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A Greve da Disney de 1941: quando os piquetes destruíram a fachada dos contos de fada

Luno P.

A Greve da Disney de 1941: quando os piquetes destruíram a fachada dos contos de fada

Luno P.

Mais de 75 mil trabalhadores dos estúdios Disney, apenas em Orlando, entraram em greve contra o apoio de seu CEO, Bob Chapek, frente ao projeto “Don’t Say Gay”, que proíbe a discussão sobre questões de gênero em escolas na Flórida, e o financiamento de políticos favoráveis a lei através da instituição Casa do Mickey. Essa greve de proporções históricas se localiza no marco de uma recomposição subjetiva proletária no coração do maior imperialismo do mundo, que dá origem a outros processos de luta da classe trabalhadora estadunidense, como a greve histórica dos professores de Minneapolis, que não só lutam por reajustes salariais, mas também levantando temas como o racismo e a desigualdade existente nos EUA, e a luta pela legalização dos sindicatos como na Amazon e o Striketober (onda de greves trabalhistas em outubro de 2021). Mas a greve dos trabalhadores da Disney de hoje, encontra ecos no passado naquilo que foi conhecido como uma das maiores greve da indústria de animação, a greve da Disney de 1941, quando os trabalhadores de animação fizeram as rodas que sustentam o mundo do desenho animado parar.

Em 28 de maio, desafiando a Lei Nacional das Relações do Trabalho de 1935 (também conhecida como Lei Wagner) que garantia o direito dos trabalhadores do setor privado de se organizarem em sindicatos, Walt Disney demitiu um dos seus principais animadores, Art Babbitt, o criador de Pateta, a madrasta malvada em Branca de Neve, e Geppetto em Pinóquio, e outros 23 cartunistas por lutarem pela criação de um sindicato. Na mesma noite, os trabalhadores se organizaram em assembleia e emitiram um comunidade de greve. A linha de piquete com os principais cartunistas de Hollywood começou na manhã seguinte. Naquele momento, os piquetes destruíram a fachada do mundo mágico da Disney.

Apenas alguns anos antes da greve, Walt Disney desfrutou de um grande sucesso comercial fruto do acelerado crescimento econômico dos EUA no pós primeira guerra mundial que marcou os anos de 1920. Esses anos foram marcados por um período de prosperidade não balanceada, onde os preços de produtos agropecuários e os salários em geral caíram no país após o fim da guerra, enquanto que novas indústrias, tais como o rádio, automóveis, químicos e filmes, aos quais a Disney se insere, prosperaram. Tal sucesso comercial foi acompanhado de um período relativamente bom para seus trabalhadores, sendo os mais bem pagos da indústria, com a Disney compartilhando 20% de seus lucros com seus funcionários como um bônus. Na época, o estúdio tinha até uma escola interna de arte para treinar seus próprios animadores. Toda essa situação favorável permitiu um subjetividade contrastante aos trabalhadores da Disney em relação a situação do desemprego no país que se acentuava. Branca de Neve e os Sete Anões, que estreou em dezembro de 1937, foi um sucesso de bilheteria. O trabalho da Disney foi comparado ao de Charlie Chaplin em termos de sua importância para a cultura americana.

A Segunda Guerra Mundial mudou drasticamente esse cenário. Em 1937, a Disney começou a construir um estúdio em Burbank, Califórnia, financiado a crédito com a suposição de que a indústria da animação teria um sucesso contínuo. Porém, a guerra destruiu a indústria de animação europeia, afetando mundialmente as indústria de animação, chegando até os estúdios de Walt Disney. Expressão disso foi o fracasso total nas bilheterias de Pinóquio e Fantasia em 1940, o que garantiu aos estúdios Disney US$ 4,5 milhões em dívidas. Como já é de praxe dos grandes capitalistas, essas perdas foram descarregadas nas costas de seus trabalhadores. Hierarquias rigorosas foram estabelecidas, com a maioria dos benefícios indo apenas para os artistas mais bem pagos e mais reconhecidos. A maioria dos novos artistas fazia tarefas rotineiras e recebia até US$ 20 por semana, enquanto os artistas mais reconhecidos na indústria conseguiam fazer trabalhos mais criativos e podiam ganhar até US$ 250 por semana. Os trabalhadores também foram forçados a assinar documentos alegando que só trabalhavam quarenta horas por semana, quando de fato trabalhavam muito mais.

Porém, a década de 30 também foi marcada pela ascensão dos sindicatos em Hollywood em resposta à Grande Depressão, o que deu origem a Screen Cartoonists Guild (SCG), formada em 1938 após a primeira greve em um estúdio de animação, no Fleischer Studios, sendo também a central sindical dos trabalhadores da Disney. Em janeiro de 1941, a Screen Cartoonists Guild (SCG), liderada por Herb Sorrell, começou a se reunir regularmente no Hollywood Hotel para reunir queixas de desrespeito a leis trabalhistas e planejar a organização sindical em outros estúdios. Os organizadores do SCG achavam que a organização sindical dos trabalhadores da Disney poderia impulsionar a organização de outros sindicatos de estúdios como a Metro-Goldwyn-Mayer Inc. Em fevereiro do mesmo ano, todos os funcionários do estúdio foram chamados para um auditório por Walt Disney. Ele explicou que devido às suas dívidas, ele não poderia aumentar os salários e seus artistas precisariam trabalhar mais rápido para aumentar sua produção. Isso foi acompanhado por um lembrete condescendente de que seus trabalhadores ainda o tinham "privilégios" que outras categorias não tinham, como treinamento, férias e afastamento remunerado por doença. Muitos dos funcionários mais novos deixaram a reunião chamando o discurso de "sob history", que no bom e velho português seria nada mais nada menos que uma historinha triste para inglês ver.

Nessa época, Art Babbitt estava desempenhando um papel de liderança na organização sindical. Anteriormente ele ocupava um papel executivo no sindicato Federation of Screen Cartoonists, controlado pela empresa para cooptar o descontentamento dos trabalhadores e falsamente representá-los. Babbitt ficou frustrado com a incapacidade de fazer mudanças a partir dessa posição. Como um artista de renome, muitas das queixas não o afetaram pessoalmente, mas a solidariedade de classe o movia como um principio. Walt via a atividade sindical de Babbitt como uma traição pessoal.

Enquanto a organização sindical dos trabalhadores ganhava força, Walt Disney reuniu todos os seus trabalhadores novamente para outra palestra, reiterando o discurso de que qualquer trabalhador que quisesse avançar na empresa só precisa de esforço, o que deixou os trabalhadores ainda mais furiosos e motivados para participar da SCG. A gota d’água veio quando a Disney demitiu Art Babbitt e outros 23 cartunistas. O líder sindical Herb Sorrell queria estabelecer as bases com mais organização antes de convocar uma greve, mas os trabalhadores enfurecidos não queriam esperar. A greve começou em 29 de maio, durante a produção de Dumbo. Num primeiro momento, metade dos mil cartunistas entraram em greve. Ainda assim, no primeiro dia, Walt Disney tirou fotos dos piquete para identificar quem estava em greve e quem entrava para trabalhar, usando disso como ameaça aos grevistas.

Do lado de fora do prédio do estúdio, os piquetes pareciam saídos diretos de filmes do próprio estúdio. Foi uma onda de energia criativa dos cartunistas que se expressava em cartazes anti-Disney com os seus próprios personagens, como em cartazes com a imagem de Pinóquio que diziam "não há cordas em mim". Em outros, havia a figura do Mickey Mouse dizendo "Somos ratos ou homens?" e do Pluto dizendo "prefiro ser um cachorro do que um fura greve".

Os piqueteiros carregavam uma guilhotina falsa para decapitar um manequim do Walt Disney. A solidariedade de classe veio de outros sindicatos da indústria do entretenimento. A Society of Motion Picture Film Editors apoiou a greve, recusando-se a processar filmes da Disney nos laboratórios Technicolor, Williams e Pathé. Organizações de apoio, como a League of Women Shoppers and Film Audiences for Democracy, trancavam os cinemas que exibiam os filmes da Disney. Era uma verdadeira guerra civil da animação. Em contrapartida, os animadores da Disney se envolviam em greves de outras categorias, comoo os piquetes na greve dos trabalhadores de aviação de Los Angeles. Walt Disney, como o porco capitalista que era, chegava a dizer que a greve existia apenas pela agitação comunista.

O peso da greve, que já durava quase 3 meses, foi tanto que o próprio Departamento de Estado dos Estados Unidos interviu, com medo que a greve pudesse agitar outras categorias, através do Serviço de Conciliação Trabalhista do governo chamando ambos os lados para Washington visando um acordo. O acordo foi feito garantindo a reintegração permanente dos vinte e quatro empregados demitidos antes da greve, equalização salarial entre todos os trabalhadores de animação da empresa, um sistema claro de salários e classificações, um procedimento para reclamações trabalhistas, o estabelecimento do limite de quarenta horas de trabalho, créditos de tela para seu trabalho, bem como pensões e benefícios de seguro de saúde, sendo uma vitória geral para os trabalhadores.

A greve abriu novos horizontes para a organização dos trabalhadores culturais e o impacto social da animação de desenhos animados. Na sequência da greve, George Sorrell formou a Conferência dos Sindicatos de Estúdios, unindo trabalhadores de vários setores da animação. A greve também permitiu uma mudança de subjetividade para a geração nascida de toda essa movimentação, dando espaço para uma visão mais política e de classe em torno da produção artística, influenciada também pelos animadores que se se reuniam no final da década de 1930 em um pequeno grupo de cartunistas do Partido Comunista. Esses cartunistas radicais foram fortemente influenciados pelo modernismo soviético, mas isso é história para outro momento aqui no Carcará.


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Luno P.

Estudante de licenciatura em teatro pela UFRGS | Coordenador Geral do Centro Acadêmico do Teatro da UFRGS (CADi)
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