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EDITORIAL | 8M: Transformar a tristeza e a raiva em luta

Lutamos por um 8 de março com a força das mulheres da saúde, contra Bolsonaro, Mourão e os golpistas para que sejam os capitalistas que paguem pela crise. Nos aliando aos demais trabalhadores poderemos lutar pela anulação de todas as reformas! Contra Damares e a cruzada reacionária: legalização do aborto já!

Maíra MachadoProfessora da rede estadual em Santo André, diretora da APEOESP pela oposição e militante do MRT

quinta-feira 25 de fevereiro | Edição do dia

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Estamos há poucos dias do 8 de março em uma situação de enormes calamidades para a grande maioria da população em nosso país, fruto da barbárie imposta pelos governos capitalistas. Bolsonaro e seu governo de negacionistas reacionários provam como nunca aquilo que jamais tentaram esconder: são inimigos da população e atuam com a política da morte para seguir garantindo seus próprios privilégios e dos grandes empresários.

A “trupe reacionária” que conta agora com Arthur Lira na presidência da Câmara dos Deputados, ri da cara das 250 mil famílias que enterraram seus mortos nessa pandemia. O governo pretendia pagar os votos comprados do chamado centrão para garantir a eleição de Lira com recursos da saúde e da educação com a PEC emergencial, que teve sua votação adiada pelo enorme rechaço por parte da opinião pública, mas segue vigente a proposta de cortes de salários e direitos dos milhares de servidores públicos de nosso país.

Tal ataque é demagogicamente colocado como contrapartida para destravar o auxílio emergencial, enquanto são mantidos os privilégios de parlamentares, dos militares no governo, assim como dos juízes. Querem usar um auxílio (de valor e alcance muito insuficientes) de três ou quatro meses como pretexto e justificativa para aprovar ataques e cortes na educação e na saúde que vamos sofrer por anos ou décadas.

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É preciso ver além das máscaras, Bolsonaro, que disse que quem tomar a vacina pode virar jacaré e bradou o já famoso “e daí” quando foi perguntado sobre a morte de milhares de pessoas, não está sozinho e conta, para além de sua base de apoio, com o congresso nacional, governadores, prefeitos e STF para seguir aplicando sua feroz agenda de ajustes. É no autoritarismo deste regime político degradado que se assenta o reacionarismo da extrema direita, em campanha permanente contra os direitos das mulheres, particularmente o direito ao aborto. Todos os atores deste regime golpista são responsáveis pela grave situação em que estamos.

Os números de casos e mortes pela Covid-19 não param de subir e nos deparamos com estados que estão literalmente afundados em enchentes e endemias que se combinam com o coronavírus, como é o caso do Acre, onde os médicos prestam atendimento dentro da água e a população morre também com a dengue.

Os primeiros dias de 2021 começaram sem ar para a população trabalhadora de Manaus, centenas de pessoas e inclusive bebês morreram pela falta de oxigênio, insumo básico para o funcionamento dos hospitais, mas que em um Brasil, governado pela direita e a extrema direita, virou artigo de luxo. No estado do Amazonas pessoas doentes são amarradas nas macas por falta de sedativo, enquanto o governo, o congresso e o STF seguem arbitrando somente em torno de seus próprios interesses.

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Em São Paulo, as ameaças à vida de professores, estudantes, funcionárias de escolas e suas famílias com a reabertura irresponsável das escolas e se soma à ameaça de toques de recolher que Doria que impor e que se mostrará como um ataque persecutório para a população da periferia, em sua maioria negra. O governador do PSDB tenta se lançar como figura forte para as eleições presidenciais de 2022 e finge que a vacina chegou por suas mãos ao país, enquanto é notório que a “campanha de vacinação” não atinge nem 1% da população de São Paulo. Em todo o país foram vacinados com a primeira dose cerca de 6 milhões de pessoas, um número que não alcança nem mesmo todos os trabalhadores da saúde nacionalmente.

Em muitos hospitais, inclusive, as trabalhadoras terceirizadas da limpeza não foram vacinadas e o governo já discute que é preciso postergar a aplicação da segunda dose para seguir fazendo propaganda com a primeira enquanto mais de 1000 pessoas morrem por dia por complicações advindas da Covid.

Estamos em uma situação limite em relação à crise sanitária, mas também acumulamos no país ataques duríssimos às condições de vida da imensa maioria da população. A Reforma Trabalhista e da Previdência foram um prelúdio de investidas ainda mais sérias dos governos e do congresso nacional para seguir garantindo o lucro de um punhado de capitalistas.

Nesse momento, o salário mínimo se mostra ainda mais insuficiente com a alta nos preços dos alimentos, dos combustíveis como o gás de cozinha e da vida como um todo. Sem contar que nos enfrentamos com um aumento na violência policial que já matou mais de uma dezena de crianças nas favelas do Rio de Janeiro somente nesse início de 2021.

Todos esses elementos combinados à violência doméstica, que aumentou substancialmente desde o início da pandemia e a super exploração do trabalho feminino - já que com a pandemia as mulheres tiveram a dupla jornada elevada ao máximo com as escolas fechadas e tendo que assumir o cuidado integral das crianças e dos idosos enquanto seguem trabalhando fora de casa - colocam as mulheres trabalhadoras como as principais vítimas do negacionismo bolsonarista acompanhado por todo o regime político degradado, fruto do golpe institucional.

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Sem contar, casos brutais de violência e descaso, como vimos com a morte de Lorenna, mulher trans de 25 anos abandonada na clínica estética que pegou fogo no momento em que ela fazia sua cirurgia. Por Lorenna lutaremos por justiça, assim como por milhares de mulheres e homens trans de nosso país que pagam com a vida o desejo de construir e mandar no próprio corpo.

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Por tudo isso, cabe às mulheres assumir seu papel de combate e isso está acontecendo e se mostra na revolta de mães pobres e negras que perdem seus filhos cotidianamente pelas mãos da polícia mais assassina do mundo. Aparece na força das mulheres da saúde, na linha de frente do combate ao coronavírus e que lutam para garantir a vacinação de todos, como vimos no Hospital Universitário da USP, um exemplo que deve ser seguido.

Esse não será um 8 de março como outro qualquer, ao contrário, deve ser um marco na reorganização e combate, na batalha para transformar a tristeza e a raiva em luta contra esses governos e esse regime de conjunto. Por isso, temos debatido nas reuniões de preparação para o 8 de março que nossa luta deve se expressar nas ruas com um forte chamado ao conjunto dos trabalhadores que estão vendo sua vida cada dia mais degradada. As divisões que se expressam entre os poderosos, como vimos nas recentes disputas entre o STF e as Forças armadas, reafirmam a necessidade lutar contra todas as instituições golpistas e poderiam abrir espaço para emergir o movimento de massas, com mulheres e negros à frente, forjando daí uma resposta da classe trabalhadora à toda essa crise.

A barreira que encontramos nesse curso está justamente nas organizações de mulheres mais tradicionais do país, que tem em suas direções históricas o PT e o PCdoB e seus discursos de que “não podemos fazer mobilização de rua e ser contra a reabertura de escolas” de que “não podemos dar munição para os governadores serem contra nossa luta” e de que não podemos sair nas ruas porque assim contribuímos para a disseminação do vírus. Isso enquanto milhões de mulheres já estão todos os dias nas ruas e locais de trabalho, batalhando pelo pão de cada dia e enfrentando a precarização, sem poder contar com essas entidades e com as centrais dirigidas por esses partidos para organizá-las nos locais de trabalho para resistir a esses ataques.

Seria cômico se não fosse trágico, o PT que governou por 13 anos e jamais concedeu o direito elementar do aborto legal, seguro e gratuito para as mulheres e que privilegiou acordos com grandes capitalistas e com os setores conservadores da sociedade, abrindo caminho para o golpe e enriquecimento das cúpulas das igrejas evangélicas, agora atua disseminando o medo para impedir nossa mobilização. Com a força das mulheres, dos negros, LGBTs, do conjunto da classe trabalhadora e de setores da esquerda é preciso construir um grande polo de independência de classe, para atuar com os métodos de nossa classe e desmascarar as direções adaptadas do movimento de massas.

Foi no governo do PT que o Brasil firmou acordo com o vaticano e diversas concessões foram feitas para os “políticos evangélicos”, o que fortaleceu figuras asquerosas como Damares Alves que hoje ocupa o posto de ministra da “mulher, da família e dos direitos humanos. Uma mulher que está empenhada em sua jornada de pregação homofóbica e contra nossos direitos individuais.

E não é apenas no movimento de mulheres que atestamos a política adaptada e cheia de acordos que o PT e o PCdoB levam a frente, no movimento estudantil a UNE, dirigida pelo PT faz uma atuação meramente virtual, sem buscar mobilizar de verdade os estudantes contra os cortes na educação e pela unificação das demandas da juventude com a dos trabalhadores. Inclusive, o PT apoiou Rodrigo Pacheco (DEM) para a presidência do Senado e é ele mesmo que está apresentando a PEC emergencial que cortará cerca de R$1 bilhão das universidades e institutos federais.

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As direções das grandes centrais sindicais nem ao menos pautam o 8 de março nas categorias que são parte da CUT e da CTB e esses partidos seguem promovendo aliança com a direita na Câmara e no Senado. Importante marcar, que estamos vendo o fechamento da Ford no Brasil e acumulamos mais de 14 milhões de desempregados, sendo uma enorme massa feminina. Além disso, para não se chocar com o regime e estar à postos para a corrida presidencial do ano que vem, defendem a frente ampla como forma de batalhar pelo impeachment de Bolsonaro, sem nem ao menos problematizar que o vice presidente é Mourão, um militar que odeia a esquerda e ama lembrar dos anos da ditadura.

A pressão para aceitar a “frente ampla” contra Bolsonaro chega ao absurdo quando ativistas do movimento de mulheres chegam a afirmar que Doria não é tão perigoso quanto Bolsonaro e que nosso objetivo deve ser somente derrubar o presidente pela via do impeachment, ou seja, pelas mãos das mesmas instituições golpistas que vêm sendo parte de todos os ataques impostos até aqui. Não sabemos em que mundo vivem, mas foi justamente essa política levada à frente por anos que permitiu que chegássemos até aqui. Não confiaremos nossas forças em nenhum ator desse regime do golpe, Doria e os governadores são nossos inimigos abertos e também contra eles precisamos organizar nossas forças.

Por tudo isso que nossa batalha contra o patriarcado está intrinsecamente ligada com a luta contra o capitalismo, pois é desta perspectiva que o movimento de mulheres pode ser uma alavanca para as trabalhadoras batalharem contra imposições capitalistas para dividir nossa classe entre efetivos e terceirizados, brancos e negros, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais e contra tamanhos ataques levados a frente por esse regime fruto do golpe. E para isso nos inspiramos na enorme força das mulheres argentinas que saíram às ruas para impor suas demandas, como fazem nesse momento as trabalhadoras de Mianmar e as mulheres francesas. Nos apoiamos na força do Black Lives Matter que rompeu a passividade pandêmica nos EUA, pois acreditamos que essa força é a única que pode parar os ataques ao conjunto dos trabalhadores, tomando as ruas e impondo nossa força com as mulheres da saúde na linha de frente.

Nesse sentido, fazemos um chamado para a plenária aberta do Pao e Rosas no próximo dia 6, para que a gente debata e fortaleça o feminismo socialista. Às vésperas de completar 3 anos do assassinato de Marielle Franco faremos o lançamento do livro “Mulheres Negras e Marxismo” que será uma forte ferramenta de combate. Chamamos a todes a se apropriarem do combate que fazemos por um feminismo socialista através do podcast Feminismo e Marxismo e também pelo Esquerda Diário.

Nosso enfrentamento é para que tenhamos um 8 de março com a força das mulheres da saúde, contra Bolsonaro, Mourão e os golpistas para que sejam os capitalistas que paguem pela crise. Nos aliando aos demais trabalhadores poderemos lutar pela anulação de todas as reformas! Contra Damares e a cruzada reacionária: legalização do aborto já!

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