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Editorial MRT | 3 propostas para movimentar as engrenagens da nossa classe diante da paralisia das burocracias sindicais

Ainda que a pandemia esteja em claro refluxo no Brasil, todos os dias vemos, neste governo Bolsonaro, notícias sobre a situação da classe trabalhadora e da população pobre sofrendo com a fila do osso, comendo lixo, com um salário que não chega no fim do mês, a carne cada vez mais cara enquanto o agronegócio tem recordes de lucro e crescem o trabalho precário, acidentes de trabalho e os inúmeros ataques que o Congresso Nacional e o STF preparam contra nós, mulheres, negros, indígenas e LGBT´s.

Diana AssunçãoSão Paulo | @dianaassuncaoED

quinta-feira 4 de novembro | Edição do dia

O objetivo de descarregar a crise em nossas costas é comum a todas as instituições do regime político. Em um momento como esse seria elementar a organização de uma jornada ou plano de lutas real, mas as direções das grandes centrais sindicais desmarcaram até mesmo a que provavelmente seria a última manifestação do ano, indicada para o dia 15 de novembro, deixando claro para os partidos burgueses e os capitalistas que, se depender desses sindicatos, os trabalhadores estarão de “férias” da luta.

Esse cenário não caiu do céu, ele foi construído: quando começaram as manifestações pelo Fora Bolsonaro, em maio, algumas coisas já estavam claras: 1) havia disposição de luta de setores mais amplos da vanguarda operária e estudantil; 2) havia focos de resistência com greves parciais e econômicas Brasil afora; 3) a possibilidade de articular um plano de luta coordenado estava colocado. Entretanto, qual foi a política das direções majoritárias do movimento de massas, incluindo a CUT e a CTB? 1) Garantir que as manifestações fossem controladas e utilizadas para “desmoralizar” a disposição de luta; 2) impedir a realização de um plano de luta coordenado com greves, paralisações e atos de rua rumo a uma paralisação nacional; 3) garantir que os processos em curso se mantivessem isolados e divididos.

Esta política sempre esteve a serviço de convencer os trabalhadores que a saída para enfrentar o odioso governo Bolsonaro não seria sua própria luta ao lado da juventude, mas sim aguardar mais de 1 ano para que Lula seja eleito, se aliando com parte da direita mais reacionária do país como, entre outros, José Sarney, e já assumindo o compromisso de administrar parte da herança econômica do golpe institucional.

Neste sentido, os atos do dia 15 estavam longe de significar um plano de luta real, entretanto seu cancelamento é a expressão máxima dessa política de contenção das burocracias sindicais para impedir o desenvolvimento de qualquer tipo de organização e luta que transcenda os estreitos limites desse regime político colocando protagonismo na classe trabalhadora, nos movimentos sociais e na juventude. Frente a essa situação nossa política não pode ser aceitar a desmoralização que nos impõem, e nem nos paralisar. Há tarefas preparatórias que a esquerda socialista e revolucionária pode levar adiante em situações como essa para mover as engrenagens da nossa classe como parte da batalha pela frente única operária, ou seja, pela unidade de toda a classe trabalhadora para enfrentar os ataques articulando exigências e denúncias a essas mesmas burocracias que, apesar de tudo, seguem sendo direção da maioria da classe trabalhadora. Por isso, apresentamos 3 propostas para avançar a nossa luta para enfrentar o desastre ambiental de Bolsonaro e Mourão e apresentar um programa operário para a crise:

1 - Nenhuma luta pode estar isolada

Em uma situação de baixa luta de classes como a que nos encontramos no país, os pequenos e incipientes processos de resistência precisam ser cercados de solidariedade e tomados como pontos de apoio na batalha por um plano de luta unificado. A política das direções majoritárias tem sido tratar “cada luta em seu quadrado”, mantendo-as isoladas, evitando que elevem suas demandas sindicais e econômicas a uma pauta política generalizada contra o governo e mais do que isso, impedindo que focos de resistência confluam entre si, que os trabalhadores vejam que não estão lutando sozinhos. A situação é tão absurdamente dramática que os operários da MRV de vários estados simplesmente não sabiam que seus colegas de Campinas estavam em greve há mais de um mês, informação que chegou a estes trabalhadores pela via das panfletagens de apoio organizadas pelo Esquerda Diário. Nossa posição é que este é um papel de todas as organizações e entidades de esquerda, a começar pela CSP-Conlutas da qual fazemos parte, e das Intersindicais, mas também todas as organizações como PSOL e seus parlamentares, PSTU, PCB, UP, PCO. A unidade na luta de classes deveria ser uma premissa fundamental do conjunto da esquerda intervindo sempre para potencializar a auto-organização dos trabalhadores diante da política das burocracias. Também viemos a partir da Juventude Faísca chamando essas mesmas organizações a dar uma batalha em comum nas universidades pelo direito de estudar, frente ao escandaloso nível de evasão e falta de permanência estudantil. Consideramos urgente uma unidade ao redor deste ponto, que passa pela luta contra os cortes nos direitos atualmente existentes, mas indo além por uma política de permanência estudantil plena.

2 - Reagrupar a vanguarda de esquerda socialista para enfrentar Bolsonaro com uma política independente do PT

Justamente por essa tarefa fundamental de atuação em comum nos processos de resistência frente aos ataques e da difícil situação política onde o enfrentamento à Bolsonaro passa por distintas mediações das instituições do regime mas especialmente pela candidatura de Lula e do PT, consideramos que é uma tarefa fundamental da esquerda que defende uma política independente do PT buscar todos os mecanismos para atuar em comum acumulando forças para intervir nesse momento defensivo. Os debates programáticos e teóricos são fundamentais; mas levar a cabo uma tarefa de intervenção concreta nos parece decisivo, justamente para enfrentar a fragmentação das lutas e a política das burocracias a esquerda precisa atuar em comum em um verdadeiro polo que apresente uma política alternativa. É neste espírito que estamos em debate com a Coordenação do Polo Socialista e Revolucionário para efetivar a entrada do MRT nesta iniciativa, pois consideramos correto e necessário avançar nessa unidade a serviço da luta de classes, uma iniciativa que pode também dar as bases para uma experiência eleitoral de independência de classe, tomando como exemplo o programa da Frente de Izquierda y de los Trabajadores Unidade (FIT-U) na Argentina. Entretanto, essa iniciativa é ainda minoritária e com poucas correntes, sendo necessário ampliá-la, mas também buscando todas as outras possibilidades de intervenção em comum das correntes de esquerda revolucionária, independente das diferenças políticas entre elas, levando em consideração que neste caso o enfrentamento ao governo Bolsonaro precisa ser feito de forma independente das demais frações do regime, inclusive do PT, algo que por exemplo a majoritária do PSOL já abandonou em seu último Congresso.

3 - Batalhar em todos os locais de trabalho e estudo para que as direções majoritárias organizem um plano de luta

Com essas iniciativas, como o Polo Socialista e Revolucionário, e a atuação das entidades de esquerda do movimento sindical como a CSP-Conlutas e as Intersindicais, consideramos que pode se potencializar uma intervenção que ajude a criar uma engrenagem distinta diante de processos de resistência e da articulação dos trabalhadores diante de tantos ataques, impedindo que qualquer luta fique isolada. Essa política precisa estar a serviço de amplificar uma exigência às burocracias sindicais. Do contrário sairão impunes do cancelamento dos atos do dia 15. Quem pode abrir os olhos dos trabalhadores e mostrar a traição que isso significa? Somente a esquerda levantando e agitando uma política distinta, mostrando para os trabalhadores que é um crime desmarcar as manifestações e que mesmo as manifestações tal como vinham sendo convocadas não representavam de fato um plano de luta efetivo com assembleias para discutir e votá-lo. Senão, para que servem os sindicatos? Para que conformar uma Frente Fora Bolsonaro que simplesmente retrocede da última manifestação do ano? Já basta o ano inteiro termos sido “cozinhados” por esse calendário espaçado de luta, com um ato marcado a cada mês, cada vez mais fraco e inclusive diminuindo depois da entrada da direita, que ainda que eventualmente ocorresse, foi uma política equivocadamente agitada pela esquerda como “unidade na ação” para ampliar a luta, e como alertamos desde o início, na realidade teve o efeito de diminuir as manifestações. E diminuiu porque esses partidos burgueses são parte da aprovação dos ataques econômicos bolsonaristas contra os trabalhadores e os jovens. Agitar a unidade com a direita “opositora” - porque é disso que se trata - significa incentivar a unidade com uma fração da burguesia, e isso implica dividir as fileiras dos trabalhadores. Não significa fortalecer o combate, e sim enfraquecê-lo. É a mostra de que a ampliação da nossa luta não é um pedido desesperado para a direita liberal se movimentar, mas sim a batalha para que cada vez mais categorias de trabalhadores - a classe que tudo move - imponham às suas direções um verdadeiro plano de lutas com greves, atos e manifestações rumo a uma paralisação nacional que enfrente todas as reformas, ataques, privatizações e o desastre ambiental promovido por Bolsonaro.

No processo dessa engrenagem nós do MRT seguiremos defendendo que os trabalhadores levantem não somente um programa operário para enfrentar a crise, como por exemplo agitando a defesa do aumento salarial mensal de acordo com a inflação, mas também que nossa resposta para a crise política não pode ser aceitar as variantes burguesas, como seria o impeachment, mas sim levantar bem forte a bandeira pelo Fora Bolsonaro, Mourão e militares e portanto a defesa de uma nova Constituinte, dessa vez livre e soberana que se enfrente com todo esse regime podre e permita avançar nos grandes problemas que atingem as massas exploradas no país como o não pagamento da dívida pública, uma reforma urbana radical na cidade e uma reforma agrária no campo contra o agronegócio. Neste caminho a auto-organização que somente ensaiamos nos pequenos processos de luta será decisiva para enfrentar a reação do estado capitalista, o que permitirá também avançar na experiência com essa democracia dos ricos e lutar abertamente por um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo. É por esta perspectiva que nós do MRT lutamos e convidamos todos e todas a debateram.




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