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150 anos da Comuna de Paris: lições para os dias de hoje

A Comuna de Paris foi um marco de grande relevância na história das lutas da classe trabalhadora. Esta inspiradora experiência que data de 18 de março de 1871, completando nesta semana 150 anos, entrega à classe trabalhadora importantes lições. Hoje, no marco da pandemia e de uma grande crise econômica, o que podemos aproveitar daquilo que foi o primeiro governo proletário da história?

sexta-feira 19 de março| Edição do dia

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Em setembro de 1870 a França sofria uma derrota no contexto da guerra franco-prussiana. Após perder a batalha de Sedan, o Imperador Napoleão III e seu governo foram destituídos, e estabeleceu-se um governo provisório, chefiado pelos delegados parisienses, e tendo em Thiers sua figura central. Esse governo, entretanto, se encontrava no dilema de que para continuar a guerrear, precisava armar os trabalhadores, mas os mesmos não se encontravam nem um pouco satisfeitos com a situação nacional. Ao tentar desmilitarizar a Guarda Nacional, o governo provisório enfrentou uma reação armada da mesma, e se exilou em Versalhes.

Começa então a Comuna de Paris. Com o vácuo de poder gerado pela fuga do governo burguês, o proletariado parisiense foi capaz de tomar o poder e desenvolver um governo operário pela primeira vez na história. A Comuna era caracterizada por ter representantes eleitos por meio de sufrágio universal, coisa que só veio a ser implementada em muitos países no século seguinte. Através dessa organização houveram muitas conquistas, como o direito dos trabalhadores a administrar seus locais de trabalho, acesso à educação pública e gratuita a todos, a suspensão do pagamento de aluguéis e direitos civis igualitários entre homens e mulheres.

Entretanto, esse governo não durou muito tempo. Após 70 dias, forças fiéis ao governo provisório de Thiers em aliança com o exército prussiano, esmagaram a comuna militarmente, e retomaram Paris. Apesar de isso ter sido uma derrota, a classe trabalhadora internacionalmente tirou importantes lições desse fato histórico que trouxe esperança ao proletariado, nos mostrando que é sim possível tomar o céu de assalto e arrancar o poder das mãos da burguesia.

Façamos um salto temporal para os dias de hoje, 150 anos após a Comuna. A classe trabalhadora acumulou diversas experiências importantes durante esses anos. Podemos citar, por exemplo, a Revolução Russa, que foi triunfante e conseguiu instalar o maior governo proletário da história, apesar de ser depois degenerada pela direção stalinista. Não muito tempo atrás, em 2011, presenciamos o proletariado a se revoltar fortemente durante a Primavera Árabe, abrindo um novo ciclo da luta de classes global. Outro exemplo recente foram os protestos no Chile em 2019, que a partir da força da classe trabalhadora conseguiu derrubar a constituição da ditadura de Pinochet e abrir um processo constituinte no país. Em 2020, em plena pandemia, em reação ao brutal assassinato de George Floyd, a fúria antirracista do Black Lives Matter se colocou nas ruas contra a polícia, protagonizando o maior levante popular da história dos Estados Unidos.

Que relação tem todas essas lutas? Todas expressam a potência que a classe trabalhadora possui em suas mãos para transformar o mundo, mas também mostram que sem uma direção a se seguir, essa transformação pode acabar se perdendo e se enveredando por caminhos cujo destino não será aquele que se aspirava.

Em 1871, a comuna necessitava de um partido que pudesse organizar as massas de forma vitoriosa, impedindo que a contra revolução triunfasse. Na União Soviética, o partido bolchevique conseguiu desempenhar tal papel, mas nos anos posteriores à morte de Lênin e à ascensão de Stalin, acabou por se degenerar e não apoiar a classe trabalhadora de forma internacionalista.

A burguesia é ciente de que a atuação consciente das massas dirigidas por um partido revolucionário pode tirá-la do mapa. Prova disso é que eles tentam, a todo custo, cooptar qualquer movimento que possa se desenvolver a um processo de luta de classes mais forte. Nos EUA, com o Black Lives Matter nas ruas, o Partido Democrata fez uma festa de demagogia ao “se unir” ao anti racismo contra Trump. No Chile, Piñera tentou cinicamente declarar que era uma grande vitória da democracia que a constituição da ditadura fosse derrubada.

A diferença que uma direção revolucionária pode exercer ao estar à frente de processos de luta como esses citados é astronômica. Uma perspectiva revolucionária e internacionalista é necessária para fazer valer cada demanda proletária, atuando de forma consciente e levando em consideração todas as experiências acumuladas pela classe trabalhadora, desde a Comuna de Paris até os dias de hoje. Abaixo, uma citação de Trotsky ao falar sobre a Comuna:

“O partido não cria a revolução ao seu gosto, não escolhe conforme lhe convém o momento para tomar o poder, mas intervém ativamente em todas as circunstâncias, monitora a todo o momento o estado de ânimo das massas e avalia as forças do inimigo, determinando assim o momento propício para a ação definitiva. Esta é a mais difícil de todas as suas tarefas. O partido não conta com soluções que valham para todos os casos. Necessita de uma teoria justa, de um contato estreito com as massas, de uma certeira compreensão da situação, de uma visão revolucionária e de uma grande firmeza. Quanto mais profundamente penetrar um partido revolucionário em todas as esferas da luta revolucionária e quanto mais unido estiver em torno de um objetivo através da disciplina, melhor e mais rapidamente pode realizar sua missão.”

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 [1] Lições da Comuna - Leon Trotsky




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