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20 anos de FaSinPat: ESBA e "Artistas por Zanon" e a aliança operário-estudantil

Luno P.

20 anos de FaSinPat: ESBA e "Artistas por Zanon" e a aliança operário-estudantil

Luno P.

A unidade entre artistas, estudantes e trabalhadores é uma unidade poderosa e revolucionária. Uma união que expressa o futuro, o presente e o passado. No maio francês de 68, na luta contra a ditadura no Brasil, no Cordobazo na Argentina em 69 e em muitos outros processos de luta de classes ao longo da história, essa unidade se fez (e ainda se faz!) presente. Em Neuquén, na Argentina, essa unidade se expressou em torno da luta dos trabalhadores da fábrica de Zanon, ocupada pelos trabalhadores em 2001 após a grande crise capitalista que levou ao seu fechamento. Aqui, em homenagem aos 20 anos desta luta, abordaremos brevemente esta aliança e a experiência da luta dos estudantes da Escola Superior de Belas Artes Manuel Bregano junto dos trabalhadores de Zanon.

Os trabalhadores da Zanon fizeram parte de um amplo movimento de fábricas ocupadas por seus trabalhadores na Argentina diante dos fechamentos e demissões em meio à crise de 2001, mas sem dúvidas são o exemplo mais avançado e combativo que surgiu nestes processos. Não só pela dureza dos inimigos que enfrentavam, como o MPN (Movimento Popular Neuquino, partido político) e sua polícia ou as gangues da burocracia sindical da CGT, mas sobretudo por sua política conscientemente levantada.

Diante dos fechamentos e demissões, não só levantaram a política de “ocupar e produzir” mas, contrariando a estratégia das cooperativas como um fim em si mesmo, recusaram-se a buscar uma solução isolada e exigiram desde o primeiro momento a desapropriação sem pagamento aos empresários e a nacionalização das fábricas que estavam fechando sob controle dos trabalhadores. Como uma conquista parcial para manter a cobertura legal da produção e comercialização, aceitaram, após oito anos de luta, a desapropriação feita pelo governo provincial (paga pelo estado provincial, mas não pelos trabalhadores) e a formação de uma cooperativa (FaSinPat, Fábrica sem Patrões), mas sem deixar de exigir a nacionalização sob gestão dos trabalhadores como saída. Este processo de organização e luta foi possível pela existência de um conjunto de condições objetivas e também pela existência de uma política de tradição classista na condução do sindicato que era dirigido desde o ano 2000 por Raúl Godoy, militante do PTS, partido irmão do MRT na Argentina.

Veja também: [DOCUMENTÁRIO] Zanon, o Fio Vermelho

Muitos setores do movimento estudantil da Argentina aderiram à luta em Zanon desde o início, seja fazendo um fundo de greve nas universidades, seja passando pelas salas dos cursos para contar o que estava acontecendo e convocando para os atos que foram feitos pelos trabalhadores de Zanon.

A Escola Superior de Belas Artes Manuel Belgrano, em Neuquén, assim como a maioria das escolas de arte da Argentina, não tinha local adequado para funcionar. De 1982 a 2006, durante vinte e quatro anos, a ESBA vagou por vários prédios precários, alugados pelo estado provincial e, em muitos casos, sem os elementos básicos de infraestrutura. Por 22 anos funcionou onde hoje funciona, no Centro Cultural La Conrado, até que então começou a sua peregrinação, que foi desde uma antiga empresa de serviço de vigília a um prédio que antes era usado como frigorífico.

Os alunos de Belas Artes, nesse sentido, sabiam dos despejos, viviam na própria carne o descaso do Estado que mantinha os professores com salários miseráveis ​​e não garantia o direito à educação das centenas de jovens que frequentavam aquela escola em condições terríveis.

A promessa do novo edifício para a Belas Artes foi uma promessa que se repetiu anos após anos de governo do MPN. Porém, o acontecimento de Zanon foi sentido de maneira tão forte que um grupo de alunos, após a formação do centro estudantil (entidades estudantis semelhantes aos centros e diretórios acadêmicos no Brasil), passou a fazer parte ativa dessa luta que tinha algo em comum.

Naquela época, tanto os trabalhadores da Zanon quanto os estudantes lutavam contra os despejos e desocupações, ainda que em escalas muito diferentes. Os operários queriam colocar a fábrica sob controle operário e os estudantes exigiam que as mudanças de prédio em prédio, sendo todos precarizados, terminasse, e que fosse construído um novo prédio que atendesse aos requisitos para funcionar como uma verdadeira escola de arte. Tanto os estudantes da ESBA quanto os trabalhadores da Zanon denunciavam o Estado como responsável, e por isso estiveram juntos e foram inseparáveis ​​nas ruas.

Eles inspiravam uns aos outros. O grupo que dirigia o centro estudantil se chamava "A Imaginação ao Poder" em homenagem aos jovens que lutaram ao lado dos trabalhadores na França de maio de 68, e era impulsionado pela a agrupação de arte e política Contraimagen, formada por militantes do PTS e também por artistas independentes.

Quando o controle dos trabalhadores foi estabelecido na fábrica, ainda faltavam alguns anos para que o prédio da escola fosse construído e entregue. Os trabalhadores passaram a lutar pela desapropriação e nacionalização sob controle operário e, com o centro estudantil formado, artistas passaram a ser convocados para realizar a parte gráfica da campanha dos trabalhadores de Zanon que se chamava "Expropiacion es Devolucion" com o "D" riscado para que, além de ler a palavra devolução, que era o argumento da expropriação, também podia se ler a palavra evolução.

A partir daí, foram realizadas centenas de atividades com os operários, além de participarem de todas as marchas onde sempre se faziam presentes as duas bandeiras, a de Zanon e a das Belas Artes, mescladas em blocos comuns entre trabalhadores e estudantes-artistas. Chegou um momento onde os trabalhadores se sentiam ainda mais confortáveis para fazer críticas estéticas às imagens da campanha, bem como participar das intervenções urbanas feitas pelos artistas. Festivais da campanha "Expropriação é Devolução" também aconteceram com os artistas do grupo Artistas por Zanon, formado por estudantes da ESBA e por artistas do Alto Valle de Río Negro e Neuquén, tomando a linha de frente.

Festival EXPROPIACION ES DEVOLUCION - La Renga em Zanon (2006)

Festival EXPROPIACION ES DEVOLUCION - Las Manos de Filippi em Zanon (2008)

Las Manos de Fillipi - FaSinPat, filmado na fábrica de Zanon

Em 2006, e durante o último governo de Jorge Sobisch, a escola foi inaugurada. Além da comoção, todos sabiam que essa escola havia sido conquistada por um centro estudantil organizado, que batalhou pela unidade entre estudantes com os funcionários e professores da escola. Juntos, não pararam até que arrancaram suas demandas de um governo que constantemente atacava a educação e a saúde para garantir o lucro das escolas e clínicas privadas de saúde, além das grandes empresas.

Em 2016 a Zanon atravessou uma situação econômica difícil, e o centro estudantil da Belas Artes participou ativamente da campanha de renovação tecnológica da fábrica. Toda essa força e união até hoje se expressa. Este exemplo da ligação entre os estudantes da ESBA, artistas e os trabalhadores da FaSinPat mostra a força da aliança operário-estudantil e da hegemonia operária como parte da estratégia que deve ser levada a frente pelo movimento estudantil, seja na Argentina, seja hoje no Brasil. Essa aliança é a única de fato que pode responder a crise capitalista e o conjunto daqueles que nos atacam.

Além de sua forte história de aliança operário-estudantil, nesses 20 anos a luta de Zanon inspira inúmeras produções artísticas. Mais de uma dezena de documentários e curtas, como Fasinpat, fábrica sem patrão, de Daniele Incalcaterra (você pode assistir o filme inteiro legendado aqui, livros de ensaio e ficção, murais, obras plásticas, poemas, peças e festivais de teatro, canções, recitais importantes com músicos e bandas de destaque, como Manu Chao, La Renga, Attaque 77, León Gieco e Ska-P e muitos mais, além do apoio ativo de importantes nomes da música no cenário internacional, como a banda Rage Against the Machine.

Mural Zanon é do povo

Festival "Teatro Por Zanon" (2016), na campanha pela renovação tecnológica de Zanon

Duleveland - Fragile Revolta (The Story of FaSinPat)

A experiência Zanon não pertence ao passado. Não só porque até hoje, completados 20 anos de gestão pelos trabalhadores, ela continua resistindo e produzindo, mas pelo que isso implica para o futuro e todas as suas lições que devem ser apropriadas.

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Luno P.

Coordenador Geral do Centro Acadêmico do Teatro da UFRGS (CADi)
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