Opinião

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A aliança que precisamos

“Não me liberte, eu me encarrego disso” foi uma das frases do maio de 68 francês. Apesar de os capitalistas buscarem atribuir esse acontecimento histórico a uma luta unicamente estudantil, sabemos que ele foi um grande exemplo da potente unidade dos trabalhadores com a juventude. As lições históricas devem ser um sopro de destemor para os tempos atuais.

sexta-feira 12 de fevereiro| Edição do dia

No início de 1968, estudantes universitários protestaram contra a Guerra do Vietnã e o caráter passível do governo francês sobre essa barbaridade. A resposta do Estado e da burocracia universitária foi a repressão. Estudantes foram presos apenas por colar cartazes, e em protesto resolveram ocupar a universidade de Nanterre em março. Essa ação teve força e repercussão, e em maio a Sorbonne também foi ocupada.

A repressão foi ainda pior: muitos estudantes presos, espancados e alguns deles condenados. É neste contexto que ocorre a famosa Noite das Barricadas, na qual os estudantes enfrentaram a repressão policial durante a madrugada do dia 10 para o dia 11 de maio. “As barricadas fecham as ruas, mas abrem caminhos”.

Dias depois, mais de um milhão de pessoas foram às ruas em solidariedade aos estudantes e contra o governo. A juventude, nesse momento, tinha uma grande convicção de que sua luta deveria se expandir para além do meio universitário. Nesse momento, entre os dias 13 e 14 de maio, os trabalhadores entraram em cena com uma greve geral puxada pelas centrais sindicais francesas que estavam constrangidas com a ofensividade da juventude.

Apesar de os sindicatos insistirem em ser apenas um dia de greve, o que se viu foi a luta se expandir: os trabalhadores foram contaminados pelo espírito subversivo dos jovens que já não aceitavam mais a ordem vigente. Os operários começaram a ocupar fábricas independentes dos sindicatos, mantendo contato direto com os estudantes que buscavam uma aliança com eles. Foram ocupações nunca vistas antes na história da França, impulsionadas pela mais potente unidade operário-estudantil.

No dia 17 de maio havia 200 mil grevistas; no dia seguinte, 1 milhão, e mais de 50 fábricas ocupadas. Em menos de uma semana o número chegou aos expressivos 10 milhões de trabalhadores em greve; uma verdadeira e greve geral que parou a França. 94,8% dos trabalhadores do setor automobilístico entram em greve; 94,2% na indústria têxtil e 91,8% nos setores de combustíveis, minérios, gás, eletricidade, água, etc.

Nesse momento, além do descontentamento com o governo, os jovens e trabalhadores também tinham um grande acúmulo histórico já esboçado pelos revolucionários que o apoiaram. Nessa época, os marxistas voltaram a ser lidos e debatidos (Marx, Rosa Luxemburgo, dentre outros). No entanto, frente à grande unidade operária-estudantil, as organizações burocráticas buscaram, como sempre, se aliar à burguesia para dar fim ao movimento. Foi feito um acordo entre os sindicatos, as associações patronais e o governo e no fim de maio e início de junho, a luta perdeu força.

As lições que tiramos desse processo são simples e fundamentais: assim como vimos em outros momentos históricos, como mesmo no Brasil durante os anos da ditadura militar, o espírito subversivo da juventude e sua inflamada vontade de mudanças aliado com as posições estratégicas da classe trabalhadora podem enterrar o sistema capitalista.

Hoje frente a tantos ataques, com Bolsonaro e o regime do golpe sequestrando o futuro da juventude e tirando cada vez mais direitos dos trabalhadores, devemos reivindicar essa geração de meninas e mulheres, de negros e negras que se levantaram contra o machismo e o racismo em todo o mundo. Essa energia nos pertence e deve ser canalizada para renovarmos a cara do movimento estudantil e as forças de luta do movimento de trabalhadores, para batalhar pela construção de uma nova sociedade. Uma que não seja fundamentada na dominação de uma minoria sobre a maioria esmagadora. Que não nos reserve tortura, miséria e morte gerações e gerações de jovens e trabalhadores, como quer Bolsonaro e companhia.

A batalha para retomar as entidades estudantis nas mãos dos estudantes, para que sejam ferramentas de luta contra os ataques em curso é fundamental para construir um movimento estudantil combativo e revolucionário. Não podemos mais ter entidades que são corporativas, que não debatem os grandes temas políticos do país e que são aparelhadas por burocracias sindicais do PT e do PCdoB que impedem a nossa luta e buscam nos resignar aos ataques pois buscam se integrar ainda mais ao regime do golpe.

É bem evidente. Hoje mesmo o papel que a UBES e UPES está cumprindo é uma aberração: em meio a uma greve de professores, soltaram uma nota defendendo o retorno das aulas presenciais. Fomentando uma ilusão de que existe vacina para todos, assumem um viraram auxiliares de João Doria contra os profissionais da educação. Uma juventude revolucionária deve fazer o contrário: se aliar aos professores em greve contra Bolsonaro. E ao invés de fazer política para Doria, ferrenho defensor de ataques aos trabalhadores, como a reforma da previdência, devem exigir que a comunidade escolar, inclusive os estudantes, decidam sobre o retorno.




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