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OPINIÃO | 1.910: carne para o regime

Luiz HenriqueProfessor da rede estadual em Resende, RJ

sexta-feira 5 de março | Edição do dia

I

No dia 2 de Março a Fundação Oswaldo Cruz publicou uma sombria nota técnica alertando que o Brasil estava entrando em uma nova fase da pandemia caracterizada, entre outras coisas, pelo fato de que o colapso no sistema de saúde se dará de forma simultânea em todo país. Naquele dia o Brasil já batia o recorde de mais de 1.700 mortes diária pelo COVID, mas hoje, enquanto escrevo, batemos a marca de 1.910 mortos diários.

1.910 mortos por dia.

Uma tragédia.

Uma tragédia?

Um avião comercial modelo 777-300 da Boeing, muito utilizado em viagens internacionais, transporta 368 passageiros. São cinco boeings caindo todo dia só no Brasil. Ou ainda um pouco mais que o Titanic a cada dia. Também pode ser um furacão Katrina nos Estados Unidos, uma erupção vulcânica do El Chicón no México, ou ainda o equivalente a dois terremotos na cordilheira do Indocuche afegã. Escolha o que preferir.

Mas o fato inegável é que 1.910 pessoas, brasileiros, mulheres e homens, negros, índios e brancos - mais mulheres, mais negras, expostas a doença, proporcionalmente mais índios morrendo – são aproximadamente 123 toneladas de gente (curiosamente metade do peso de um Boeing 777 e pouco mais que o dobro do Titanic) sendo levada para os necrotérios e de lá para velórios apressados. O que também é equivalente a pouco mais de um milésimo da exportação de carne do Brasil em Janeiro de 2021, ou ao consumo de carne per capita anual médio de cerca de 1.200 pessoas, equivalente a população de uma cidade como Santiago do Sul em Santa Catarina ou ao de cerca de um décimo dos juízes do Brasil - ou poderíamos dizer que dez dias de morte nessa conjuntura é o equivalente a quantidade de carne que alimenta todos os juízes do Brasil que ninguém elegeu, o que dá na mesma.

Podemos também estender estas contas a outros grupos: dois dias e meio seriam suficientes para alimentar todos os militares do governo (e sabemos que neste caso custaria 14 milhões se fosse picanha), enquanto 6 horas já bastariam para alimentar todos os deputados e mais alguns minutos bastariam para o senado. E para família Bolsonaro? Baseados nos 89 milhões que o planalto gastou com carne em 2020, levando em conta o preço da carne para militar, uns dois anos de mortes bastariam para alimentar o capitão e os que lhe estão próximos.

De fato uma tragédia, mas sabemos que para estes não haverá fome.

II

1.910 corpos inertes, sepultados embaixo da terra. Na terra nasce o capim, que também alimenta o gado, e que se for do agronegócio poderá ir parar na mesa de presidentes, generais, juízes, deputados e senadores, mas cada vez menos na de trabalhadores.

Trabalhadores estes que produzem e operam os aviões da Boeing, que produziram e operaram o Titanic, e que morrem todos os dias no Brasil, no México, nos Estados Unidos e também no Afeganistão. Todos viram carne morta, que volta para a terra, alimenta as plantas que alimentam os animais, ecologia básica de 6º ano do Ensino Fundamental no Brasil. Mas antes de ser ecologia, é também banal, um acontecimento corriqueiro que pouca gente presta a atenção. Então por que se importar?

Porque foi da observação destes detalhes que mulheres e homens, negros, índios e brancos, cada qual a sua maneira - mas sem dúvida todos o fizeram - aprenderam aproveitar melhor o que a terra lhes oferecia e usaram isso para aumentar em números os números: multiplicação de pessoas, de valores, de produtos, de riqueza. Mas que perversidade surge na equação que faz a multiplicação se tornar subtração? Subtração de riqueza, de produtos, de valores e de vidas dos trabalhadores, sempre dos mais pobres, de mulheres, de negros e de índios...

Se é da terra que surge a riqueza, e se conhecemos a sua ecologia, porque ainda existem senadores, deputados, juízes, generais e Bolsonaros?

Subtração da carne de 1.910 trabalhadores todos os dias.

O resultado desta equação é diferente.

Corpos inertes se tornam corpos em movimento, todos os dias.

1.910 trabalhadores em movimento a cada dia, multiplicação de força, de consciência. Basta de gado, basta de capim, nosso alimento é a própria terra, chão batido sujo de suor, sujo de sangue, sujo de lágrimas. Multiplicação de dores, mas também de potências. É preciso olhar para os detalhes para entender a ecologia do ambiente em mutação.

Foi da observação dos detalhes que índios Xokleng introduziram a práticas dos apetês e transformaram o cerrado em floresta amazônica. Também foi da observação dos detalhes trabalhadores russos construíram soviets e transformaram um país atrasado em uma potência.

Mutação, evolução, Revolução. O capim dá lugar ao bosque, o bosque a floresta, não há mais espaço para o gado. Da mesma forma a luta se transforma em revolta que se transforma em revolução, não há mais espaço para Bolsonaro. Nem para juízes, generais, deputados e senadores. Trabalhadores se tornam senhores de si próprios.

“Mas então de quem é a culpa?”

Não, a culpa não é dos trabalhadores.

Mas a culpa também é dos que se aliam aos senhores.




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