Sociedade

OPINIÃO

A beleza indescritível do novo álbum visual de Luedji Luna

É cruel ter que escrever sobre o novo álbum visual de Luedji Luna, bom mesmo é estar debaixo d’água, pois se trata de uma beleza indescritível até para uma poeta, que trabalha incessantemente a palavra. Mas também seria cruel não escrever sobre esse novo disco, não convencer as pessoas dessa beleza, não olhar atentamente para essa obra

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

sábado 31 de outubro| Edição do dia

O mar de Salvador e suas ruas vão percorrer essa obra. O mar é a nossa primeira visão nessa obra junto com os versos cantados por Lande Onawale, e o tambor da musica de raiz africana: "o amor é coisa que mói, Muximba/ E depois o mesmo que faz curar”. E talvez esses dois versos traduzam o caminho que essa obra irá percorrer, o amor que nos fere, e que nos cura. E aqui se fala pra Muximba, palavra de origem africana - que estará presente inclusive nas obras de Jorge Amado, escritor baiano -, que significa ‘coração’, e de onde costumamos dizer que nasce o amor.

A letra de Tirania, os frames sempre com recortes do mar, de partes do corpo e rosto de Luedji vai nos trazer a pergunta: o silêncio é só mistério ou tirania? Não saber o que o outro sente é mistério ou tirania? Tirania ser o título da canção talvez seja a resposta. Aqui também falará sobre onde tudo começa; tudo começa no desejo, no beijo, no arrepio dos pelos.

Chororô parece ser uma sequência da música Um corpo no mundo, que tornou Luedji Luna conhecida. Na canção Um corpo no mundo Luedji falava do que ela trazia na mala, aqui vemos a mesma repetição, uma lista das coisas que ela tem, uma lista das coisas que ela não tem. E aqui vemos o corpo de Luedji se lançando nas festas de rua de Salvador, dançando, belíssimo, feliz (uma felicidade fingida ou não, mas uma felicidade que desmancha ao chegar em casa).

Chororô também tem uma clara inspiração na canção Ain’t got no, de Nina Simone. E uma coisa desse disco, nenhuma inspiração será guardada ou velada, todas as inspirações virão a tona claramente, e por isso essa canção vem junto com os versos de Nina na voz de Luedji.

Luedji Luna se desmancha em lágrimas ao chegar em casa, parece vazia, parece que o rolê na rua, a dança e a cerveja não preencheram um vazio.

Um presente (mais um) vem aqui: os versos de Conceição Evaristo em sua voz belíssima, poderosa em um poema forte sobre o que é ser mulher, sobre a noite para as mulheres, essa noite que não adormece nos olhos das mulheres, essa noite que não sossega, que traz inquietações, lágrimas, “um cálice de lágrimas”, "cada gota que jorra.

Esse album visual é uma obra fechada, uma narrativa, e dessa imagem construída por Conceicão Evaristo, “um cálice de lágrima”, “cada gota que jorra", virá a seguinte composição de Luedji, Ain’t I a woman?. O titulo foi claramente tirado de um discurso de Sojourner Truth, na convenção pelo direito das mulheres em 1851, que depois virou titulo de um dos livros de Bell Hooks, e que ganhou uma impressionante interpretação no podcast feminismo e marxismo. Se Sojouner Truth usou o questionamento “e eu nao sou uma mulher?” pra colocar em xeque o argumento de que as mulheres não podiam ter os mesmo direitos que os homens por não serem fortes ou inteligentes como um homem, colocando que ela como mulher podia fazer as mesmas tarefas de um homem e continuava a ser uma mulher; aqui Luedji Luna usa o questionamento pra perguntar porque ela, uma mulher negra, mas ainda assim uma mulher, não deveria ser tratada como qualquer outra mulher, amada como qualquer outra mulher, assumida como parceira pelo homem com quem transa.

"Eu juro você vai me pagar
Cada lágrima que eu chorei
Eu guardei só pra te dar
E você vai beber no inferno
No inferno
Eu sou a preta que tu come e não assume
E não é questão de ciúmes
Tampouco de fé
Por acaso eu não sou uma mulher?”

Essa ameaça, de que ela vai fazer ele se arrepender por não tratá-la como uma mulher, de não assumi-la como merece uma mulher, ela faz vestida de vermelha, como um orixá, trazendo em seu ventre a promessa de uma criança - porque essa mulher que deseja, que planeja vinganças não pode ser uma mulher grávida? -, na mão uma garrafa de champanhe e um véu vermelho sobre o rosto.

Lençóis é uma quebra de expectativa, voltamos pra praia onde tudo começou, de frente pro mar, a musica se acalma, o piano, falando da mulher amada, sobre ver pelos olhos da mulher amada, sobre ser amada. Se esse é um disco sobre o amor, o amor entre duas mulheres não podia ficar por fora. Um amor que é espelho entre duas mulheres, o mesmo sexo. Não existe solidão quando se ama e é amada, é ir de encontro a si mesmo, correr em direção a um espelho e se mirar nele.

"Minha amada
Porque sei que ela pensa em mim
E o meu peito se faz paz
E o corpo, e o corpo um vulcão
Eu não me sinto só na imensidão do céu”

Depois da praia vamos para as ruínas de algo, vemos essas mulheres negras, de tantas gerações, vestidas de branca e vem o poema Quase de Tatiana Nascimento, mulher negra lésbica, em sua voz - eu sou incapaz de conter minha alegria de ver uma das poetas contemporâneas mais importantes de nossa época dentro dessa obra. E aqui peco a licença pra deixar esse poema inteiro, esse poema que fala de amor, de como mesmo feridos por outros amores, sempre somos capaz de inventar amor pra dar aos outros, e mesmo quebrado esse amor serve e é de alguma forma belo.

Me dá um pedaço do seu amor?
Só um pedaço mesmo
Não te quero inteira não
Não te quero toda
Nem de mais
Só aquele pedaço tosco
Lascado, quebrado, fodido, moído
Caído no chão, joelho ralado, doído
O pior pedaço não, nem o mais desimportante
Que isso ia ser te pedir o melhor do avesso
Mas de melhor num quero nada
Até porque eu não tenho nada muito bom pra dar
Então me dá se quiser um pedaço do seu coração
Um espaço, uma brecha, uma fenda, um vão
Um caco
Um caco de alguma vez que ele foi quebrado
Mas que cê nem lembra mais direito como, quando
Por quem mesmo?
É esse que eu quero
Dá pra mim esse caquinho
Essa lasca, essa ruína meio gasta
Mas não velha demais
Que a gente possa dizer arqueologia
Nem nova demais
A ponto de não ser quinquilharia
Esse caco que você jamais pensaria que alguém quereria
Pra uma coisa qualquer, ou que valesse um poema sequer
Esse retalho eu quero
Pra juntar com qualquer retalho do meu coração remendado
Embaixo de um dia besta de Sol, só colocar um do lado do outro, assim, paradinho embaixo do Sol do meio-dia
Pra deixar inda mais banal o zênite da mediocridade cotidiana do Sol no meio do céu em baixo do dia
E depois sentar e observar como tudo, tudo mesmo, qualquer coisa brilha sob o Sol, até um caco tosco
De vidro coronado meio arranhado
Que nem a maré das lascas do meu coração
O dicionário vai chamar essa coisa pouca, boba, pequena, comum, banal simples tola de amor
Os satélites, os drones, a NASA lá do alto
Vão ver essa coisa brilhar
Fragmentos do que a gente é buscando rejunte
E até as retinas que olharem vão quase cegar desse brilho fosco também
Mas tão brilho que vai ser esse Sol, esses cacos, esse encontro
A calçada suja onde os cacos se deitam a plantinha nascendo no craquelado o concreto a rotina o gosto de sal do suor escorrendo pela testa o dia quase vai deixar de ser igual por um
Instante
Ou quase
E partilhar um segundo fundo assim
É quase se dar inteira pra alguém hoje em dia
Do jeito que as coisas andam tão quebradas né

O disco se encerra com a canção que dá título a ele e que ganhou clipe exclusivo com Luedji Luna sob as águas de um mar, linda de vermelho - sempre de vermelho - dançando na praia. Penso que esse “você” em que ela se afoga, que a leva em suas ondas não é apenas uma pessoa, é o amor, em si.

Me acalmo, espero, me afogo você
Um tsunami e quando não quer saber de onda
Me desespero
São tuas ondas que me levam

Eu odeio declarações como essa que darei, mas estou tão absorta pela beleza desse álbum visual de Luedji Luna, que posso hoje, dois meses pra acabar o ano tão conturbado de 2020 para a humanidade, dizer que essa obra é um respiro, um alívio, o melhor da música - não só nacional - esse ano. E quero me declarar a essa obra, pois ela será meu abrigo quando não confiar mais no amor.




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