LAVA-JATO

Como os negros devem se posicionar frente à crise política?

Leticia Parks

Brasília - DF

Daniel Alfonso

São Paulo

terça-feira 8 de março de 2016| Edição do dia

Lava Jato, impeachment....

No artigo “Como a esquerda deve se posicionar frente a operação sobre Lula e o impeachment?”, ficam claras as manobras atuais que fazem o Superior Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Este empresta legitimidade ao sistema Judiciário, ávido em conquistar ímpeto e poder para influenciar a busca de medidas “de cima para baixo” que fechem a crise política pela direita. Justiça é o que menos interessa ao Judiciário – afinal, significaria acabar seus próprios privilégios e conexões políticas.

O Brasil tem a maior população negra fora da África, que desde que se instalou aqui de maneira forçada pelo tráfico negreiro, deu demonstrações audazes de revolta contra as elites governantes. A burguesia brasileira se forjou na repressão aos gritos de liberdade que as negras e negros sempre deram dentro desse país.

O governo do PT foi eleito com compromissos com o movimento negro, que se organizou nas periferias de todo o país com confiança de que esse partido fosse eliminar a profunda desigualdade racial. Em ações muito mais simbólicas do que efetivas, o governo federal do PT reconheceu que há diferenças de oportunidades entre negros e brancos. Na tentativa de acalmar as expectativas de milhões de negros e cooptar lideranças importantes do movimento negro, tratou de implementar políticas específicas para negros, como o Estatuto da Igualdade Racial, a lei de cotas nos concursos e vestibulares nacionais e o próprio Bolsa-família.

O processo de impeachment trás, junto de si, um desejo imenso de uma burguesia de direita de dirigir os próximos passos da crise econômica, fazendo-os de maneira ainda mais drástica e catastrófica do que já faz o próprio PT, o que significa necessariamente retroceder em todas essas conquistas, fruto da mobilização de negras e negros em todo o país. Rechaçar essa manobra reacionária não diz respeito a defender o PT. O que está em jogo é a necessidade de organizar-se de maneira independente a esse partido para dizer o que de fato querem e precisam, negras e negros, para acabar com o racismo estrutural de nosso país.

... e o avanço da direita racista

A direita, porém, não ganhou terreno político à toa. O PT, com o argumento de garantir “governabilidade”, desde os mandatos de Lula, realizou todo e qualquer tipo de aliança política com a direita racista, assim como fez com a direita do latifúndio e homofóbica.
Ao mesmo tempo em que o governo federal do PT, desde Lula, implementou aspectos minoritários de reinvindicações históricas dos negros, permitiu que a direita ganhasse cada vez mais espaço no governo e no regime político. Se no Congresso e nos Ministérios PT se misturava com a direita, os anos do petismo no poder assistiram aumento estrondoso do número de encarcerados, maioria absoluta de negros.
Agora que a situação econômica se agrava como há tempos não acontecia, é essa própria direita que ataca o PT. Ambos setores querem seguir descarregando a crise nas costas dos trabalhadores, e sabemos que os que sentem com mais força é o povo negro. O PT abriu o caminho para a direita racista e não será ele que defenderá as negras e negros dos ataques.

Contra a direita racista! Lutar por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que abra caminho para resolver o drama da população negra!

A direita do impeachment é declaradamente racista. É a direita que aplaude a ação da polícia do Rio de Janeiro quando segrega os negros e os são obrigam a viver sob as botas militares, afastados das praias. É ela quem chama a polícia contra nossos “rolezinhos”. É ela que trata os negros como sardinha na reorganização escolar e rouba sua merenda. É a direita que aplaude as mortes no Carandiru e cada nova chacina que destrói as esperanças de milhões de jovens de periferia.

Essa manobra política busca, portanto, não somente retirar Dilma da Presidência. Não é o sistema Judiciário que irá se colocar contra a corrupção dos políticos burgueses e responder ao anseio de justiça da população. Pois é esse mesmo Judiciário, por exemplo, que dá corpo aos processos legais que fazem da repressão policial uma ferramenta de controle social contra os negros. É esse Judiciário que faz do Brasil o 5° país com maior população carcerária, sendo a maioria absoluta de negros. É esse Judiciário que prendeu Rafael Braga ilegalmente, por ser negro e protestar em Junho de 2013, e que mantém impunes os assassinos de Amarildo (cadê o Amarildo?).

No que diz respeito à questão racial no Brasil, a ala pró impeachment trata de deslegitimar o pouco espaço que os negros conquistaram, pois a agenda política desse setor passa, por um lado, por intensificar os ajustes para manter os lucros capitalistas durante a crise, e por outro, por recobrar uma política governamental de aberta repressão e retrocesso em relação à questão racial.

Os negros sentem há meses o gosto amargo da crise em suas mesas, com os salários se desvalorizando, com as demissões e o aumento dos preços de alimentos. Se locomover também é mais caro, e quem percebe isso primeiro são aqueles que percorrem longas distâncias nas grandes cidades, por vezes sem direito ao vale transporte por ser um trabalhador precário. Os ajustes já implementados pelo governo do PT atacam em primeiro lugar as negras e negros, e cabe a estes, portanto, estar na linha de frente da mobilização por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que abra caminho para resolver sobre os principais temas da nação.

Ao terceirizado cabe decidir sobre o orçamento nacional e as políticas de ajuste; aos familiares dos mortos pela PM cabe decidir sobre as políticas de segurança; os moradores das favelas devem decidir se o Brasil deve continuar a pagar a dívida interna e externa ou se esse dinheiro será aplicado em melhorias dignas a todos que vivem neste país. A organização dessa Assembleia, assim como a força despendida para construí-la, são a melhor maneira de barrar o avanço da direita que sorri com os corpos negros caídos ao chão. Essa demonstração de força, da classe trabalhadora e do povo pobre, é a única que pode dar as soluções de fundo para o drama que a burguesia impõe à vida dos milhões de negras e negros deste país. Para nós, isso se insere no marco da luta por um governo dos trabalhadores, a única forma de resolver de maneira integral e efetiva os problemas do povo negro.




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