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1 ano sem Miguel e Geovane Gabriel: o que a burguesia e governos nordestinos reservam à juventude negra?

Na mesma semana em que se completa um ano de luta por justiça da trágica morte do menino Miguel Otávio, mandado para a morte pelos dedos da patroa Sari Corte Real em Recife (PE), a família de Geovane Gabriel em Natal (RN), adolescente assassinado pela Polícia Militar, segue na mesma luta. Duas faces do destino que os governos estaduais do nordeste reservam à juventude negra.

quarta-feira 2 de junho| Edição do dia

Ilustração: Victor Cubaiá

No país de Bolsonaro e Mourão, presidente e vice-presidente cujo racismo não é mistério para ninguém, com declarações escandalosas após cada assassinato, combinadas à própria negação do racismo enquanto opressão existente na sociedade brasileira em outros momentos, os dados mais escandalosos de precariedade da vida da juventude negra estão na região nordestina. Com governos estaduais com narrativas distintas, a estrutura do Estado brasileiro fundado na escravidão, morte e perseguição das massas negras e indígenas, segue plenamente atuante, como demonstram as trágicas mortes de Miguel Otávio no Pernambuco e de Geovane Gabriel no Rio Grande do Norte.

De acordo com dados da OIT do início de 2019, a região Nordeste possui o maior índice de crianças e adolescentes negros trabalhadores do país, com 39,5% nesta situação. Isso se expressa nos faróis, praias ou no preparo de castanhas que deixa crianças em condições de escravidão e com as digitais queimadas no RN. No último relatório de dados publicado pelo IBGE na semana passada, a informalidade chega a 53,3% na região, com taxa de desocupação geral de 18,6%, enquanto entre os jovens nacionalmente chega a 31%. É evidente quem paga as contas da crise capitalista turbinada pela crise pandêmica, pelas medidas de fortalecimento das forças repressivas tomadas pelos governos nordestinos por um lado, e as concessões bilionárias dadas aos empresários por outro. Demonstram qual futuro reservam à juventude negra, independente de sua demagogia.

Miguel Otávio foi mandado para a morte pelas mãos da patroa de Mirtes Renata. A ex-patroa é Sari Corte Real, casada com Sérgio Hacker, ex-prefeito de Tamandaré pelo PSB, segue impune e teve garantidos lugares de destaque para fazer demagogia com seu arrependimento, como quando foi entrevistada no Fantástico da golpista Globo. Enquanto isso, a justiça sequer deu o direito aos advogados de Mirtes Renata a acompanharem todas as etapas do caso. Sérgio Hacker (PSB) empregava Mirtes Renata e sua mãe ilicitamente com registros como funcionárias da prefeitura, uma expressão em pequeno dos negócios realizados pelo PSB que passam impunes. No último sábado, quando mais de cinco mil manifestantes protestavam em Recife, vimos a repressão da polícia militar de Paulo Câmara, não à toa do mesmo partido de Hacker, que arrancou a visão de dois trabalhadores. Paulo Câmara lavou as mãos e buscou dizer que não teria qualquer conexão com os ocorridos, Luciana dos Santos, a vice do PCdoB, logo se apressou em dizer que não havia autorizado a ação, mas logo se fez conhecido que secretários tanto do PSB, quanto do PCdoB, acompanharam a repressão no detalhe por monitoramento em câmeras. Há 20 dias, uma tragédia em Jaboatão escancarou novamente o descaso dos governos, quando uma família foi soterrada pelo deslizamento que matou um pai, uma mãe e dois filhos. Segundo informações do G1, além da tragédia que atingiu esta família, o estado de Pernambuco já contabiliza 102 desabrigados, 36 desalojados, 39 deslizamentos de barreiras em meio às fortes chuvas que atingiram a Região Metropolitana do Recife e a Zona da Mata do estado nos últimos dias. É este o futuro que os governos de Pernambuco e Recife preparam para a juventude e os trabalhadores.

Geovane Gabriel saiu pedalando pelo Bairro do Guarapes para Parnamirim para ver a namorada, foi abordado pela Polícia Militar de Fátima Bezerra (PT) e desapareceu. Com alguns dias de busca por familiares e amigos, seu corpo foi encontrado sem vida e com marcas de tortura. Assim como no brutal assassinato de Miguel Otávio, fomos centenas nas ruas para exigir justiça mesmo em meio à pandemia. Fátima Bezerra fez uma série de acenos demagógicos de que garantiria justiça para a família, e vinte dias depois homenageou a mesma PM que assassinou Geovane Gabriel, herdeira da escravidão, agradecendo pelos “serviços prestados”. Como disse o pai de Geovane Gabriel em manifestação no Guarapes, “eu só quero justiça!” um sentimento compartilhado com milhares de mães, pais, tios, amigos, que tem seus jovens negros arrancados pelo lucro capitalista, pela COVID 19 e pelas balas da polícia. No começo deste ano, Fátima Bezerra fechou uma parceria com o Ministério da Justiça de Bolsonaro, com direito a R$ 14 milhões em equipamentos, cujas balas e força tem destino certo: os jovens das periferias do RN.

De acordo com a Rede de Observatórios da Segurança do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), a polícia da Bahia é a segunda que mais mata em operações policiais no Brasil, atrás apenas da do Rio de Janeiro. E segundo informações disponíveis no G1, o Rio Grande do Norte e Sergipe despontam logo atrás, entre as seis polícias mais assassinas do país. No Ceará de Camilo Santana (PT), o fortalecimento das forças repressivas resultou no motim reacionário do começo de 2020. No ano anterior, o governador havia começado a implementar a militarização das escolas, assim como o governador do Maranhão, Flávio Dino, reconhecido pela priorização da militarização da educação como divulga o próprio site oficial do governo. Todos estes governos estaduais obrigaram o gigantesco exército de trabalhadoras domésticas a seguirem trabalhando durante toda a pandemia, o que foi descrito por Mirtes Renata em entrevista para o livro Mulheres Negras e Marxismo como brincadeira do governo com as vidas, como ficou escancarado, “quem mais está sofrendo nessa pandemia é a gente, não só as empregadas domésticas, mas quem é pobre! Quem é negro!”

O futuro da juventude negra precisará ser arrancado das mãos de Bolsonaro e Mourão, mas sem cair na demagogia dos governadores do nordeste, que ao passo que se prostram como responsáveis contra a pandemia e antirracistas, em cada nova onda da pandemia demonstram com filas de leitos e novas medidas repressivas à serviço do que estão. Como concluiu Carolina Cacau em seu artigo Mulheres negras e o papel da polícia: vidas ceifadas, sonhos destruídos: “Para proteger a vida dos negros, precisamos acabar com esse Estado e com essa classe que nega nosso direito a identidade, a infância e a juventude, que quer em meio à crise nos impor condições ainda mais miseráveis de vida. O pavio da luta de classes começa a queimar novamente no mundo, a fúria negra é explosiva. Nos apoiamos na força das mulheres negras, vítimas da violência que gritam nas ruas: SEM JUSTIÇA, SEM PAZ! Essa não é uma frase de efeito, nem um blefe, mas uma promessa de luta incansável pelo nosso futuro.”




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