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Martes 24 de Septiembre de 2019
08:58 hs.

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OPINIÃO
"Vai Juventude, fazer História nessa vida"
Guilherme K

Parece que a minha geração cresceu em um mundo cujo horizonte de mudança se limitava às nossas mudanças íntimas, de cada um, cada um mudando ao seu jeito, à sua música. A única luta que nos reservaram foi a luta pela ascensão social e a liberdade individual. Aí veio Junho de 2013 e varreu toda essa ideologia liberal para baixo da mesa.

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Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
— Ó vida futura! nós te criaremos

Drummond, Mundo Grande

A sensação de que a história está ao alcance de nossas mãos nunca foi tão grande em nossa geração como nos dias de hoje. Eu, assim como muitos jovens de vinte e tantos anos no Brasil, cresci ouvindo as narrativas das heróicas lutas contra a ditadura militar e pensava como hoje as coisas haviam mudado e agora já não há um “inimigo em comum” para fazer história como eles fizeram. Parece que a minha geração cresceu em um mundo cujo horizonte de mudança se limitava às nossas mudanças íntimas, de cada um, cada um mudando ao seu jeito, à sua música. A única luta que nos reservaram foi a luta pela ascensão social e a liberdade individual.

Aí veio Junho de 2013 e varreu toda essa ideologia liberal para baixo da mesa. Desde 2011, na verdade, a palavra “revolução” voltava ao imaginário da juventude mundial e as mobilizações no Chile, em Wall Street, no norte da África (com a primavera árabe como exemplo mais forte disso), nas praças de Madrid e em tantos outros lugares criaram um fôlego de vida que solaparam terra abaixo o discurso de fim da história. Parece que o sistema capitalista, antes inabalável no conto de carochinha da nossa formação, abriu uma brecha e disse: “vai, juventude, fazer história nessa vida”. Sinto, assim como muitos que saíram às ruas em 2013, que agora é a hora e a vez da juventude transviada.

Mas ao mesmo tempo a sensação de impotência diante de tantos acontecimentos dinâmicos também é imensa. Quantos de nós não assistimos horrorizados os atos coxinhas indignados com a intolerância e o mimo extremo? Quantos de nós não nos revoltamos com as manipulações das famílias Marinho, Frias e Mesquitas sem saber direito o que fazer? Quantos de nós não nos abalamos com a arbitrariedade e seletividade da justiça corrupta que julga casos de triplex mais rápido do que chacinas nas periferias? Quantos de nós não olhamos para o que a polícia faz todos os dias nos morros de nosso Brasil, o ódio sobe à boca e não podemos fazer nada? Quantos de nós não se sente totalmente paralisado ao ver um homossexual apanhando na avenida paulista? Quantos de nós não se rebela com a diarréia ideológica reproduzida pelos bolsominions nas redes sociais?

Acho que a angústia da impotência se deve ao fato de terem martelado durante anos nas nossas cabeças a ideia de que sozinhos podemos decidir o rumo da nossa vida, depende apenas de nós, da nossa vontade individual. Mas quando nos deparamos com a realidade do mundo, descobrimos que qualquer mudança efetiva será feita não por cada um, nem pela soma de cada um, mas por um corpo coletivo que golpeará com um só punho todo um sistema de exploração e opressão que ainda persiste.

A geração anterior à nossa ia às ruas batendo no peito com orgulho da estrela do PT. Na época, ser do PT era ser radical, subversivo e contestador. Hoje é institucionalizado e antigo. Hoje andar nas ruas com a estrela do PT é sinônimo de derrota por um lado e ilusão perdida por outro. A nossa geração tem a experiência única de ter despertado para a política não quando o PT era de esquerda, mas com o PT ajustando, aliado da Katia Abreu, Odebrecht, Maluf, Collor e tantos outros. Despertamos para a política com a consciência de que a via de transformação do mundo não vai se dar pelo caminho trilhado por Lula e seus parceiros, o caminho do mal menor e da miséria do possível. Nós mesmos devemos construir os tijolos de uma estrada que nos levará a outro destino - o destino da transformação radical.

Para isso é preciso compreender o presente, mesmo parecendo muito confuso. Enquanto a grande mídia quer apagar Junho da história, dizendo que os atos da direita de hoje são os maiores da história do país, os petistas de toda a sorte buscam um único vetor para Junho, como se o desdobramento direto de Junho fora única e exclusivamente o surgimento dessa direita intolerante, branca e de classe média. Mas se negam a enxergar o maior ciclo de greves da última década, a heróica greve dos garis do RJ, dos rodoviários de Porto Alegre, dos professores do Paraná, dos secundaristas de SP e Goiás, da enorme politização que vemos todos os dias eletrizando as capitais do nosso país. A eles dizemos, tirem as mãos de Junho! Junho foi criado por nós e a nós pertence!

Em meio a tanta coisa, qual a alternativa?

Ainda na angústia da impotência, parece que as referências à esquerda do PT também ainda estão aquém de satisfazer nossas expectativas, que são muitas. Queremos abraçar o mundo e o que a esquerda nos oferece é mais do mesmo com uma roupagem nova, amarela e moderada. Quando pensamos no que o PSOL representa, a ideia de revolução e de enfrentamento com a burguesia logo é substituída por uma transformação gradual, paulatina, pouco a pouco, ao sabor venezuelano de um socialismo com patrões. Acontece que os nossos sonhos não cabem no sol de mais um reformismo sem reformas, de mais uma promessa grega com cheiro de gás lacrimogênico.

A situação da juventude, dos trabalhadores, dos desempregados, dos negros, das mulheres, dos LGBT’s e de todos os setores marginalizados do nosso capitalismo dependente é uma situação de urgência secular. Há séculos vivemos transformações que não mudam substancialmente a nossa sociedade. Para isso precisamos nos preparar para uma revolução, precisamos de uma juventude que pensa e atua com o intuito de revolucionar a vida por inteiro.

Outras organizações, vermelhas nas palavras, mas bastante perdidas nas rotinas do sindicalismo diário, tampouco oferecem à juventude uma alternativa de se organizar coletivamente. Não queremos eleições gerais, como o PSTU propõe, muito menos se colar à direita reacionária com esse Fora Todos!; queremos se ligar aos trabalhadores da MABE, da GM, dos professores do RJ, dos secundaristas de SP, dos rodoviários de Porto Alegre e de tantos outros lutadores que iluminam o caminho com seus exemplos de luta. Se jogando de corpo e alma em cada uma dessas greves e lutas, mostraremos como somos capazes de resolver os problemas do país, políticos e econômicos. Daí sai uma alternativa real.

Paixão revolucionária

Entre a angústia da impotência e essa enorme vontade de mudar, é preciso se apaixonar. Hegel (e não Engels) disse uma vez que nada grande no mundo foi feito sem paixão. Ouvi outro dia de uma amiga que parece que a esquerda perdeu a humanidade. Tenho certeza que não serão os Kim Kataguiri da vida que trarão a esperança na humanidade novamente, muito menos a velha ladainha da UJS e seus compatriotas governistas. Apenas nós podemos fazer isso, a juventude de Junho, uma juventude que, junto aos trabalhadores, pode resgatar o que há de mais grandioso na história da humanidade para a nossa realidade cotidiana, para nossas salas de aula, locais de trabalho, conversas de bar, confissões de amor, posts no facebook, frases do twitter…

É inundando a vida de paixão pela revolução que ela passa a ser algo um pouco mais palpável, viva e certa. Queremos uma juventude que não se contenta com o ‘script’ da esquerda rotineira e domesticada, queremos uma juventude que vá para além do ordinário, que incendeie as universidades, escolas e fábricas como em maio de 68, que faça valer a pena a frase de Fernando Pessoa, estampada na camiseta de um secundarista de SP: “carrego em mim todos os sonhos do mundo”

A única maneira de quebrar essa angústia da impotência é se organizando conscientemente. A cada dia que passa, aquela frase pixada em muros pelas cidades Brasil afora se torna cada vez mais verdadeira: "ou você se organiza, ou é organizado por alguém". Trotsky, em sua carta à juventude, faz um alerta necessário que diz muito sobre os tempos que vivemos: “O mais contagiante entusiasmo rapidamente esfria-se ou evapora se não encontra uma clara compreensão das leis do desenvolvimento histórico. Freqüentemente, observamos como os jovens entusiastas, ao dar uma cabeçada na parede convertem-se em sábios oportunistas; como ultra-esquerdistas desenganados passam em curto tempo a ser burocratas conservadores, assim como pessoas fora da lei se corrigem e se convertem em excelentes policiais. Adquirir conhecimento e experiência e ao mesmo tempo não dissipar o espirito lutador, o autosacrifício revolucionário e a disposição de ir até o final, esta é a tarefa da educação e da auto-educação da juventude revolucionária”.

Estudar, se educar, lutar e se organizar. As tarefas são muitas, porém grandiosas. É apenas na aposta da revolução que no futuro olharemos para trás e, diferentemente dos nossos pais, não sairemos ressentidos e conservadores, mas certos de que fizemos a coisa certa.

Dia 2 de Abril vai haver, em SP, o lançamento de uma nova juventude anticapitalista e revolucionária. Faço um chamado a todos os jovens que assistem alarmados a situação em que nos encontramos, a participar dessa nova juventude, a se organizar coletivamente em um projeto que vai para além da miséria do possível. Em Porto Alegre vamos fazer essa mesma discussão no dia 9 de Abril.

 
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