Mundo Operário

LUTA DE CLASSES NA FRANÇA

30 dias da greve dos refinadores de Grandpuits: contra as chantagens da patronal, grevistas permanecem unidos e seguem com a luta

Chegando aos 30 dias da forte greve da refinaria de Grandpuit, que enfrenta a multinacional petrolífera Total contra o fechamento da planta e a extinção de pelo menos 700 empregos, os trabalhadores insistem na necessidade de se opor às tentativas de divisão dos patrões, que tentam opor os trabalhadores que perderão o emprego no local com os que seriam transferidos. Infelizmente para a multinacional, a determinação de lutar pelo emprego permanece firme e a continuidade da greve foi votada por unanimidade!

quinta-feira 4 de fevereiro| Edição do dia

Na refinaria de Grandpuits, na região metropolitana de Paris, os trabalhadores lutam heroicamente desde o dia 04 de janeiro contra o plano de demissões da gigante do petróleo francesa Total, que anunciou no fim do ano passado o fechamento da planta para a eventual construção de uma fábrica de biocarburantes, o que também acarretaria na demissão de pelo menos 700 trabalhadores (sua grande maioria terceirizados) e um salto de precarização nas condições do que conseguissem se manter, com cortes de salários e estruturas de segurança e muitos forçosamente realocados para unidades distantes da empresa, além de um baque enorme para a economia da região.

Passado um mês, a greve permanece forte, se apoiando não só na determinação de luta e convicção dos grevistas, que tomam a vanguarda desse conflito, mas também na repercussão nacional de sua luta, que, longe de ficar isolada e enfraquecer-se, como gostaria a patronal, se conecta a trabalhadores de outras unidades e outros setores operários, além de estudantes e movimentos sociais, tornando-se um marca na luta contra o despejo da crise sobre as costas dos trabalhadores. Ontem, refinarias em toda a França entraram em greve em solidariedade a Grandpuits e pela manutenção dos empregos.

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30 dias de greve nas costas: a determinação segue forte

É o trigésimo dia de greve em Grandpuits. No piquete de greve, os refinadores aguardam pelo início da assembleia geral que deve votar a respeito da continuidade do movimento. Após um mês de mobilização, o cansaço se faz presente, mas a determinação mantém-se forte. Entre colegas, conversamos sobre o futuro da luta. “O que fazemos depois de 9 de fevereiro? É isso que discutimos no piquete!” conta um trabalhador a alguns visitantes.

A uma semana de 9 de fevereiro, data da entrega do relatório da Comitê Econômico e Social [1] acerca do projeto de reorganização, a pressão aumenta sobre as organizações sindicais às quais a Total impõe uma chantagem: que aceitem os termos da empresa, sob pena de verem desaparecer as poucas concessões oferecidas. Do lado dos grevistas, por outro lado, a assinatura dos termos deve ser subordinada à garantia do emprego. “nosso ponto de partida é o trabalho, por nossa segurança nas futuras instalações, pela contratação dos terceirizados. No momento, não obtivemos nada disso, então devemos continuar. Não há nada a assinar” enfatiza o “grande Frank”, refinador conhecido por sua grande barba e seus dois metros de altura, falando a um colega.

Na ocasião, uma dezena de trabalhadores ferroviários visitavam o piquete da refinaria. Eric, ferroviário e militante do sindicado dos trans urbanos e metrôs nos explica que: “Em 2020 levamos golpes. As lutas devem ser retomadas, e se tem que começar daqui é bom que haja gente lá e que seja divulgado. Em especial quando os trabalhadores enfrentam um grande grupo como a Total, é natural que venhamos apoia-los.” Progressivamente, os grevistas de agrupam no piquete, para a assembleia geral do dia

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Permanecer unidos frente à chantagem da Total

É Mathieu quem abre a assembleia geral, falando pelo comitê de greve, composto de delegados eleitos em casa setor da empresa. “As MSA [em francês, “medidas sociais de acompanhamento” o nome dos planos de transferências e demissão voluntária introduzidos pela Total durante sua reestruturação. NdT] estão confirmados, e serão postos para assinatura no dia 10 de fevereiro. A assembleia geral dos grevistas será consultada, mas elas não vão a mudar, então não tem por que as debater. O interesse agora é de manter o coletivo. Estamos cansados, as tensões se acumulam, mas temos de discutir.” Ele nota, antes de falar da estratégia da patronal. “Eles querem jogar os grevistas uns contra os outros, depois de tentarem nos jogar contra os terceirizados. Para nos assustar, eles opõe os MAS aos empregos, quando os dois estão completamente ligados, dizendo que caras que lutam por empregos correm o risco de impactar aqueles que querem sair. É mentira, e devemos lembrar que é através da correlação de forças que alcançamos o progresso! Agora teremos que nos preparar para os dias 4 e 9 de fevereiro” conclui.

Após o comitês de greve, os sindicatos tomam a palavra. Adrien Cornet, delegado sindical da refinaria eleito para a CGT fala das visitas realizadas às diferentes unidades da Total: o depósito de Gennevilliers e as refinarias da Normandia e de Feyzin. “Havia chamados à greves que interrompessem a produção nos dias 3 e quatro de fevereiro em solidariedade a Grandpuits e pelo emprego. Porque temos os mesmos problemas, o mesmo macacão de quem trabalha naqueles lugares” conta. Rapidamente, ele se dirige à questão da unidade dos grevistas. “Estamos pelo coletivo. Estamos aqui juntos, entramos juntos e sairemos juntos. É porque estamos unidos que somos fortes: os que partirão e os que permanecerão, os que logo se aposentarão e os que tem ainda 15, 20 anos de trabalho. É assim que somos fortes. Eles contam com nosso individualismo.” Uma forma de lembrar a todos a importância do combate às tentativas de divisão semeadas pela Total, nomeadamente no que se refere à assinatura do MSA, face ao qual a intransigência dos grevistas será a melhor arma. Se existem, certamente, discussões sobre a estratégia a ser adotada, o resultado da assembleia mostra que a determinação de lutar contra a Total permanece firme: ao final das falas, os revistas votaram unanimemente pela continuidade da greve, a ser votada novamente 11 de fevereio.

Continuar recolhendo apoio e construindo a solidariedade

O delegado da CGT falou, ainda, sobre a centralidade do trabalho para fora: “Eles tem medo de que isso se propague. É certo que lutamos por nossos empregos, mas nosso discurso deve se dirigir também para fora.” Para acentuar esse trabalho, uma resolução é proposta pela assembleia geral. O texto aponta, notavelmente, que:

uma vitória em Grandpuits será um encorajamento aos trabalhadores de conjunto, que sofrem hoje os ataques contra o emprego, os salários e as condições de trabalho. Por isso, é preciso que as direções sindicais ponham todo seu peso na balança, para sustentar as lutas em curso e principalmente para avançar um plano de lutas para generalizá-las, algo que fez uma falta cruel após o início da crise sanitária.”

Mas isso passa também por dar, desde hoje, visibilidade a essas lutas, por exemplo através da jornada interprofissional desta quinta (04), com um bloco que lidere a manifestação, com trabalhadores em luta contra as demissões e as supressões de emprego, independente de suas filiações sindicais.

Após o qual chama pelo estabelecimento de um Comitê de Apoio aos Refinadores de Grandpuits na sexta feira, 5 de fevereiro, às 19h.

A resolução é, também, aprovada por unanimidade, e como que se para melhor ilustrar a questão fundamental do apoio, os diferentes setores operários presentes vêm para concluir a assembleia geral. Ferroviários, metroviários, refinadores de outras unidades, todos insistindo na importância do combate de Grandpuits e sua solidariedade com os grevistas. De sua parte, Julie, militante da Corrente Comunista Revolucionária (organização irmão do MRT/Esquerda Diário na França) e estudante de arte relembra do grande piquete festivo que terá lugar no domingo, dia 7, durante o qual a atriz Audrey Vernon fará a estreia de seu novo show e uma companhia de circo se apresentará.

De fato, será necessário nos próximos dias manter e reforçar a solidariedade entre os grevistas. Neste sentido, na manifestação de hoje, onde os grevistas logicamente tomam lugar de honra, à frente do bloco, assim como no piquete do dia 7 de fevereiro, mas também em frente à Torre Total do dia 9, será necessário apoio maciço ao lado dos refinadores. A luta deles também é nossa, e traça uma perspectiva essencial para enfrentar a crise atual e a que está por vir.

Tradução: Alexandre Alves Miguez




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