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SEMANÁRIO

31 anos de Holocausto Urbano do Racionais MC’s

Gabriel Brisi

31 anos de Holocausto Urbano do Racionais MC’s

Gabriel Brisi

Nos anos 80, o maior centro urbano da américa latina vivia o crescimento da cultura Hip-Hop. Vinda dos guetos de Nova York, a cena tomava a estação São Bento e a galeria 23 de Maio, no centro de São Paulo. É nesse cenário que surge o maior e mais influente grupo de rap nacional, o Racionais MC ’s, com letras que trazem a realidade das periferias, e que hoje se tornam chave no debate da questão negra no país.

O grupo composto por Mano Brown, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock é um marco histórico no cenário musical brasileiro. Nascente das periferias, com uma sonoridade marginalizada que critica as relações em meio a sociedade capitalista e as opressões à juventude negra e periférica. Vencedores de muitos prêmios de musica, o Racionais foi colocado como leitura obrigatória na lista da Unicamp, trazendo um novo aspecto ao grupo como literatura.

Neste mês de agosto comemoramos 31 anos do lançamento do primeiro disco da banda, Holocausto Urbano. Lançado originalmente como um LP de seis faixas, o disco é composto por musicas como "Pânico Na Zona Sul" e "Tempos Difíceis", que já haviam sido apresentadas ao publico na coletânea "Consciência Black vol. 1", também da Zimbabwe Records. O disco ainda é composto de musicas emblemáticas como "Hey Boy" e outras controversas como "Mulheres Vulgares".

Pânico Na Zona Sul

O extremo sul de São Paulo é um dos lugares com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e a primeira faixa do EP nos apresenta isso, com o constante pânico dos moradores da periferia que vivem entre a violência policial e das milícias, entre os justiceiros que decidem quem vive e quem morre, as leis controversas sejam elas ditadas pelos milicianos ou pela polícia, que como coloca o grupo, "ajudariam se eles os julgam delinquentes"

“Eu não sei se eles
Estão ou não autorizados
De decidir que é certo ou errado
Inocente ou culpado retrato falado
Não existe mais justiça ou estou enganado?
Se eu fosse citar o nome de todos que se foram
O meu tempo não daria pra falar MAIS…”

Onde o Estado só chega com seu braço armado, os traficantes também chegam. A relação da população da periferia explicita muito esse problema causado pelo capitalismo, que ao marginalizar a população negra e periférica, abre espaço para esse vínculo tão problemático, onde muitos são contra o tráfico, mas a ajuda oferecida em momentos de dificuldade acaba levando inclusive ao abuso de força, que usam disso para poderem ter um lucro maior e um certo nível de "confiança" com a população baseada em repressão.

Leia mais em: Guerra às drogas, proibição da maconha e legalização: o que mata é a repressão e o tráfico

“Eu vou lembrar que ficou por isso mesmo
E então que segurança se tem em tal situação
Quantos terão que sofrer pra se tomar providência
Ou vão dar mais algum tempo e assistir a sequência
E com certeza ignorar a procedência
O sensacionalismo pra eles é o máximo
Acabar com delinquentes eles acham ótimo
Desde que nenhum parente ou então é lógico
Seus próprios filhos sejam os próximos
E é por isso que
Nós estamos aqui”

Beco Sem Saída

Nesta segunda faixa, e como em todo o trabalho do Racionais, se apresenta a realidade da rua, em específico a situação da população em situação de rua, onde sua maioria são negros. Essa parcela da população divide a sarjeta com o frio, o sereno e a fome. Por ali vivem e morrem, sem endereço, sem nome, são invisibilidades por essa sociedade capitalista que se alimenta da sua miséria.

“A sarjeta é um lar não muito confortável
O cheiro é ruim, insuportável
O viaduto é o reduto nas noites de frio
onde muitos dormem, e outros morrem, ouviu ?
São chamados de indigentes pela sociedade
A maioria negros, já não é segredo, nem novidade
Vivem como ratos jogados,
homens, mulheres, crianças,
Vítimas de uma ingrata herança
A esperança é a primeira que morre
E sobrevive a cada dia a certeza da eterna miséria
O que se espera de um país decadente
onde o sistema é duro, cruel, intransigente”

No centro de São Paulo, onde existem mais imóveis desocupados que pessoas em situação de rua, essas pessoas são vítimas de um sistema que prioriza o lucro do que a vida, muitos têm empregos precários e trabalham no próprio centro, mas o transporte de ida e volta das periferias da cidade não caberia no orçamento.

O sistema capitalista explora e oprime por um motivo: manter os lucros dos grandes empresários. Desses jovens dos quais Brown e Ice Blue citam, o capitalismo retira até a última gota de trabalho humano por um mísero salário. São esses jovens que pedalam mais de 12 horas para fazer entregas e tirar um salário de fome. A situação de agosto dos anos 90 para cá não mudou em nada para eles, no máximo se agravou profundamente.

“Nascem, crescem, morrem, passam despercebidos
E a saída é esta vida bandida que levam roubando,
matando, morrendo, entre si se acabando
Ei mano, dê-nos ouvidos!
Os poderosos ignoram os direitos iguais
Desprezam e dizem que vivam como mendigos a mais
Não sou um mártir que um dia irá te salvar
No momento certo, você pode se condenar
Não jogamos a culpa em quem não tem culpa”

Leia mais em: Fruto da crise capitalista, população de rua de São Paulo cresce 60% em quatro anos

Hey Boy

A música traz um bate papo entre o eu lírico, um morador da periferia, e um playboy que passa por ali. O que se apresenta ao final é um monólogo, exemplificando o porquê da situação que todos ali se encontram é também culpa dele. O “boy” que teve de tudo do bom e do melhor, vive da força de trabalho e da miséria de cada um ali que muitas vezes não tem o que comer. Depois rola um diálogo franco colocando que ali é o lugar que a burguesia quer ver os negros periféricos, mas nem por isso vai cumprir o que eles supõe dele e assaltar ele.

“Você faz parte daqueles que colaboram
Para que a vida de muitas pessoas
Seja tão ruim
Acha que sozinho não vai resolver
Mas é por muitos pensarem assim como você
Que a situação
Vai de mal a pior
E como sempre você pensa em si só
Seu egoísmo ambição e desprezo
Serão os argumentos pra matar você mesmo
Então eu digo Hey boy...
Não fique surpreso
Se o ridículo e odioso
Círculo vicioso
Sistema que você faz parte
Transforma num criminoso
E doloroso
Será ser rejeitado HUMILHADO
Considerado um marginal
Descriminado, você vai saber
Sentir na pele como dói
Então aprenda a lição
Hey Boy…”

Mulheres Vulgares

Talvez a música mais problemática da carreira do grupo seja a quarta a estar no EP, trazendo de forma extremamente machista uma visão sobre as mulheres. Brown inclusive já se pronunciou sobre, pedindo perdão e dizendo que a visão daquela época não é a mesma que o grupo tem hoje.

Porém, a música nos mostra não só a visão distorcida do grupo na época, mas sim a visão da sociedade capitalista, que coloca as mulheres nas piores posições no mercado de trabalho, principalmente as mulheres negras, e o que se espera dessas mulheres é que cumpram o papel de mãe, dona de casa, mulheres recatadas e do lar, muitas vezes com jornadas triplas de trabalho. Quando as mulheres rompem esse tipo de estereótipo, quebram com qualquer tipo de repressão, seja no trabalho ou sexual, são chamadas de vulgares.

“Querer, poder, ter
Não é pra você se proteger, prever antes de acontecer.
E hoje ela diz: "Que cara vou dormir?"
Com seu rosto bonito é fácil atrair, e daí.....
Pra sair não precisa insistir.
É só ser alguém e estalar os dedos assim (plec!)
Francamente ela se julga capaz
De dominar a qualquer idiota que tenha conforto pra dar.
Não importa a sua cor, não importa a sua idéia,
Apenas dinheiro esnobando, jogando pela janela.
Não entre nessa cilada.”

Racistas Otários

Como uma das músicas mais emblemáticas do grupo, Racistas Otários fala sobre a relação do sistema com os negros e a opressão constante que sofrem. Com críticas afiadas ao sistema judiciário, o abuso de violência policial e as falácias da democracia racial. Talvez a música que mais seja a cara do Racionais que são as críticas ao sistema em relação à questão negra.

“Racistas otários nos deixem em paz
Pois as famílias pobres não aguentam mais
Pois todos sabem e elas temem
A indiferença por gente carente que se tem
E eles vêem
Por toda autoridade o preconceito eterno
E de repente o nosso espaço se transforma
Num verdadeiro inferno e reclamar direitos
De que forma
Se somos meros cidadãos
E eles o sistema
E a nossa desinformação é o maior problema
Mas mesmo assim enfim
Queremos ser iguais
Racistas otários nos deixem em paz”

Para o capitalismo, o racismo é essencial para a manutenção das grandes fortunas, não por acaso os trabalhos mais precários são reservados majoritariamente para a população negra, em especial para as mulheres negras. Os racistas otários só vão deixar os negros em paz com o fim do capitalismo. A questão racial não está por fora da diferença de classes.

“Os poderosos são covardes desleais
Espancam negros nas ruas por motivos banais
E nossos ancestrais
Por igualdade lutaram
Se rebelaram morreram
E hoje o que fazemos
Assistimos a tudo de braços cruzados
Até parece que nem somos nós os prejudicados
Enquanto você sossegado foge da questão
Eles circulam na rua com uma descrição
Que é parecida com a sua
Cabelo cor e feição
Será que eles vêem em nós um marginal padrão
50 anos agoras se completam
Da lei anti-racismo na constituição
Infalível na teoria
Inútil no dia a dia
Então que fodam-se eles com sua demagogia
No meu pais o preconceito é eficaz
Te cumprimentam na frente
E te dão um tiro por trás”

Tempos Difíceis

A última música do EP traz de forma contundente a questão de classes, o tempo difícil pelo qual a classe trabalhadora vive em meio ao capitalismo. Enquanto milhares de pessoas passam fome, a burguesia se mantém com seu frequente acúmulo de lucro. É a explicitação da exploração da classe trabalhadora.

“Eu vou dizer porque o mundo é assim.
Poderia ser melhor mas ele é tão ruim.
Tempos difíceis, está difícil viver.
Procuramos um motivo vivo, mas ninguém sabe dizer.
Milhões de pessoas boas morrem de fome.
E o culpado, condenado disto é o próprio homem.
O domínio está em mão de poderosos, mentirosos.
Que não querem saber.
Porcos, nos querem todos mortos.
Pessoas trabalham o mês inteiro.
Se cansam, se esgotam, por pouco dinheiro.
Enquanto tantos outros nada trabalham.
Só atrapalham e ainda falam.
Que as coisas melhoraram.
Ao invés de fazerem algo necessário.
Ao contrário, iludem, enganam otários.
Prometem 100%, prometem mentindo, fingindo, traindo.
E na verdade, de nós estão rindo.”

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