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LEI KHOMRI

França: apesar das manobras governamentais, a juventude segue na rua

Novamente milhares de jovens universitários e secundaristas gritaram que “nossa vida vale mais que isso” e se mobilizaram em milhares na França contra a reforma trabalhista de Hollande.

Juan Chingo

Paris | @JuanChingoFT

sábado 19 de março de 2016| Edição do dia

Nossa vida vale mais que isso (“On mieux que ça”) é o slogan que ficou famoso nas redes sociais como um grito de guerra contra a precarização e a falta de futuro da juventude trabalhadora e popular. Outra vez, essa juventude saiu às ruas mais massivamente ainda que na primeira jornada de manifestações do 9 de março.

A manobra governamental rompe definitivamente a unidade sindical...

Na segunda, dia 14, o governo francês apresentou às centrais sindicais, estudantes e patronais uma nova proposta do texto da reforma trabalhista, depois que sua primeira versão cristalizou todas as cóleras sociais acumuladas desde o início do governo Hollande e ameaçou uma explosão social de grande amplitude. Nessa segunda versão, ainda não apresentada no Conselho de Ministros, se mantêm os princípios essenciais desse enorme retrocesso social para os trabalhadores, mas há alguns retoques, em especial nos pontos demandados pela central sindical CFDT, com o objetivo de romper definitivamente todo esforço de unidade sindical e em perspectiva da unidade operário-estudantil. Apesar dessas fortes manobras, que têm dado passagem ao terreno da contrarreforma da CDFT (e sua versão no movimento estudantil, o sindicato amarelo FAGE), a sorte desse novo ataque ainda não está selado como mostraram as ações de ontem da juventude universitária e secundarista em toda a França.

… porém não conseguem tirar a juventude das ruas

Pelo contrário, apesar da promessa governamental de novos subsídios para um setor da juventude na segunda passada, hoje a mobilização dos estudantes universitário e dos liceus foi mais forre que sua participação na jornada de 9/3. Segundo a UNEF, ontem foram 150.000 estudantes que se mobilizaram, 50.000 mais que na primeira ação contra a reforma trabalhista.

Comparada com o pico das mobilizações de dez anos atrás, que fizeram retroceder o governo de direita de Chirac contra o CPE, esses números ainda são muitos menores. O governo se tranquiliza e diz que não há um movimento de massas, porém na realidade segue inquieto.

Diante da demanda de retirada do projeto de lei, o primeiro ministro, Manuel Valls, contestou rapidamente: “Não há nenhuma razão para solicitar a retirada. Estou muito atento às expectativas, aspirações, à raiva, à ansiedade da juventude”. Mas seu discurso não convence. Depois de acalmar sua maioria parlamentar e voltar a normalizar suas relações com os sindicatos reformistas, o governo monitora como leite no fogo essa mobilização estudantil. “A reforma trabalhista não é mais que um pretexto, o mal estar mais geral”, disse uma fonte do executivo.

Também tenta evitar o contágio de outros setores assalariados: pela arte da magia, no dia de ontem e logo depois de seis anos de congelamento, o governo decidiu outorgar um aumento - irrisório, mas um aumento afinal - aos mais de 5 milhões de trabalhadores públicos que tinham previsto uma paralisação geral no próximo dia 22 para exigir suas remunerações. O temor à unidade dos trabalhadores e jovens do setor público e privado plana sobre o governo francês.

O mais importante: o movimento estudantil começa a se estruturar democraticamente

O mais importante da crescente mobilização da juventude é sua rápida estruturação em organismos de auto-organização e coordenação democráticos. As assembleias começam a se generalizar: na Universidade mais avançada, Paris 8, na periferia popular de Paris em Saint Denis, já foram realizadas 4 assembleias, duas por semana de mais de 700 participantes. Por sua vez, há inumeráveis comissões e assembleias menores por cursos. É essa forte organização democrática o que explica a total greve da faculdade decidida pelos estudantes na manhã de ontem, como a forte coluna de Paris 8 na marcha de Paris, um bonito cortejo de mais de 1000 estudantes.

Significativo por sua vez da jornada de ontem, em comparação ao 9 de março, é que “a maionese começa a prender” (usando uma expressão linguística francesa) nas escolas de ensino médio.

Ontem não só houve mais piquete das escolas de ensino médio em toda a França, mas também cortejos de secundáristas em Toulouse, Tours e Paris foram notórios. Tanto na região parisiense não só foram maiores suas colunas, mas havia um novo e temido componente para o regime imperialista francês: os estudantes de ensino médio de vários colégio de banlieues, a periferia pobre e explosiva de Paris. Mais importante ainda, foi realizada nessa região a primeira assembleia de coordenação dos estudantes de ensino médio numa sala da associação, como a primeira reunião de coordenação interuniversitária em uma Universidade. O ponto culminante: nesse fim de semana, se reune a primeira coordenação nacional de estudantes de toda a França na Universidade de Paris 8. Em todos esses avanços, os revolucionários do CCR e da juventude do NPA estamos tendo um papel muito importante.

Contra essa crescente estruturação do movimento há um salto da repressão: várias universidades chaves, como Tolbiac e Sorbonne, Lyon 2, Bordeaux 3, Caen e mais tarde Paris 6 (onde ia ser realizada a coordenação estudantil que teve de ser mudada no último momento para outro lado) foram fechadas por seus reitores para evitar que se realizassem assembleias antes da mobilização.

Usando como pretexto em alguns casos os setores pseudoradicais, que preferem atuar como minorias ativas dando as costas às decisões tomadas em assembleias, ou sem nenhum pretexto, o governo incrementou a repressão e a estigmatização do movimento como ladrões.

Inclusive, alguns meios apresentavam os supostos “vândalos” como “terroristas”, aproveitando o estado de emergência ainda reinante. As ações policiais nessa quinta se multiplicaram em toda a França, como também sua cobertura midiática. A intenção é clássica: deixar de lado o setor mobilizado, cortá-lo da massa dos do ensino médio e dos universitários, da opinião pública, apresentando-o como perigoso.

Essa manobra pode ser contraproducente. Se trata de aproveitar os primeiros êxitos da mobilização para tomar com toda força o trabalho de massificação, a explicação às mais amplas massas do conteúdo dessa reforma e da estruturação democrática do movimento.

Isso é só o começo

Estamos ainda no começo da formação de um grande movimento de massas. No dia 24, dia da apresentação da lei no Conselho de Ministros, foi chamada uma nova ação de rua. E o mais importante, todo mundo ter em mente a jornada de ação "interprofesional" chamada pela CGT e demais sindicatos que são de contestação bem sucedida pode significar um salto qualitativo na luta contra a reforma trabalhista e o governo neoliberal de Hollande. O espectro da unidade operário-estudantil que ameaça a todos os governos franceses desde 1968 está longe de ser dissipada.




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