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Martes 17 de Septiembre de 2019
02:30 hs.

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TEORIA
Marx e a reinvenção do método de pensar a economia política - Parte II
Gilson Dantas
Brasília

Em quê sentido o método de Marx pensar a economia política é uma novidade? Por que o pensamento comum não bastava para Marx? Por que ele teve que reinventar uma maneira de pensar a realidade que é chamada de materialista dialética?

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Reiterando, como pode ser científico até o fim um método de pensar as coisas que não se desprende do objeto em seu movimento, movimento aberto e fundado em leis tendenciais próprias? E, portanto, sem esta lógica dialética, como prever? E sem prever como falar de ciência?

Todo objeto tem suas leis tendenciais específicas e a sociedade, tomada como objeto de investigação, as possui, se tomada como totalidade. Quando, por alguma razão, se aborda a parte, a “fatia”, o que é necessário, nesta análise, é o alerta permanente de que jamais qualquer explicação parcial deve ser considerada como a explicação do movimento da totalidade.

A sociedade capitalista funciona assentada [não reduzida: assentada, fundada] na exploração do trabalho humano, na extração de horas de trabalho gratuitas. Nenhuma esfera da sociedade ou da cultura, por exemplo, pode ficar fora dessa base, mesmo que obedeça às suas mediações próprias, mesmo que mais ricamente determinada quando tomada como esfera própria, mas nenhuma esfera do capitalismo está fora da lógica do capitalismo (se vista assim, perde o essencial de suas determinações). Todas as esferas se movem, e o sistema, o real “por inteiro” se move, nesses marcos, fundado na contradição que funda as demais, que mantém o objeto [sociedade capitalista] em movimento. Vale dizer: sempre nos marcos da luta de classes, enraizada na extração do trabalho gratuito da massa trabalhadora.

Também por isso o método de pensamento de Marx longe de ser fruto de um sentimento de justiça – é de identidade com os explorados – capta o essencial do movimento da sociedade. Ele partiu do Prometeu acorrentado para descobrir por que Prometeu está acorrentado e, portanto, lutar contra os deuses.

Trata-se de buscar a ideia real do movimento da coisa para intervir sobre o processo real da coisa. Do contrário seria mais ou menos como tentar entender o Titanic fazendo um “recorte” que ignorasse o pessoal da casa de máquinas.
O conflito em Marx não é ideal, de uma ideia versus a realidade. Não é como aqueles que defendem “escola para todos” e pensam o conflito como existindo entre sua ideia [sua demanda justa] e o mundo real, escolar. O conflito em Marx não é esse, entre uma ideia que temos das coisas a priori e as coisas. O conflito está no objeto, na sociedade: em como os homens produzem, sob que relações sociais produzem (de exploração), processo que leva, ao final, à concentração de renda e daí à exclusão escolar. Quem produz a escola não controla a produção da escola [por não controlar os meios de produção]. Assim Marx se apropria e se aproxima do real. Extrai a ideia do processo real. Chega ao problema da parte, da escola, por exemplo, a partir do exame do movimento da totalidade.

O real é soberano, não é governado por uma lógica que lhe foi inoculada
É claro que Marx está indignado com a exploração e a alienação: mas a indignação não substitui a análise [paixão e razão andam juntas], ele não introduz suas ideias prévias no real, antes as busca no real. Ou como diz Bensaid, em Marx o intempestivo, “não há método exterior ao seu objeto”.

Por isso a teoria marxista tem que ser verificada. O real é soberano, é o demiurgo e não a ideia. Uma vez que você investigou longa e especificamente e finalmente apreendeu a dialética daquele objeto em movimento, uma vez que você se dirigiu a ele, investigou, capturou a ideia e leis de movimento daquele objeto [pensemos em Marx nos manuscritos chamados de Grundisse], agora você formula e expõe suas leis [pensemos em O capital de Marx, a exposição lógica e dialética da pesquisa, das descobertas] e ao mesmo tempo você se volta sobre objeto para agir, verificar sua ação, os novos movimentos do objeto; nos marcos do objetivo claro e decidido de transformá-lo. Sua ideia tem poderes agora, mas vai ter que ser demonstrada no real. Se você captou corretamente as determinações daquele objeto em movimento, vai verificar que, por exemplo, o capitalismo tende à concentração de renda, às crises destrutivas necessariamente e só a intervenção ativa do sujeito que move a produção pode ser a saída. Vai das armas da crítica à crítica das armas.
Certamente um outro elemento a se levar em conta no método é que o objeto é captado subjetivamente, por um ser humano; logo, não se trata de uma imagem refletida, uma foto: existe a dialética objetiva do objeto e a dialética subjetiva do investigador [que, no caso do método marxista, nem é “neutro” e nem está “fora” do objeto sociedade humana]. As regularidades dos processos são captadas pelos humanos, não os humanos como um genérico. E sim humanos que, ou são os privilegiados que, por exemplo, naturalizam o sistema, ou são os trabalhadores que, insatisfeitos, oprimidos, querem transformá-lo, revolucioná-lo [e seus aliados]. E neste ponto Marx não tem dúvida: a classe dominante é reacionária, seu único objetivo “investigativo” é perpetuar o sistema como ele é. Mudar apenas para manter como está [Lampedusa]. Por isso a economia oficial morreu há muito tempo em termos de qualquer viés de investigação objetiva até o fim. Não pode ser objetivo quem examina seletivamente o processo, excluindo o essencial, o novo, o que movimenta o real. Por isso a dialética subjetiva de Marx é revolucionária ao contrário, digamos, do método de pensamento dos Delfim Netto.

Marx captura no processo os elementos potenciais de mudança, o sujeito da mudança. A negação inevitável do que existe e sua superação. Os vulgares captam, seletivamente, a positividade do que existe, não sua negação. Marx capta, na totalidade, as sementes da própria superação/destruição do real. Capta as tendências estruturais objetivas da economia capitalista, que embora não levem automaticamente à destruição do sistema, mas impulsionam o sujeito-proletariado, que é quem tem potencial revolucionário de – na condição de sujeito político - impor a superação da economia capitalista, arrancando a economia das mãos do capital.

Elementos como esses e tantos outros Marx desvendou a partir do desvelamento das leis de movimento do sistema. Ele captou um conjunto orgânico completamente entrelaçado por determinações, categorias e momentos que precisam ser articulados mentalmente a partir da contradição fundamental através da qual o sistema se reproduz [extração de trabalho gratuito pela exploração, pela luta de classes].

Na maneira de pensar de Marx, se você muda de objeto, mudam as leis, serão outras as leis de movimento: serão agora determinações próprias deste outro objeto. Serão construídas a partir desse objeto específico. Elas não são construções mentais independentes do objeto, mas a ele correspondentes. Não se trata de Hegel, com uma construção mental onde uma categoria gera outra, que gera outra, que se se auto-procria fora do real, que não passa pelo real para ser validada. O idealista é um fabricante de construções mentais para lidar com o real, esse é seu método. Tomando em um sentido bem amplo, tanto faz Max Weber quanto, digamos, um padre da paroquia, todos eles tentam, em diferentes medidas, adequar a realidade às suas ideias. Embora aqui devamos ter o cuidado de levar em conta a diferença qualitativa entre os dois personagens: o construto de Max Weber captou elementos do real, verdades sociológicas importantes para a burguesia, que gerou forças materiais para sua classe na luta contra o proletariado. Weber, como Keynes e tantos outros pensadores (audaciosos) da ordem, chegaram a entendimentos parciais do real e, por essa via, contribuições teóricas, ainda que nos marcos da sua perspectiva e programa. E por isso se destacaram.

No método de Marx, todas as mediações se desenvolvem num processo da totalidade em movimento: ele não está “recortando” um ou outro elemento do real; o real tem que ser captado em seu sentido, em seu movimento que é o que vai permitir entender cada parte. É muito mais, portanto, do que apenas “ter contato” com a realidade. Se trata, por exemplo, de entender o trabalho humano como demiurgo da sociedade, como gênese e estrutura da realidade social.

Marx expõe categorias construídas a partir de procurar explicar o real. Ora, uma vez que este muda constantemente, elas precisam ser verificadas todo o tempo: o capital dominante hoje é o oligopolista. O método materialista, dialético e histórico implica não ficar na letra de Marx, mas transcendê-lo, partindo de que a sociedade capitalista é histórica. E que toda verificação e investigação precisa se pautar pelo método histórico materialista. O qual, em vez de imaginar que uma “lógica” governa o processo histórico – o que poderia remeter para um viés hegeliano ou não expressamente materialista - trata de desvendar as regularidades do processo orgânico, material; lembrando aqui a indicação do próprio Marx [em carta a Kugelmann de 1868], de que embora fosse dialético não era hegeliano: “A dialética de Hegel é a forma fundamental de toda dialética, mas apenas depois de despida de sua forma mística, e é exatamente isso que distingue o meu método”.

Marx pensador revolucionário

Ao longo da sua vida, o próprio Marx se transcendeu, pesquisando e verificando seu objeto, a formação social capitalista.

Lembremos que ele partiu da rebeldia elementar – em sua condição de admirador sincero de Prometeu: não aceitemos ser servos dos deuses – e chegou à revolução proletária como a chave da emancipação humana, a porta de entrada para a história finalmente “humanizada”. Ou como momento da crítica das armas; ou da prática da teoria.

Seu método de pensamento, portanto, não nasce “isento”, “neutro” ou qualquer outra expressão vazia; ele se identifica com os explorados, os alienados, e vai atrás de respostas [por que isso existe? como superá-lo?] na vida real; por isso vai para a esfera da produção da vida material. Por isso é um método materialista e dialético. E que “toma partido”: está contra os deuses e a favor das criaturas de Prometeu, dos oprimidos. Seu “partido” começa pela rejeição do que existe e procura desvendar o novo que nasce do velho nos marcos das leis de movimento da sociedade [do objeto]. Pura dialética. Ele não busca quaisquer respostas, mas a resposta para aquela pergunta fundamental, da emancipação de uma humanidade alienada de si mesma.

Em suma: a totalidade contraditória em movimento e suas mediações internas, eis o núcleo duro do pensamento marxista. Ele foca o objeto perguntando quais suas mediações, suas categorias de movimento, a contradição do seu movimento [portanto como um objeto aberto]. Não conhece de antemão as regularidades do movimento daquele objeto específico. Ao final da investigação espera tê-las conhecido, espera expor sua lógica interna e verificá-la, inaugurar um processo de permanente verificação, de intervenção para sua transformação [ver Teses sobre Feuerbach, de Marx].

Pensemos o objeto como a sociedade capitalista atual, em movimento contraditório de decadência, de crise econômica rastejante, e em seguida no sujeito proletariado que emerge das entranhas do sistema como única possibilidade do novo. Pensando assim, não ficará difícil perceber o método de pensamento de Marx como a teoria da revolução proletária. Ou a consciência do processo inconsciente da história.

G Dantas
Brasília 13/5/16
PS - Em breve lançamento do livro Marx e o método (Antologia de textos de K Marx), pela ISKRA/Centelha Cultural

 
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