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Debate | A Rede de Marina Silva: uma startup da Faria Lima que não decolou

Uma breve olhada para o que é o partido de Marina Silva, em especial em São Paulo, é fundamental para entender o tamanho do giro à direita que o PSOL está protagonizando, com a federação que vai unir os partidos.

Thiago FlaméSão Paulo

quarta-feira 20 de abril | Edição do dia

Hoje a Rede de Sustentabilidade vegeta à sombra da polarização entre PT e Bolsonaro e busca desesperadamente medidas que garantam sua existência e que lhe permitam superar a cláusula de barreira. Mas nem sempre foi assim. Quando a Rede surgiu, do seio do PV, do PSB e do PSDB, tinha planos mais ousados do que simplesmente existir.

Na verdade, Marina Silva nutria o sonho de governar o país desde que se lançou pela primeira vez à presidência em 2010. Naquele tempo, ainda a polarização nacional se dava entre PT e PSDB, e Moro era apenas um desconhecido juiz federal cuja atuação mais ilustre havia sido proteger o PSDB no escândalo do Banestado. Marina Silva se colocava como uma terceira via para romper a chamada “falsa polarização” entre PT e PSDB.

Nessa campanha, cinco anos antes da fundação da Rede, Marina aglutinou em torno de si dentro do PV algumas figuras tradicionais do tucanato paulista, como Fábio Feldmann e empresários tradicionalmente ligados ao PSDB e outros que apoiavam os governos Lula como haviam feito com o governo FHC. A lista é longa, mas podemos citar alguns dos mais importantes, para além dos mais conhecidos, como sua relação próxima com a família Setúbal, controladora do Itaú, ou Murilo Leal, da Natura. Alvaro de Souza, por exemplo, que já presidiu o Citibank no Brasil, foi tesoureiro da campanha de Marina em 2010 e 2014. Outro nome digno de nota é o de Marcel Fukayama, Ceo, queridinho do mercado financeiro, especialista em dar uma cara “verde” para grandes monopólios capitalistas.

Ou seja, a ideia da “Rede de Sustentabilidade” foi chocada dentro dos ninhos empresariais tucanos, ou melhor falando, nos escritórios luxuosos da Faria Lima, por empresários interessados em associar a sua imagem com a ideia fantasiosa de um capitalismo verde. Os empresários mais próximos de Marina Silva acalentavam a ideia de que ela poderia ser a sucessora perfeita para os governos petistas. Combinava o passado humilde de Lula com o programa neoliberal escancarado de Aécio Neves. Chegou a sonhar em ir para o segundo turno em 2014, mas depois da sua derrota apoiou Aécio e com a fundação da Rede, perdeu um pouco da atratividade que tinha, mas seu discurso nunca deixou de encantar empresários do campo e da cidade.

Nesse caminho, no entanto, Marina e a Rede aglutinaram simpatias no mercado financeiro, no agronegócio e em todos os setores empresariais, mas perderam votos e base social. Petista demais para a base tucana que em 2018 estava em franca ruptura com PSDB para apoiar Bolsonaro e Moro, lavajatista demais e com um programa econômico demasiadamente parecido com o do governo Temer para herdar os votos de Lula, neste ano teve 300 mil votos a menos que o Cabo Daciolo, marcando o fim das suas pretensões presidenciais. Na sequência, ainda tentando ocupar o espaço do PSDB, se lambuzou ainda mais na lama neoliberal e golpista, ao elogiar a indicação de Sérgio Moro para o ministério da justiça e sua suposta consciência ambiental, chegando a reivindicar uma lava jato ambiental.

Agora, num movimento típico do fisiologismo da política burguesa brasileira, Marina Silva e a Rede buscam se localizar mais uma vez no campo progressista e encontraram um PSOL de braços abertos no seu desespero para superar a cláusula de barreira, custe o que custar. E o custo será caríssimo, o de subordinar o partido que nasceu de uma ruptura à esquerda do PT a um partido burguês, cuja principal figura defendeu um programa neoliberal nas três últimas eleições presidenciais.

Talvez ainda, mesmo com tudo isso, a direção do PSOL ainda tente mascarar sua guinada à direita dizendo que Marina foi abandonada pelo mercado financeiro e seu partido não conta com o apoio dos pesos pesados da burguesia como foi nas eleições de 2010, 2014, 2018 e que é possível uma convergência do seu ecossocialismo com a sustentabilidade da Rede. Como dissemos, nessa aliança o ecossocialismo reformista do PSOL vai se subordinar ao programa burguês de um ilusório capitalismo verde.

Ricardo Young, que permanece na REDE em São Paulo, proprietário da rede de escolas Yázigi, não é um peso pesado como os Setubal ou a Natura, mas não é menos burguês por isso, tendo trabalhado, entre outros, para dar uma cara verde para o Santander, por exemplo. Vejamos, nas palavras do próprio, o tipo de “sustentabilidade” a que o PSOL está se subordinando. No final de 2020, quando um segurança e um policial espancaram até a morte João Alberto dentro de uma loja da rede, estava na presidência do conselho deliberativo do Instituto Ethos, ao qual o Carrefour é associado. Ricardo Young não abandonou seus associados e numa entrevista no ano seguinte declarou:

“Um exemplo (de que o RH e a área de compras das empresas são fundamentais) é o evento do Carrefour, que sentimos muito sobre o que aconteceu, mas foi tipicamente a contratação de um terceirizado que não estava alinhado com os valores da empresa e causou uma consequência brutal. A área de compras é absolutamente essencial…”

Um “evento” diz ele, falando do brutal assassinato de um homem negro dentro de uma loja do Carrefour, conhecido por várias casos de racismo.

Marina Silva está transferindo seu título para São Paulo e está definindo se vai ser deputada federal ou senadora. Poderemos ver a partir do ano que vem a bancada de deputados do PSOL liderada por uma figura como essa.

Em 2014 sua candidatura pelo PSB, primeiro como vice e depois da morte de Eduardo Campos, como candidata à presidência foi feita abertamente como uma aliança entre partidos, onde ela, Marina, estava do PSB mas como parte do já anunciado projeto da Rede de Sustentabilidade. É o programa de Marina levantado nessa campanha e os aliados que angariou, que foram o ponto de partida fundamental da sua Rede.

Leia também: Aos militantes do PSOL: É preciso romper com o PSOL e sua política de apoio a uma chapa Lula-Alckmin




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