Sociedade

A atual destruição da biodiversidade não tem precedentes na história da humanidade

De acordo com o World Wide Fund for Nature, desde 1970 a vida no planeta está sendo destruída a uma taxa vertiginosa. Na América Latina, o “império” do extrativismo, 95% foi liquidado.

quinta-feira 17 de setembro| Edição do dia

Foto: Impressive Nature

O World Wide Fund for Nature (WWF) publicou o Living Planet Report 2020 . “ Nossa relação com a natureza está quebrada ”, afirmam na apresentação interativa em seu site. Na verdade, os dados são esmagadores e alarmantes: desde 1970, as populações de mamíferos, aves, peixes, anfíbios e répteis caíram 68%. É uma taxa de destruição em escala global “sem precedentes em milhões de anos”: 75% da superfície da Terra que não é coberta por gelo foi significativamente alterada, principalmente para produzir alimentos, e 85% do total de zonas úmidas foi perdido.

A América Latina e a África são as duas regiões mais afetadas por esse cenário catastrófico de perda de biodiversidade. Seguem-se Ásia-Pacífico, América do Norte e, por último, Europa e Ásia Central. Em nosso subcontinente, a redução é de 94%, principalmente entre as populações de peixes, répteis e anfíbios. Eles atribuem isso à transformação de pastagens, savanas, florestas e pântanos, à superexploração de espécies (por exemplo, com a pesca predatória), às consequências da crise climática e à introdução de espécies invasoras.

Na África, continente rico em diversidade e com importantes populações de grandes mamíferos, a redução foi de 65% entre 1970 e 2016, principalmente devido à invasão de espécies, doenças e atividades de caça predatória de peixes e mamíferos.


Informe Planeta Vivo 2020 - Fundo Mundial para a Natureza

O Índice Planeta Vivo (IPV) estima quase 21.000 populações de mamíferos, pássaros, peixes, répteis e anfíbios em todo o mundo. Este ano, 400 espécies e 4.870 novas populações foram adicionadas. Megafauna, insetos e diversidade vegetal estão diminuindo de forma alarmante. O perigo de extinção desta última está ao nível dos mamíferos, embora seja menor do que o das aves.

Por que o planeta está perdendo biodiversidade?

Não há apenas uma razão, mas a mão capitalista aparece em todos os ataques à natureza. Existem fatores diretos, indiretos e pressões, afirma o WWF, e entre os primeiros estão a poluição, a sobreexploração, a crise climática, a perda e degradação de habitats e também espécies invasoras. Entre as pressões estão a pesca industrial, agricultura, energia, mineração, infraestrutura, silvicultura e turismo, ao passo que a demografia, consumo, governos, tecnologia, organizações internacionais, economia, conflitos e as epidemias afetam a biodiversidade indiretamente.

A pecuária intensiva modifica o solo

O principal fator na perda de flora e fauna silvestres é a alteração dos usos do solo para a produção de alimentos: cerca de 50% da área de terra habitável é usada para a criação de gado, como vacas e porcos, e também para plantações (para alimentar pessoas e gado). Nesse contexto, o plano do governo argentino de instalar megafábricas com dezenas de milhares de suínos no norte e no sul do país torna-se ainda mais criminoso. Para citar um exemplo, o bioma do Cerrado, que faz fronteira com a Amazônia ao norte e se estende pelo Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina, é uma importante fonte de água, um reservatório de dióxido de carbono (gás de efeito estufa que em excesso produz o aquecimento global) e abriga a mais rica biodiversidade de todas as savanas do mundo. Metade da região já foi perdida com a pecuária e a monocultura de soja para exportação.

Biomas de água doce arrasados e poluídos

Ecossistemas de água doce são afetados ainda mais do que florestas e mares. O IPV afirma que "desde o século 18, quase 90% das áreas úmidas do planeta desapareceram e mapas globais recentes mostram até que ponto as atividades humanas alteraram milhões de quilômetros de rios". Nesse contexto, espécies grandes, a chamada megafauna , estão sendo severamente dizimadas em comparação a outras menores. Estamos falando de lontras, castores, hipopótamos, peixes-boi, botos e outras espécies com mais de trinta quilos (como as capivaras em nosso país).


Informe Planeta Vivo 2020 - Fundo Mundial para a Natureza

Mares esquentam e são poluídos

A pesca predatória, a urbanização costeira que destrói habitats, a poluição com resíduos e microplásticos , além dos efeitos da crise climática, com a acidificação e o aumento da temperatura da água, são algumas das razões pelas quais nossos mares estão em perigo (e não apenas nas águas mais próximas da superfície). Mas também as populações costeiras: o aquecimento global provoca o degelo de vastas superfícies congeladas, o que implica uma subida do nível do mar.

Extinção de espécies

Estima-se que uma em cada cinco espécies perecerá diretamente como resultado da questão climática : especialmente aquelas que habitam o Ártico e a tundra. A primeira extinção de um mamífero ligado à crise climática foi a do Melomys rubicola, em 2016, uma espécie de roedor oficialmente desaparecido no Estreito de Torres, na Austrália.

O capitalismo é responsável

O relatório da WWF, feito dois anos após sua última edição, parte da revolução industrial, na segunda metade do século XVIII. Desde então, as “atividades humanas”, sem muita distinção, têm degradado e destruído sucessivamente florestas, pastagens, áreas úmidas e outros ecossistemas importantes, também colocando em risco o bem-estar humano.

Mas foi no último meio século que as atividades econômicas transformaram drasticamente nosso planeta : nesse sistema, o impacto ecológico global tem um ritmo e profundidade maiores que a capacidade regenerativa de nosso planeta. Desde 1970, o aumento do consumo nos países desenvolvidos resultou no crescimento de sua pegada ecológica , enquanto a extração de materiais da natureza em países subdesenvolvidos disparou. Estamos falando de um velho conhecido: o extrativismo que varreu a América Latina nas últimas décadas, aprofundando saques, destruição, poluição e dependência.


Informe Planeta Vivo 2020 - Fundo Mundial para a Natureza

O Relatório Planeta Vivo 2020 responsabiliza a um sistema econômico que não valoriza a biodiversidade e produz desequilíbrios na relação com o planeta, ao mesmo tempo que faz um apelo a uma transição para "outro modelo" onde o que é produzido e consumido de alimentos e energia está em harmonia com a natureza . “ Há oito bilhões de razões para defendê-lo ” , diz Marco Lambertini, seu CEO, que aponta que o covid-19 “é uma manifestação clara de nossa relação rompida com a natureza e destaca a profunda interconexão entre a saúde das pessoas e o planeta".

O alarme que não dispara

A crise climática, embora tenha pouco espaço na cobertura urgente da mídia, está atingindo uma dimensão crítica em ritmo acelerado. Para evitar um ponto sem volta para o equilíbrio do planeta, a temperatura terrestre não pode subir acima de 1,5º C. Além de contribuir de maneira essencial no fornecimento de alimentos, fibras, água, energia, medicamentos, etc., a biodiversidade desempenha um papel vital não apenas na regulação do "clima, qualidade da água, poluição, serviços de polinização, controle de enchentes e marés altas", mas também para aprendizado, identidades e experiências físicas e psicológicas, diz o relatório.

Com a expansão das áreas urbanas, restam poucos espaços virgens no mundo, espalhados por alguns países como Rússia, Brasil, Canadá e Austrália. Embora tenha algumas áreas intactas, a maior parte do território da Argentina está danificada. Como em outros países, deve-se à expansão de áreas agrícolas, infraestrutura de transporte, urbanização, entre outros fatores. Com o mundo sendo atingido agora por eventos extremos, como incêndios , inundações e secas, somados à perda acelerada da biodiversidade, os esforços para conservar espécies e habitats são fundamentais, mas não bastam: para pensar o nosso futuro e o das gerações futuras, é urgente uma transformação radical do sistema, em ruptura aberta com aqueles que nos trouxeram até este momento catastrófico.

Traduzido de: https://www.laizquierdadiario.com/La-destruccion-actual-de-biodiversidad-no-tiene-precedentes-en-la-historia-de-la-humanidad




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