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Eleições DF | A ampla aliança bolsonarista no DF mostra que é preciso derrotar a extrema direita nas ruas

Sob a intermediação direta de Bolsonaro, no Distrito Federal, se consolidou a reacionária aliança bolsonarista entre Ibaneis Rocha e o casal Arruda, para as próximas eleições. O favoritismo da chapa para seguir ocupando o Palácio do Buriti, assim como as vagas para o Congresso, mostra o peso estrutural da direita reacionária na região e a necessidade de organizar a força dos trabalhadores para derrotá-los na luta de classes.

sexta-feira 5 de agosto | Edição do dia

Dias após o resultado da pesquisa eleitoral Correio Braziliense/Quaest, que apontava o atual governador Ibaneis Rocha (MDB) - com 28% - e o ex-governador José Roberto Arruda (PL) - com 25% - à frente da corrida eleitoral, veio o anúncio da formação de uma aliança entre os dois líderes, que contou com a intermediação e benção do próprio Bolsonaro, que se reuniu com ambos para sacramentar a aliança. Para Bolsonaro, unir suas fileiras é fundamental para consolidar o palanque na capital federal, um dos poucos colégios eleitorais em que está à frente nas pesquisas - com 39,8% dos votos segundo a pesquisa Metropoles/Ideia.

Não causa surpresa a unificação dessas forças, dado o alinhamento ideológico entre as duas alas. De um lado o atual governador, que se elegeu como parte da onda bolsonarista nas eleições de 2018, e, ao longo de seu mandato, levou a frente ataques aos trabalhadores como a privatização da CEB, o ataque à categoria dos metroviários, a violenta desocupação do CCBB, e o não pagamento do salário das terceirizadas da saúde. Além disso, conta em seu currículo de advogado com a defesa dos assassinos do índio Galdino como mostra de que partilha do mesmo ódio aos setores oprimidos de Bolsonaro.

Já Arruda, ex-governador do DF, vem de um ostracismo de 12 anos da política, devido a diversos casos de corrupção, que o obrigaram a se afastar da vida pública após sua cassação, ao menos da movimentação mais visível, já que nesse período seguiu atuando politicamente, inclusive tornando sua atual mulher ministra do governo Bolsonaro, na importante pasta da Secretaria de Governo. Notório pelos casos de corrupção, tendo sido inclusive gravado recebendo propina, como parte do esquema conhecido como Mensalão do DEM que molhava a mão da base aliada em troca de votos na Câmara Distrital, Arruda é atualmente parte do mesmo partido de Bolsonaro e contava com o apoio certo do presidente, mas renunciou a sua pré-candidatura anunciando que disputará como candidato a deputado federal, como estratégia de puxador de votos para manter o PL como a maior bancada da Câmara.

A movimentação para compor a aliança bolsonarista, além de unir os dois candidatos líderes nas pesquisas, limpou ainda o terreno para centrar forças na candidatura ao Senado, que ficará para Flávia Arruda (PL), esposa do ex-governador, levando à desistência da fundamentalista e misógina Damares Alves. Flavia Arruda também é a favorita para ocupar a única vaga no Senado do DF, com 23,2% das intenções de voto.

A base social reacionária por trás do domínio da direita

Esse domínio superestrutural da direita conservadora na cidade não é fortuito, é uma expressão da forte base social reacionária local. Como parte do projeto de separação do centro político e burocrático do Estado brasileiro do potencial de revoltas protagonizadas pelas massas trabalhadoras dos grandes centros urbanos, um dos pilares centrais do desenvolvimento de Brasília sempre foi o forte aparato repressivo.

Os números, e a própria presença no cotidiano, mostram o peso desproporcional da polícia e dos militares na estruturação da capital, em comparação com outras cidades. O orçamento para a área de segurança é de R$ 8,65 bilhões, superior ao orçamento de Saúde e Educação. A cidade possui um número de 18 mil policiais, civis e militares, sendo a maior média do país em policiais civis (um para 582 habitantes) e a segunda maior em policiais militares e guardas municipais (um para 214). O número de policiais militares no DF é 1,8 vezes maior do que a média nacional, mesmo sem guarda municipal.

Esse peso desproporcional da polícia, parte notável da base bolsonarista, se soma à enorme presença militar na cidade. Com uma verdadeira cidade própria, o Setor Militar Urbano, que reúne, além do Quartel General do Exército, uma vila com 635 casas, destinadas apenas a integrantes do Exército e seus familiares, totalizando 2,5 mil pessoas. No total, 12 mil militares envolvidos nos serviços do Exército Brasileiro povoam o setor.

Dado esse enraizamento, não é à toa que uma pesquisa realizada pelo Metrópoles/Ideia revela que os eleitores do Distrito Federal colocam as Forças Armadas e a Igreja no topo da lista de instituições em que mais confiam. O levantamento mostra que 35,7% do eleitorado da capital federal acreditam nas Forças Armadas, enquanto 33% dizem sentir mais confiança na Igreja.

Desde a Guarda Especial de Brasília, que promoveu o “Massacre da Pacheco Fernandes”, que um eixo central do desenvolvimento de Brasília é a repressão brutal a organização dos trabalhadores e estudantes. Nesse episódio, dezenas ou centenas de operários, o número certo é desconhecido, foram assassinados, frente a revolta deles pelas bárbaras condições dos canteiros de obras na construção da cidade em 1959.

Episódios como esse preenchem a breve história de Brasília, como as brutais invasões da UnB, desferidas em 1968, antecipando o ápice autoritário do regime ditatorial, que viria com o AI-5, e depois novamente em 1977. Nesses eventos, os militares transformaram a universidade em campo de concentração, dando o recado de como são tratadas as mobilizações próximas ao centro de poder do país.

É preciso derrotar a extrema direita e a base bolsonarista nas ruas

Essa base material do aparato repressivo em Brasília é um pilar sob o qual se desprende outras expressões conservadoras e reacionárias na cidade, por exemplo, na incidência recorde de casos de feminicídio na região. Em 2021, no proporcional com as outras Unidades da Federação, a capital federal ocupou a liderança de feminicídios, com 58,1% dos casos.

Além do papel de sufocamento da organização dos trabalhadores e estudantes, a repressão exemplar de Brasília também se combina ao sentido de existência da cidade, um projeto de ocupação burguês do interior do país. Desde sua concepção Brasília se destina à elite do funcionalismo público e aos políticos burgueses, sendo a expulsão permanente dos verdadeiros "pioneiros" que construíram a cidade uma marca persistente, que se intensifica cada vez mais com a especulação imobiliária.

Das Campanhas de Erradicação das Invasões, que expulsaram os candangos para originar as cidades satélites, até o despejo de dezenas de famílias no CCBB, no ano passado, existe não só uma linha de continuidade, como a exposição da espinha dorsal desse projeto de expulsão permanente.

Não é mera coincidência que o atual governador seja um milionário, que realizou a mais cara compra de imóvel da história da cidade. Ibaneis é a cara da burguesia que controla o aparato estatal de Brasília. O bilionário Paulo Octávio, outro ex-governador do DF, cuja empresa domina o mercado imobiliário da da região, com mais de 40 mil apartamentos vendidos, 3 shoppings centers, e 4 dos hotéis mais caros da cidade, é outra expressão do eixo central que a especulação imobiliária ocupa.

É nítido como a organização do DF está subordinada ao atendimento primordial dos interesses dessa classe e da especulação imobiliária, mais ainda do que em outras cidades. Para subverter desde a raíz esse sentido histórico, é preciso enfrentar a extrema direita e a direita na luta de classes, sem confiança na conciliação de classes. Uma vez mais, assim como já foi durante os governos de Cristovam Buarque e Agnelo Queiroz, o PT, agora em federação com o PV, defende a conciliação, preservando os interesses dessa casta parasitária, inclusive se valendo de seus métodos corruptos, como Agnelo Queiroz que é investigado pelo superfaturamento em R$ 900 milhões.

Tampouco a candidatura do PSOL, que está aliado a um partido burguês com a Rede, apresenta independência de classes, e coloca o centro do combate ao reacionarismo da direita nas instituições, se propondo a administrar esse projeto burguês sem impulsionar mobilizações. É preciso se apoiar na força dos trabalhadores e estudantes, que mesmo diante desse enorme aparato repressivo local, nunca desistiram da resistência, organizando o primeiro sindicato em Brasília após o "Massacre da Pacheco Fernandes", ou que mantiveram uma tradição de movimento estudantil combativo na UnB mesmo após 2 invasões no campus.

Por mais que seja silenciada, a luta de classes está presente na história do DF, e segue viva em diversos exemplos: na luta dos metroviários contra o ataque a seus direitos, na luta da população pobre por moradia, na luta das terceirizadas, em sua maioria de mulheres negras, por seus salários, na luta das estudantes contra a violência machista na UnB. São os trabalhadores e estudantes em aliança com os setores oprimidos da população que podem dar uma resposta em cada local de trabalho e estudo para o avanço da direita e extrema direita.




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