www.esquerdadiario.com.br / Veja online / Newsletter
Esquerda Diário
Esquerda Diário

Miércoles 11 de Diciembre de 2019
08:34 hs.

Twitter Faceboock
POLÊMICA
PSTU e a sociedade dos amigos do golpe
Leandro Lanfredi
São Paulo | @leandrolanfrdi

Identificar os golpistas é fácil. Temer, a Rede Globo, os parlamentares, o judiciário deixaram claro suas intenções e métodos. Com discurso aparentemente diferente, com justas críticas ao governo do PT, muitas das quais compartilhamos e fizemos mais por sua aplicação, houve aqueles que sem ser os golpistas, constituíram uma verdadeira sociedade dos amigos do golpe. Nela participaram várias correntes da esquerda brasileira, mas a mais destacada é o PSTU.

Ver online

A FIESP, a Globo, os tucanos, boa parte da oligarquia política está fortalecida com a derrubada de Dilma. Seu fortalecimento não significa que a classe trabalhadora e a juventude estejam derrotados. Os golpistas se apressam a tomar medidas para tentar derrotá-los, pois seu fortalecimento nas instituições não significa automaticamente um fortalecimento no terreno da luta de classes.

As principais forças em movimento para se enfrentar com este fortalecimento são a juventude, suas ocupações e greves, e setores da classe trabalhadora que começam a se mobilizar para resistir ao golpe e aos ajustes. O desenvolvimento destas tendências depende de identificar inimigos, aliados, e desenvolver decididamente táticas que levem o proletariado a se colocar como um sujeito independente contra os golpistas, ajustadores e este regime do suborno.

Para uma esquerda que se deleitou encontrando heróis no Judiciário e em sua Lava Jato, como o PSTU, os primeiros movimentos do governo Temer tiraram o chão de sob seus pés. Alexandre de Moraes, novo encarregado do ministério da Justiça, autorizou nacionalmente reintegrações de posse sem mandado judicial, apoiado por juízes golpistas e em sua experiência em SP. Disse que terá mão duríssima contra os protestos, e não tolerará ocupações de prédios ou imóveis. Desde seu antigo governo, operou repressão brutal aos secundaristas das Etesps para evacuá-los das escolas.

Faz isso porque é de fundamental importância para Temer derrotar aqueles que hoje são a vanguarda na luta contra os ajustes dos governos, para que seu exemplo não contagie a entrada em cena do movimento operário e seus principais batalhões, capazes de paralisar os principais centros da economia. Enxergar o óbvio avanço da direita não significa dizer que os trabalhadores "estão derrotados", como pensam os morenistas. Justamente porque a relação de forças entre as classes não foi ainda à direita e as forças da classe trabalhadora seguem intactas, é que derrotar os secundaristas de São Paulo constitui parte do plano estratégico desse novo governo, que tem plena consciência de como a juventude pode ser a faísca que incendeia a classe trabalhadora. Como dissemos, o fortalecimento do Judiciário aplaudido pelo PSTU e pelo PSOL está a serviço de deixar mais vulnerável a esquerda e "pacificar a nação", ou seja, impor a ferro o fim das lutas em curso para poder colher os frutos do golpe.

Já antes da consumação do golpe, o PSTU fracassou fragorosamente no teste da independência de classes, patrocinando um "Fora Todos" que começava com o "Fora Dilma" de Bolsonaro, Feliciano e a direita asquerosa do Congresso e da FIESP, que adornava seu acampamento com os cartazes do PSTU. A continuidade da política do PSTU ruma a um fracasso ainda maior. O PSTU aplaude, cada dia mais efusivamente, os resultados do golpe. Não escreve ou organiza uma linha contra a repressão aos secundaristas em São Paulo, se constituem como uma verdadeira sociedade dos amigos do golpe, primeiro pela omissão em combatê-lo, depois por comemorá-lo.

Uma lente muito especial para ver a realidade que distorce não só os golpistas. mas também o PT

Poucas horas após a consumação do golpe institucional no Senado, Eduardo Almeida, um dos principais dirigentes do PSTU, escrevia em sua conta pessoal em uma rede social “O proletariado não está derrotado. Ao contrário, se sente fortalecido com a queda de um governo odiado.” Na sede de seu partido pode ser que este seja o sentimento. Na sede do MBL, do PMDB e nas redações dos grandes jornais com certeza este era o clima . No Brasil real não há derrota, mas apreensão, dúvida como agir. "E agora como derrotamos a direita"? Dúvida esta semeada em primeiro lugar pela inação completa da principal central sindical do país, a CUT. À qual o PSTU apenas agora começa a exigir um "plano de luta à CUT", depois de concluído o plano da direita e sem qualquer denúncia de como estas centrais petistas recusaram opor qualquer resistência ao golpe com os métodos da luta de classes, tendo mais medo da radicalização das bases operárias do que serem atropeladas pela direita. E nesta exigência, deixam um pé de fora caso a CUT denuncie o golpe, não deixando claro se for assim se o PSTU se recusará a frente-única.

Um dia depois desta “análise” do fortalecimento dos trabalhadores com o golpe, com sua filosofia de Polyana segundo a qual toda queda de governo é boa para os trabalhadores (o que já os levou a aplaudir a tomada do poder pelos militares no Egito), chegava a negação da realidade que houve um golpe institucional e negar seus agentes, em texto polêmico com o governismo mas também com todas correntes que se posicionaram contra o golpe, como o MRT, diziam: “A esquerda governista afirma que há um golpe institucional em curso, articulado pela maioria do Congresso, do Judiciário, da Polícia Federal e dos meios de comunicação. Por isso, se mobilizou em torno de slogans como “Não vai ter golpe!”(...)”.

Este texto foi saudado na internet pelo MBL, estes sim golpistas. Para o MBL haver correntes identificadas com a esquerda que defendem teses similares às suas é algo muito positivo, semeia confusão, ajuda a consolidar o golpe. Sem ser golpista é possível ser amigo do golpe e da sociedade de golpistas.

Qual prova oferecem a sua tese de que não houve golpe e que não critica nenhuma destas instituições reacionárias e golpistas? “Basta ver quais foram os métodos de luta do governo e do PT para tentar evitar o tal golpe: a utilização da máquina estatal para distribuição de ministérios, cargos e todo o tipo de favores. A principal política do campo governista para enfrentar um suposto golpe foi, e continua sendo, a de utilizar os métodos de corrupção do Estado burguês”.

Sua prova dos nove que não houve golpe é que o PT é conciliador.

Esta constatação inédita e profunda é incapaz de esconder que o PSTU defendeu uma política que fortaleceu a direita e confundiu os trabalhadores com a demagogia de que o "impeachment é trocar seis por meia dúzia", quando está claro que enquanto o PT abriu o caminho ao fortalecimento da direita, esta direita aplicará golpes ainda mais duros do que vinha aplicando Dilma. Não orientou a que se movesse uma força real contra a direita que o PT tanto concilia derrotando-o nos locais de trabalho e estudo, opondo a vontade de resistir ao golpe de amplos setores da juventude e dos trabalhadores a conciliação de sua direção. Não, esta não era política do PSTU, com suas lentes muito especiais, usam o que deveria ser o ponto de partida para uma política decidida às bases da CUT como ponto final. Grande ou pequena, uma política de seita, para consumo interno e não para influir na realidade, salvo se o objetivo for conseguir aplauso de MBL e consortes, e que gerou questionamento de um amplo setor da juventude e dos trabalhadores que corretamente desconfiavam do golpe apesar de não defenderem o PT.

Voltando à “prova” que não foi golpe porque o PT não resistiu (extrapolando esta mesma lógica 1964 não existiu já que nem Jango nem o PCB moveram um palha). Recorramos a algo infantil para ilustrar o absurdo desta ideia funcional a sua política observadora da realidade para capitular aos golpistas. Pensemos em um conflito físico entre duas crianças em uma escola. Enquanto uma ameaça de bater na outra, esta segunda apela a divindades, às regras da escola, a que “tia” irá aparecer a salva-la, à razão da agressora. E a agressor agride. Posteriormente a estes fatos a criança agredida chega em casa machucada e vai conversar com sua mãe, esta pergunta se ela resistiu, se tentou bater de volta, a criança nega, logo a mãe conclui que não houve agressão por mais que os machucados estejam aparentes.

PSTU: Falo ‘sou contra o impeachment’ mas na verdade o aplaudo entusiasticamente

No mesmo texto polêmico, o PSTU dizia:

“Nós, do PSTU, somos contra o impeachment, não porque o governo não tenha cometido crimes, mas porque esse instrumento é uma maneira de a classe dominante substituir o fusível queimado (no caso, o governo Dilma) que não funciona mais por outro (o de Temer), tão ou mais corrupto que o anterior e que vai continuar atacando nossos direitos.”

Sua política nunca foi contra o impeachment. Pelo contrário. Agitavam “Fora Dilma, Fora Temer, Fora Cunha, Fora Renan, Fora Aécio, Fora Todos!”. Dizíamos que esta política não existia na realidade, que o único movimento real era “Fora Dilma” e pelas mãos do congresso, do MBL, etc. Uma política que sempre limpava a barra da direita que nunca era mencionada com alguma importância em seus artigos. A nova agitação, na capa de seu novo jornal, “esquece” Aécio e comemora o resultado do afastamento (mas não eram contrários?, claro que não!).Eduardo Almeida, dirigente do PSTU, ainda escreve que "Se o governo petista caiu, não foi pela força da burguesia". É a continuidade da narrativa de Zé Maria e de diversos redatores do Opinião Socialista, que escrevem literalmente que "esse impeachment é do povo pobre e da classe trabalhadora". Entusiastas (inconscientes?) do fortalecimento da direita.

“Dilma rodou”. Se isto não é aplaudir os fatos de como “rodou”, não se sabe o que é.

Uma vez mais sobre sujeito, programa e estratégia

Todos trabalhadores e jovens com algum nível de consciência política viram com que métodos e sujeitos Dilma foi derrubada, seu programa (tal como o de Dilma) não tinham nada a ver com a defesa dos interesses da classe trabalhadora. Muito pelo contrário. Eram claros inimigos e suas medidas de ataque ainda mais duros que os de Dilma já se fazem sentir. São mais duros os ataques e não "para continuar atacando nossos direitos". Igualando o diferente para comodamente, com discurso vermelho ficar em casa (trata-se crescentemente de um desafio encontrar a militância do PSTU inclusive em atos da juventude paulista). Os ataques maiores e diferentes, já se mostraram com a repressão ilegal em SP agora tornada norma nacional pelo ministro da justiça, tucano, do golpista Temer. A constituição que dizem defender era interpretada e rasgada para fins do golpe. Alertamos sistematicamente que isto cedo ou tarde se voltaria contra a classe trabalhadora. Não demorou com a inovação sobre as “reintegrações de posse” sem consulta à justiça. Prometem ataques maiores.

Uma boa parte da esquerda brasileira não quis ver isto. Aplaudia a Lava Jato. Dizia, como fazia o MES de Luciana Genro que a Lava Jato era uma “revolução política” que o único golpe em curso era a tentativa de freá-la (posição compartilhada com o arqui-direitista Merval Pereira d’O Globo). Da maioria do PSOL a esta corrente, chegando ao PSTU, todos se uniam para exigir “queremos Lava Jato até o final”. Como se fosse possível separar seus objetivos (pró-imperialistas, ignorados por esta esquerda), seus métodos (autoritários) de objetivos ‘nobres”, supostamente de combate à corrupção. É uma posição de princípio opor-se a todo e qualquer fortalecimento de instituições repressivas do Estado pois sempre se voltarão contra os trabalhadores. Mas a esta esquerda não importam princípios, a ela trata-se de buscar estar junto de alguma corrente anti-governista não importa se junto da FIESP e ajudando (ou no mínimo não combatendo os métodos que agora se voltam contra os secundaristas).

Outras correntes foram mais longe do que aplaudir a Lava Jato. Não aplaudiram só um dos instrumentos chave do golpe institucional e de fortalecimento da justiça e forças repressivas brasileiras, como diretamente se postaram de “neutras” sobre o impeachment evoluindo a aplaudir seus resultados. Este foi o caso do PSTU como já mostramos.

Seu programa segue sendo o de "eleições gerais". Um expediente que toda grande mídia imperialista concorda. A Folha também. Marina então, a líder das pesquisas, nem falar. Porque a burguesia gosta desta tese esgrimida pelo PSTU, MES/PSOL e outros? Porque pode servir para substituir Temer se este enfrentar maiores dificuldades por um outro governo ajustador, agora com a credibilidade das urnas.

Um programa funcional a consolidar uma correlação de forças mais favorável aos golpistas e seus ajustes. O PSTU aprofunda-se dia a dia em um "marxismo" sem sujeito já que as ações progressistas para eles podem ser tomadas pelo STF, pelo Parlamento, com um programa funcional aos ajustes, que não questiona um átomo deste regime político brasileiro do suborno. A estratégia de um marxismo, sem sujeito e com um programa como este? Não me alcança decodificar. Me faltam as lentes especiais que seus articulistas usam.

No mundo real há um sujeito tomando as ruas e suas escolas e faculdades. No Opinião Socialista, jornal desta corrente, este sujeito mal existe.

Ele é a juventude e um setor dos trabalhadores da educação. Desde aí, com sua força, pode-se enfrentar os golpistas e seus ajuste. Estas lutas podem ser coordenadas e construir uma greve geral da educação como força viva para arrancar as burocracias sindicais de seu imobilismo e erguer a classe trabalhadora brasileira. Não para que "volte Dilma" como quer o PT, ou que entre Aécio ou Marina como quer o PSTU, o MES e outros desta sociedade dos amigos do golpe, mas para desenvolver a contestação a todo este podre regime, lutando por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana. Este programa "democrático radical" de uma nova Constituinte que questione todo o regime político burguês - e não tente relegitimá-lo, como farão as eleições do PSTU - é a maneira de ,em base à mobilização e enfrentando a democracia dos ricos, lutarmos para que a classe trabalhadora e a juventude avance a nossa perspectiva estratégica de um governo dos trabalhadores que rompa com o capitalismo e o imperialismo.

 
Izquierda Diario
Redes sociais
/ esquerdadiario
@EsquerdaDiario
contato@esquerdadiario.com.br
www.esquerdadiario.com.br / Avisos e notícias em seu e-mail clique aqui