dos empresários da educação que estão escoando por conta do fechamento das escolas.

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Mas se fosse verdade o que ele diz, por que os governos, tanto federais, como estaduais e municipais (incluindo o paulista, nas mãos do PSDB há mais de vinte anos), teriam sempre tratado a educação pública – que é voltada aos filhos da classe trabalhadora – como algo que pode ser largado às traças? Como um centro de (má) formação ultrabásica e de conteúdo rebaixado do trabalhador a ser superexplorado no futuro? Como um gasto (sempre maior do que gostariam) que pesa nas contas públicas? Ou ainda como, de imediato, um local para depositar criança enquanto os burgueses sugam a energia diária dos e das trabalhadoras, mães e pais pressionados a encararem a escola dessa forma? Ao contrário deles, para nós, educadores, a educação sempre foi, continua e continuará sendo, no sentido amplo, essencial. Por isso, lutamos diariamente contra todas as condições adversas impostas pelos governos, às vezes até de forma voluntarista, para fazer nosso trabalho da melhor forma que conseguimos. E todo dia é um leão pra derrubar.

No próprio texto do secretário estão elencados os elementos que, vistos por dentro das escolas públicas, comprovam o que digo. Ele diz que “escolas abertas contribuem para a segurança alimentar dos mais pobres, para a socialização, a saúde mental, a integridade física e proteção social dos estudantes” (só estes itens já dão pano pra manga). Nós professores e trabalhadores da educação sempre alardeamos sobre a potencialidade dessas contribuições pela escola, e seria tudo real caso tivéssemos todos os recursos assegurados para isso, desde sempre, pelos governos.

Sobre alimentação: Rossieli já se esqueceu de que foi o próprio João Doria Jr. que, quando prefeito de São Paulo, quis dar ração pros alunos? Ou de que ainda hoje a maioria das escolas só recebem bolacha e suco pra merenda? Isso é garantir segurança alimentar para eles. Em relação à socialização, o que inclui o aprendizado de se viver em sociedade e lidar com conflitos e dificuldades relacionais: os profissionais da educação não recebemos nenhum apoio para trabalhar os conflitos internos entre estudantes ou entre estes e docentes e funcionários, o que dá lugar a respostas, via de regra, de lógica punitiva. Quando muito, algumas escolas contam com um professor mediador, que conseguem ajudar em um caso ou outro; mas são muitos e o tempo todo. Geralmente se torna mais fácil de resolver quando o mediador consegue envolver a família do estudante na solução do problema, o que é raro visto o pouco tempo de dedicação que a maioria dos pais consegue ter com a vida escolar do filho por conta do trabalho. O mesmo quadro se aplica em relação à integridade física e proteção social: os casos de conflitos externos dos estudantes, com familiares ou pessoas próximas, na maioria das vezes passam batido por conta da completa dificuldade dos educadores darem a atenção a cada um dos estudantes como todos merecem: são inúmeros! A superlotação de salas, política consciente dos governos, impede isso.

A questão da saúde mental merece todo um capítulo a parte, visto que é a grande afetada por todas essas más condições de trabalho que vou citando. Tanto estudantes quanto profissionais são vítimas de adoecimento mental por conta desta mal trabalhada sociabilidade dentre das escolas, uma vez que não temos recursos humanos e/ou pedagógicos para atender à quantidade e à qualidade extremamente variada de problemas que levam a distúrbios ou doenças mentais. Em cada unidade escolar, vemos repercutir todas as contradições sociais que, no capitalismo, são totalmente perturbadoras, sem que consigamos lidar com elas. Rossieli fala no texto em “riscos da depressão e de como a distância do aprendizado presencial pode afetar o psicológico de um jovem”, e concordamos que a escola é o principal lugar de desenvolvimento psicossocial da criança e do adolescente. Mas é necessário que tenhamos ferramentas e pessoas preparadas para a escola ser de fato este ambiente. Onde estavam ou onde estarão os psicólogos ou psicopedagogos, concursados como educadores, para dar este suporte em cada escola? Os professores não têm preparo e formação para dar o suporte profissional necessário, embora a maioria, por iniciativa própria, tente sempre responder a essas necessidades. Por isso mesmo, somos a categoria de trabalhadores que mais sofre da hoje famosa síndrome de burnout, de depressão e de ansiedade crônica; e ao precisarmos de tratamento psicológico, pagamos do nosso próprio bolso se sobrar um pouco do salário, baixíssimo e defasado há anos. Já o estudante, na maioria das vezes, nem sabe o que é um psicólogo.

Na sequência, o ex-ministro da Educação de Temer - deste que assinou a nova BNCC que precariza ainda mais formação do aluno e o trabalho do educador, além de impor o teto de gastos com a educação por 20 anos - cinicamente diz que “Sem educação não há ciência, não há medicina, não há vida”. Ó grande, enorme demagogia hipócrita. Só agora ele descobriu isso? Parece, porque a qualidade do ensino pra gerar novos e mais e mais cientistas, médicos, profissionais de toda sorte que proporcionam a vida, está em falta. Pelo menos na escola pública, está e sempre esteve. É porque pra eles basta que se formem alguns poucos cientistas e médicos, vindos das ricas escolas particulares, não é mesmo? Filho de trabalhador serve para fazer trabalho que não é valorizado pela burguesia, né Rossieli? Para que dar muito conhecimento para a classe que vocês querem superexplorar? Fica mais difícil depois controlar. Por isso que escola aberta, controlada pela burguesia, não é sinônimo de ensino de qualidade para tudo isso se efetivar. Mas deveria, e os trabalhadores da educação, na contracorrente, sempre buscaram oferecer o seu melhor.

E então, o digníssimo vai desenhando a situação da escola na pandemia. Diz que “O Brasil tirou milhões de estudantes do convívio escolar ao mesmo tempo que as pessoas frequentavam bares, praias e academias”. E quem permitiu que os bares e academias continuassem funcionando, cara pálida? E de novo, aqui, se expressa pelas palavras do secretário a culpabilização fácil e interessada da população que “não respeita o isolamento social”. Ora, depois de cinco, seis dias da semana trabalhando, muitas vezes em locais sem segurança sanitária garantida, pegando ônibus, trem, metrô abarrotado por uma, duas, três horas seguidas, como convencer o trabalhador da necessidade de abrir mão do pequeno momento de lazer? Se os governos estivessem dando condições reais para as pessoas ficarem mais em casa – o que exigiria auxílio emergencial de valor condizente com o custo de vida, aumento da frota de transporte público com diminuição de circulação, suspensão das contas de água, energia, gás, etc. – talvez fosse mais palpável para o trabalhador o tal “isolamento social”, que não existe porque não são criadas as condições para tanto. E abrir escola vai resolver o problema da circulação do vírus porque o bar está lotado? Que tipo de lógica é esta? É aquela do governo que quer convencer, pela abstenção de sua própria responsabilidade, o pai e a mãe de que, se tem gente indo pro bar e pra praia, a criança dele tem prioridade de ir pra escola. Ignorando totalmente o risco que oferecem tanto o bar quanto a escola.

E é um risco enorme. Rossieli diz que as “escolas não são locais de alto risco de contágio, caso as medidas corretas sejam adotadas”. Vários estudos contradizem o secretário, já que as escolas são exatamente aqueles ambientes que devem ser evitados na pandemia: fechados e com aglomeração. Os seus próprios secretários de saúde, reunidos no Conselho Nacional de Secretários de Saúde, foram contrários à abertura das escolas. Por que? Por falta de condições estruturais na absoluta maioria das escolas para que “as medidas corretas sejam adotadas”. Sem água, sem funcionários de limpeza em número adequado, sem ventilação, sem, sem, sem. E ele continua: “temos protocolos, procedimentos clínicos, métodos de prevenção e, especialmente, temos vacinas”. Só não tem a execução disso tudo, na realidade. Papel assinado não protege ninguém da Covid, secretário. E a vacina é praticamente uma lenda ainda no Brasil. Dizem que vão vacinar os profissionais da educação, mas não dizem que serão menos de 40% de todos nós. E os alunos? Tudo bem eles pegarem o vírus e passar pros familiares? Pra nós, não está tudo bem. Sem vacinação massiva e sem condições estruturais nas escolas para garantir segurança sanitária, não está nada bem, pois vai custar vidas, como já está custando. 73492 vidas até agora em SP, pra ser mais exata.

Rossieli comemora que desde setembro de 2020 a rede estadual abriu a escola para atividades presenciais, “com foco no acolhimento dos estudantes, oferecendo suporte pedagógico e alimentação aos que mais necessitam”. Que tipo de ensino ou acolhimento é possível de se desenvolver com o aluno em encontros esporádicos? Qualquer acompanhamento pedagógico se esvai se não é sistemático. Por isso esta comemoração é mais uma falácia. Ele diz que estão “melhorando a infraestrutura, os recursos materiais e tecnológicos das escolas”, mas a imensa maioria das escolas não tem nem sala de informática. E de que adianta colocar meia dúzia desses materiais em algumas escolas se os alunos precisam justamente de condições para estudar a maior parte do tempo em casa (como o próprio “ensino híbrido” aplicado pelo governo preconiza), que o governo em nenhum momento garantiu? Só serve para fazer demagogia ao exibir números supostamente chamativos de computadores adquiridos para as escolas nas coletivas de imprensa do governo. E mais: os alunos “que mais necessitam” são quase todos. A lista de critérios do governo somente descreve os nossos alunos da rede pública: os que estão com defasagem de aprendizado, os que têm poucas condições tecnológicas em casa, os que são filhos de trabalhadores essenciais, os que estão em fase inicial de alfabetização...

“Estamos trabalhando arduamente na recuperação da aprendizagem de todos”: mais uma distorção. O dito plano de recuperação se resume a uma lista de habilidades a serem trabalhadas com os alunos (como, se o governo não garantiu recursos tecnológicos para eles entrarem em contato conosco?); este concebido totalmente por fora da realidade deles e sem nenhuma interferência dos professores e coordenadores das unidades escolares, os que realmente têm o conhecimento de seus alunos para traçar qualquer plano de recuperação.

Tudo isso mostra, como eu dizia no início, que o artigo de Rossieli, além de verter uma chuva de demagogia, se presta a anunciar uma disputa de narrativas para a população. Em nome do governo, ele tece todo este conto fabuloso e, ancorado nele, comemora o decreto da “essencialidade” da educação, taxando novamente ao final: “este documento garante as condições necessárias para termos sempre uma educação como atividade essencial”. O documento, nos termos do decreto, diz respeito clara e exclusivamente à pandemia. Mas essa afirmação serve para preparar aquelas disputas da opinião de eu que falava: caso escolas sejam fechadas no futuro, digamos por uma greve da educação, retomarão esse argumento.

Mais uma vez, mesmo quando a vida de milhares de pessoas foi e continua a ser extraída pela política consciente dos governos Doria, Covas, Bolsonaro e demais, os governantes capitalistas usam a ideia da defesa da educação para impor seus interesses econômicos e políticos – que nada tem a ver com os dos trabalhadores. E fazem isso constantemente e sempre contra os reais defensores da escola pública: os educadores.




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