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300 mil!

Odete AssisMestranda em Literatura Brasileira na UFMG

quinta-feira 25 de março | Edição do dia

Escrevo essas linhas pensando quais palavras poderia dizer agora. E por mais que eu seja uma amante das letras e da linguagem, tem determinados momentos que as palavras não são suficientes.

Nada pode trazer de volta aquela mulher, que tinha quase a idade da minha mãe, e entrou no hospital em estado grave, junto com seu esposo, que tinha quase a idade do meu padrasto. Ela se foi sem poder se despedir dele. E fico me perguntando se ele já sabe o que aconteceu, porque ele também teve que ser entubado.

Penso naquela jovem enfermeira, que depois de estar na linha de frente por meses, não resistiu. Afinal ela não era uma heroína. Ela era uma trabalhadora que colocava seu corpo no combate para salvar outras vidas, mesmo sem EPIs, mesmo quando faltava oxigênio nos hospitais. Mesmo quando em meio a uma pandemia, congelaram seu salário e proibiram que contratassem outros trabalhadores como ela.

Penso naquela professora que voltou a dar aulas presenciais, mas sem nenhum planejamento efetivo assegurado pelos governos, ela se contaminou e não resistiu. Penso na criança que se foi tão jovem, aquela que tem a idade do meu sobrinho. E no porque somos o país onde os jovens mais morrem por covid.

Não é um número.

São 300 mil vidas. 300 mil sonhos. É a Maria, o José, o Gabriel, a Dolores, o Rafael e tantos outros.

Não podemos mudar o passado. Não podemos voltar no tempo como nas séries da Netflix e consertar o fato do país ser governado por um negacionista, que com o apoio de empresários e políticos golpistas precarizou ainda mais o SUS e aprovou ataques, como a reforma da previdência e trabalhista.

Se os juízes do STF, como a Carmem Lúcia hoje reevem hipocritamente seus votos sobre a operação imperialista da Lava Jato e a conduta de Moro, fazem isso não porque se arrependem do passado e querem mudar o estrago causado. Fazem isso porque tem a segurança de que as reformas foram aprovados, de que nada vai mudar do projeto que foram um pilar fundamental pra construir. Fazem isso com a segurança de ter atendido plenamente os interesses dos empresários para subordinar nosso país ainda mais ao imperialismo. E porque agora preocupam com suas próprias imagens diante da catástrofe que criaram.

Sim, existem muitas disputas entre eles. O negacionismo de lado, as recomendações da OMS de outro. Mas tem uma coisa os unifica: pertencem a uma mesma classe. E por mais que disputem entre si, estão e sempre estarão unificados para nos atacar. Para evitar que possamos dar uma resposta da nossa própria classe.

É por isso que não podemos perdoar ou conciliar.

O Lula pode estar disposto a não guardar mágoas para que eles o aceitem novamente como uma peça no tabuleiro. Mas isso significa aceitar cada um dos ataques que aconteceram nos últimos anos. Significa manter de pé esse regime e esse sistema, ainda que com novos acordos.

Como podemos estar dispostos a isso? Se temos 300 mil vidas perdidas e seguimos todos os dias nessa triste contagem?

Não é possível reformar o capitalismo.

Não bastaria apagar ou tirar do jogo as figuras que hoje são grandes responsáveis pela instabilidade, pelo desemprego, pela precarização das nossas vidas.

Existe a dialética entre os homens que fazem a história e as condições dadas historicamente para que eles existam.

A historia contada quase sempre é por homens brancos, porque a classe dominante é repleta deles. Mas nós, mulheres e negros, não estamos somente condenados aos trabalhos precários e informais, as serem os que mais morrem por covid e maioria entre aqueles que chegaram a extrema pobreza, entre aqueles que passam fome.

Nós sempre fizemos parte da história como protagonistas. Na linha de frente dos combates entre a nossa classe e a deles. E agora não poderia ser diferente.

Entre as ideias diatópicas do fim do mundo, fruto da percepção de como dia a dia o capitalismo nos leva a barbárie, e o desejo de ter alguma solução mágica pra poder para mudar a realidade. Uma nova geração cresce forjada pelo ódio de se ver sem perspectivas, pela dor de perder pessoas queridas, pela miséria capitalista.

Um grande revolucionário russo disse que a juventude tem sempre um espirito radical e questionador. E se nós organizamos esse anseio?

Para transformar a dor e o luto em força. Em resposta!

Não podemos mudar o passado, mas podemos ser sujeitos conscientes para transformar o futuro. Pra decidir o futuro que queremos.

E isso não se reduz a votar em uma eleição no próximo ano. Isso diz respeito a transformar a realidade, a construir um futuro onde não tenhamos mais que chorar pelas vidas que se foram fruto da irracionalidade capitalista. Quando chegamos a essa triste marca de 300 mil mortos, eu penso que cada vez mais isso se torna urgente.

Foto: Diário de Pernambuco




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