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Racismo | 1 ano sem nego Beto, assassinado no Carrefour pelo racismo e a barbárie capitalista

No dia 19/11/21, um ano atrás, João Alberto, conhecido entre amigos como “Nego Beto”, foi brutalmente espancado até a morte por um segurança do Carrefour e um PM fora de serviço. O assassinato aconteceu no Carrefour do Passo D’areia, em Porto Alegre/RS na véspera do Dia Nacional da Consciência Negra. Depois de um ano, novamente chega o dia 20/11 e relembramos que sua covarde morte segue sem justiça, e muitos outros Betos seguem sendo assassinados diariamente pela polícia.

sexta-feira 19 de novembro | Edição do dia

Quem era Beto?

João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, trabalhava com seu pai numa empresa de solda de portão. Gostava de sinuca e era apaixonado por futebol. Torcia para o São José (time de Porto Alegre/RS). Tinha amigos, familiares, tinha uma vida toda a ser vivida e muitas conquistas a realizadas. João Beto, como era conhecido pelos amigos, vivia numa comunidade na Vila Farrapos, na Zona Norte da Capital

O que Aconteceu no dia 19/11/20?

Na ocasião do assassinato, Beto fazia compras com a esposa no Carrefour, houve uma discussão com a fiscal de caixa, que chamou o segurança. Um PM de folga que fazia compras vem ajudar o segurança e os dois arrastam João para fora do mercado onde o espancam até a morte. Durante os minutos que ocorreram o espancamento, algumas pessoas tentaram ajudar Beto, mas foram impedidas e ameaçadas pelos homicidas. O SAMU foi chamado e tentou reanimar João Alberto mas não obteve sucesso. Beto já estava morto. Os assassinos aguardaram a ambulância em cima do cadáver e foram detidos por homicídio qualificado. Mesmo com a prisão dos responsáveis diretos por essa barbárie, a opressão e exploração às quais negras e negros são submetidos todos os dias seguirão. Justiça não foi feita! O Carrefour segue lucrando com o sangue e suor da classe trabalhadora negra. Os lucros exorbitantes do Carrefour, que somente no segundo semestre de 2020 foram de R$ 757 milhões, seguem intactos e inclusive com suas ações aumentando após este assassinato cruel.

Em 11/12/20 a Polícia Civil do RS indiciou seis pessoas por homicídio triplamente qualificado. Eles foram denunciados pelo MP-RS seis dias depois e viraram réus no dia 18/12/20. Porém não houve denúncia nem indiciamento por racismo. Segundo a denúncia, são autores do crime os seguranças Giovane (PM) e Magno, além da agente de fiscalização do Carrefour Adriana Alves Dutra. A polícia entendeu que Adriana teria poder de comando sobre os seguranças, mas não pediu que eles parassem. O pedido de prisão preventiva dela foi aceito pela Justiça e convertido em domiciliar. Outros três acusados de participação na morte tiveram prisão preventiva solicitada pela polícia e pelo MP. São eles: Paulo Francisco da Silva, Kleiton Silva Santos e Rafael Rezende. A Justiça negou o pedido e eles respondem em liberdade. Giovane, que era policial militar temporário, foi exonerado do cargo na Brigada Militar no dia 3 de dezembro. No dia 9 de dezembro, a Justiça do RS negou o pedido de liberdade provisória do ex-policial e decidiu que a BM precisa informar se ele deve continuar no presídio militar. Magno, o segundo segurança, está na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas.

Após o homicídio, 20/11, dia da rebelião no Carrefour Passo D’areia em Porto Alegre

Jovens e trabalhadores manifestava-se na frente do Carrefour, com fúria e dor causada pelo horroroso assassinato, gritavam contra o racismo, escreviam suas denúncias e sua raiva nas paredes desta multinacional racista e exploradora, até que foram brutalmente reprimidos por bombas da polícia. A juventude e trabalhadores, mesmo sob repressão gritavam: “não acabou, tem que acabar, eu quero fim da polícia…!” A atuação da própria Brigada Militar no Carrefour no dia 20/11 demonstrou pra que servem as tropas da PM: reprimir jovens e trabalhadores, e proteger a propriedade privada. Também aconteceram atos em Campinas, São Paulo, Belo Horizonte e outras capitais e cidades do interior.

Vale recordar que 2020 foi o ano do Black Lives Matter, ano de outro brutal assassinato contra um homem negro, neste caso George Floyd, os EUA foram palco de um levante nunca visto no país antes. Com o ódio da população incendiando delegacias e exigindo o fim absoluto da polícia. Infelizmente a revolta foi canalizada nas vias eleitorais que acabaram elegendo o imperialista do Biden.

Após o dia 20, a trégua da burocracia

As mobilizações que num primeiro momento refletiam o ânimo da juventude e a revolta de uma classe trabalhadora devastada pela crise, logo sendo esfriadas pela paralisia das centrais sindicais e estudantis, (CUT, CTB e UNE), essas dirigidas pelo PT e PCdoB. Todos os parlamentares da esquerda, candidatos e figuras públicas de projeção como, por exemplo, Guilherme Boulos, Manuela Dávila, etc., podiam ter usado seus espaços e peso para convocar mobilizações e defender os trabalhadores frente os ataques, mas diante das eleições, preocuparam-se mais com seus resultados eleitorais.

Carrefour tenta lavar a cara frente a sua responsabilidade pelo assassinato racista

Em janeiro de 2021 já tínhamos visto o pai de João Alberto recusando a indenização proposta pela rede de supermercados Carrefour. Depois foi a vez da empresa multinacional e bilionária comprar o luto da viúva de João Alberto, oferecendo R$ 1 milhão de reais, que também foram recusados. Porem em maio de 2021, após uma longa batalha judicial a viúva de João Alberto, Milena Borges Alves, assinou um acordo de indenização com o Carrefour. Milena recebeu um valor entre R$ 1,1 milhão e R$ 5 milhões (o valor exato não foi divulgado por causa de um acordo de confidencialidade). O Carrefour também fez um acordo com MP e vai pagar 120 milhões de indenizações pela morte de Nego Beto. Esse acordo foi realizado via um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público(RS), o MPF, a Defensoria Pública do RS e da União, além de entidades como Educafro e Centro Santo Dias Arquidiocese de São Paulo. Este tipo de acordo, que envolve diretamente o judiciário, empresa e entidades ligadas a movimentos sociais e de direitos humanos, serve para reparar danos a comunidade e evitar que a empresa seja acionada na justiça. O dinheiro irá para ações de enfrentamento ao racismo. A família de Nego Beto não receberá a quantia.

Capitalismo lucra com o racismo diariamente: para acabar com o racismo é preciso destruir o capitalismo

As empresas lucram todos os dias com o desprezo pelas vidas negras, com o trabalho subvalorizado, salários de miséria e poucos direitos. A esmagadora maioria dos postos de trabalho precário, informal e terceirizado, são ocupados por negros e negras. O Carrefour, na época, se pronunciou dizendo que “reforça sua postura antirracista, ampliando sua política de enfrentamento a discriminação e à violência”. Porém sabemos que isso nada passa de demagogia da pior qualidade. Eles jamais abrirá mão de lucrar com o trabalho de negros, mulheres, imigrantes, nordestinos, etc. A exploração do trabalho permanecerá intacta, não vão tirar nenhum centavo de seus lucros, da mais-valia. Essa é a lógica do capitalismo. Este termo assinado pelo Carrefour junto ao MP nada mais é que uma forma de “livrar a cara” da empresa frente a um amplíssimo setor que achou absurdo e se comoveu com o assassinato de Nego Beto. A luta antirracista é incompatível com esse empresariado. Não há como ser antirracista ao mesmo tempo que você explora vidas negras para enriquecer um punhado de engravatados, lucrando com a precarização do trabalho e com o desemprego, duas duras realidades que afetam principalmente a população negra brasileira.

Entre Marielle e Nego Beto: mídia e direita com seus esquemas de destruição de reputação

Quando protestos irrompiam no Brasil, buscando justiça pelo covarde assassinato da vereadora carioca Marielle Franco à mídia em parceria com a direita, executaram um gigante operação de difamação, tentando associar a vereadora com o crime organizado. Essa ação difamatória tinha um objetivo claro, impedir o avanço das mobilizações. Ano passado vimos novamente um negro tendo sua vida difamada após ser brutalmente assassinado com objetivo de acalmar os ânimos da sociedade. No calor do momento, figuras nefastas da direita bolsonarista tentavam justificas o brutal homicídio criando narrativas onde Beto estaria assaltado o mercado e fosse um bandido de longa data. A lógica da meritocracia inventada pela burguesia leva a se justificar o injustificável. Nessa sociedade racista, as pessoas negras precisam agir como se fossem “clérigos da moral” enquanto a burguesia pode andar por aí com seus helicópteros cheios de drogas, desviar milhões de dinheiros público para a própria família, destilar racismo em TV aberta, ter relação com a morte de Marielle Franco, que nada acontece. A tentativa de assassinar a reputação de Beto, logo após ele ser brutalmente morto, é racista e hipócrita.

Para esse 20N:

Neste 19 de Novembro, véspera do Dia da Consciência Negra, completa-se um ano da morte de Beto. Nos do MRT e Esquerda Diário estaremos na rua no sábado exigindo justiça por Nego Beto. Exigindo o fim das chacinas contra a população negra, denunciando as filas do osso e do lixo, e lutando contra os ataques do governo racista de Bolsonaro e Mourão.

Leia mais em nosso editorial : https://www.esquerdadiario.com.br/C...




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