www.esquerdadiario.com.br / Veja online / Newsletter
Esquerda Diário
Esquerda Diário
http://issuu.com/vanessa.vlmre/docs/edimpresso_4a500e2d212a56
Twitter Faceboock
Ideias de Esquerda
[Trótski] O caso do camarada Riazanov
Leon Trótski

Reproduzimos a tradução do artigo escrito por Leon Trótski em 08 de março de 1931, como parte das iniciativas relacionadas à publicação, pelas Edições Iskra da biografia de Marx e Engels, escrita por David Riazanov.

Ver online

Este escrito foi publicado originalmente no Centro de Estudios, Investigaciones y Publicaciones - Leon Trotsky (CEIP - Leon Trotsky), podendo ser encontrado aqui.

No momento da redação destas linhas, não sabemos nada sobre a expulsão de Riazanov do partido, exceto pelos informes dos relatórios oficiais da TASS [agência de imprensa soviética]. Riazanov foi expulso do partido, não por ter divergências com a chamada linha geral, mas sim por “traição” ao mesmo. Riazanov é acusado - nada mais, nada menos - de ter conspirado com os mencheviques e social-revolucionários que estavam ao lado dos conspiradores da burguesia industrial. Essa é a versão do comunicado oficial. O que não fica claro, à primeira vista, é que Riazanov não tenha estado envolvido em nada além de uma expulsão do partido. Por que não foi preso e denunciado diante do Tribunal Supremo por conspirar contra a ditadura do proletariado? Tal pergunta deve ser feita por toda pessoa que pensa, inclusive aquelas pessoas que não o conhecem. Os últimos comunicados informam que Krilenko o menciona em sua acusação. Será para que o acusem amanhã?

Os mencheviques e social-revolucionários representam partidos que se propõem a restaurar o capitalismo. Se diferenciam de outros partidos que estão a favor da restauração capitalista pelo fato de que esperam dar ao regime burguês russo formas “democráticas”. Nesses partidos existem fortes correntes que consideram que, na Rússia, qualquer regime, independentemente da forma política que assuma, seria mais progressista do que o regime bolchevique. A posição dos mencheviques e social-revolucionários é contrarrevolucionária no sentido mais preciso e objetivo da palavra, isto é, no sentido de classe. Esta posição só pode conduzir a tentativas de aproveitar o descontentamento das massas para um levantamento social. A atividade dos mencheviques e social democratas se reduz a preparar tal levantamento. Se exclui a existência de frentes de mencheviques e social democratas contra a burguesia industrial? De forma alguma. A política da social-democracia a nível mundial se baseia na ideia de uma coalizão com a burguesia contra a “reação” e o proletariado revolucionário. Em 1917, a política dos mencheviques e social-revolucionários se baseia totalmente no princípio da coalizão com a burguesia liberal, tanto republicana como monárquica. Os partidos que consideram que a única saída possível para a Rússia é um retorno ao regime burguês não podem menos do que formar um bloco com a burguesia. Esta última não pode negar apoio, incluindo financeiro, por parte de seus colaboradores democráticos. Nesses marcos tudo fica claro, pois emana da própria natureza das coisas.

Mas, como poderia Riazanov participar da conspiração menchevique? Aqui nos vemos confrontados com um enigma óbvio.

Quando Sirtsov foi acusado de “jogo duplo”, todos os operários conscientes deveriam ter se perguntado: Como poderia um velho bolchevique que, não muito tempo atrás, foi nomeado pelo Comitê Central ao cargo de presidente do Conselho de Comissários do Povo, converter-se repentinamente no defensor ilegal de opiniões que rechaçou e condenou oficialmente? A partir deste fato, só podemos estabelecer a extrema duplicidade do regime stalinista, no qual as verdadeiras opiniões dos membros do governo são estabelecidas unicamente pela intervenção da GPU.

Mas, no caso Sirtsov, somente se tratava de um conflito entre os centristas e a ala direita do partido, e nada mais. O caso Riazanov é incomparavelmente mais significativo e impressionante. Toda a atividade de Riazanov se manifestava no terreno das ideias, dos livros, das publicações, e só por isso que estava sob o exame constante de centenas de milhares de leitores em todo o mundo.

Finalmente, e mais importante, Riazanov é acusado, não de simpatizar com o desvio da ala direita do partido, mas de participar de uma conspiração contrarrevolucionária.

Não duvidamos por um instante de que muitos membros do Partido Comunista da União Soviética, teóricos e práticos da linha geral, são mencheviques sem sabê-lo; que muitos ex mencheviques, que mudaram seus nomes mas não sua essência, ocupam com êxito os cargos mais responsáveis (comissários do povo, embaixadores etc.); e que, dentro dos marcos do PCUS, os agentes diretos dos mencheviques, junto a Bessedovskis, Agabekovs e outros elementos corrompidos e desmoralizados, não ocupam um lugar secundário. O regime stalinista é o criador de todo tipo de germens e da decomposição dentro do partido. Mas não podemos incluir o “caso Riazanov” nesses marcos. Riazanov não é um arrivista, um aventureiro, um Bessedovski ou qualquer tipo de agente dos mencheviques. Sua linha de desenvolvimento pode ser traçada ano a ano, de acordo com fatos e documentos, artigos e livros. Nele, temos um homem que participou do movimento revolucionário durante mais de 40 anos e todas as etapas de sua atividade entraram, de uma forma ou outra, na história do partido operário. Riazanov teve sérias divergências com o partido em distintos períodos, incluindo nos tempos de Lênin, ou melhor, especialmente naqueles tempos, quando participava ativamente na formulação cotidiana da política partidária. Em um de seus discursos, Lênin falou diretamente do lado forte de Riazanov, assim como de seu lado débil. Lênin não considerava Riazanov como um político. Quando falava de seu lado forte, tinha em conta seu idealismo, sua profunda devoção pela doutrina marxista, sua erudição excepcional, sua honestidade de princípios, sua intransigência para defender a herança de Marx e Engels. É precisamente por isso que o partido colocou Riazanov na cabeça do Instituto Marx-Engels, que ele mesmo havia criado. Seu trabalho tinha importância internacional, não somente desde uma perspectiva histórico-científica, mas também desde um ponto de vista revolucionário e político. O marxismo é inconcebível se não se aceita a ditadura revolucionária do proletariado. O menchevismo é a refutação democrático-burguesa dessa ditadura. Ao defender o marxismo contra o revisionismo, Riazanov conduziu, através de toda sua atividade, uma luta contra a socialdemocracia e, consequentemente, contra os mencheviques russos. Como se pode, então, reconciliar a posição principista de Riazanov com sua participação na conspiração menchevique? Não há uma resposta para esta pergunta. E pensamos que não pode havê-la.

Estamos totalmente seguros de que Riazanov não participou de conspiração alguma. Mas, neste caso, de onde surge a acusação? Se foi inventada, então, por que e com qual fim?

A isso, somente podemos dar explicações hipotéticas, baseadas, no entanto, em um conhecimento suficientemente adequado das pessoas e das circunstâncias. Também usaremos a lógica política e da psicologia revolucionária, as quais não podem ser abolidas pelas resoluções da TASS.

O camarada Riazanov dirigiu uma vasta instituição científica. Necessitou da colaboração de um pessoal qualificado, gente introduzida no marxismo, na história do movimento revolucionário, nos problemas da luta de classes, e pessoas que sabiam línguas estrangeiras. Os bolcheviques que têm essas qualidades ocupam, quase sempre, cargos administrativos de responsabilidade e não estão disponíveis para uma instituição científica. Por outro lado, existem entre os mencheviques muitos políticos ociosos que se retiraram da luta, ou que, no mínimo, pretenderam isso.

No campo da pesquisa história, comentários, anotações, traduções e correções importantes etc, o camarada Riazanov confiava até certo ponto neste tipo de menchevique aposentado. Eles desempenharam no instituto quase o mesmo papel que os engenheiros burgueses desempenharam na Comissão de Planejamento Estatal e em outros órgãos econômicos. Como regra geral, um comunista que dirige qualquer instituição defende “seus” especialistas e, às vezes, inclusive, até dos oficiais diretos. O exemplo que melhor ilustra isso é o do ex-presidente da Comissão de Planejamento Estatal e membro do Comitê Central, Krshishanovski, quem, durante muitos anos, espumando pela boca, defendeu programas mínimos e os planos de seus subordinados saboteadores, contra a Oposição.

O diretor do Instituto Marx-Engels se sentiu obrigado a assumir a defesa de seus colaboradores mencheviques quando estes se viram ameaçados de prisão e deportação. Este papel de defensor, que nem sempre terminava com êxito, começou a ser praticado ontem. Todo mundo, incluindo Lênin, sabia disso; alguns riam disso, entendendo perfeitamente bem os interesses “administrativos” que guiavam Riazanov.

Sem dúvida, alguns colaboradores mencheviques, a maioria talvez, utilizaram o instituto para esconder seu trabalho conspirativo (ocultando arquivos e documentos; mantendo correspondência e contato com o estrangeiro etc). Pode-se pensar que Riazanov nunca foi muito atento às advertências do partido, e que mostrou excessiva benevolência para com seus pérfidos colaboradores. Mas acreditamos que essa é a acusação máxima que se pode fazer contra o camarada. Os livros editados por Riazanov estão diante dos olhos de todo mundo: não há nem menchevismo nem sabotagem neles, diferente dos planos econômicos de Stalin-Krshishanovski.

Mas se aceitarmos o fato de que o erro de Riazanov não vai além da proteção crédula dos especialistas mencheviques, então de onde vem a acusação? Sabemos pela experiência recente que a GPU stalinista é capaz de enviar um oficial de Wrangel para as fileiras dos revolucionários irrepreensíveis. Menshinski e Iagoda não hesitariam um instante em atribuir algum crime a Riazanov assim que fossem ordenados a fazê-lo. Mas quem o ordenou? A quem serviria? Quem causou este escândalo internacional em torno do nome de Riazanov?

Precisamente nesse sentido podemos dar explicações determinadas por todas as circunstâncias. Nos últimos anos, Riazanov havia se retirado da política. Dessa forma, ele compartilhou o destino de muitos ex-membros do partido, que, desmoralizados, abandonaram a vida interna do partido e se trancaram no trabalho econômico ou cultural. Somente essa renúncia permitiu a Riazanov proteger seu instituto contra a devastação de todo o período pós-leninista. Mas, no último ano, tornou-se impossível manter essa posição. A vida partidária, e especialmente depois do XVI Congresso, tornou-se um teste constante de lealdade ao único líder. Em cada unidade há agora novos agentes do plebiscito que em cada ocasião perguntam aos hesitantes e indecisos: Você considera Stalin um líder infalível, um grande teórico, um clássico do marxismo? Está disposto a jurar fidelidade ao líder do partido Stalin, no novo ano? Quanto menos o partido demonstrar sua capacidade de se controlar por meio da luta ideológica, mais a burocracia precisará controlar o partido com a ajuda de agentes provocadores.

Por muitos anos Ryazanov foi capaz de manter um silêncio muito prudente - demasiado - sobre toda uma série de questões candentes. Mas Riazanov era organicamente incapaz de ser covarde, de contar chavões. Qualquer demonstração ostensiva de lealdade era repugnante para ele. Pode-se imaginar que, nas reuniões do instituto, ele frequentemente se enfurecesse contra os jovens corrompidos, aquela classe invulnerável de jovens professores que geralmente entendem muito pouco de marxismo, mas transbordam de falsidade e informação. Sem dúvida, esse tipo de camarilha interna teve por muito tempo seu candidato ao cargo de diretor do instituto e, o que é ainda mais importante, suas conexões com a GPU e o secretariado do Comitê Central. Se Riazanov tivesse aludido de alguma forma, mesmo que só em palavras, ao fato de que Marx e Engels não eram nada mais do que os batedores de Stalin, então todos os estratagemas desses jovens inescrupulosos teriam desmoronado e nenhum Krilenko ousaria reclamar contra eles Riazanov por sua benevolência para com os tradutores mencheviques. Mas Riazanov não aceitou isso. Quanto ao secretariado geral, não pôde fazer grandes concessões.

Tendo adquirido o poder do aparato, Stalin se sente internamente mais fraco do que nunca. Ele conhece muito bem a si mesmo e é por isso que teme sua própria posição. Ele necessita que confirmem diariamente o seu papel de ditador. O regime do plebiscito é implacável: não aceita dúvidas, exige um reconhecimento entusiástico e perpétuo. É por isso que chegou a vez de Riazanov. Se Bukharin e Rikov foram vítimas de sua "plataforma", e é verdade que renunciaram duas ou três vezes, Riazanov foi vítima de sua honestidade pessoal. O velho revolucionário disse a si mesmo: servir de boca fechada tudo bem; ser um lacaio entusiasmado, impossível. É por isso que Riazanov caiu sob a justiça do partido Iaroslavski. Iagoda forneceu então os elementos da acusação. Em conclusão, Ryazanov foi declarado traidor do partido e agente da contrarrevolução.

No Partido Comunista da União Soviética e nos partidos orientais do Komintern, há muitos que observam com consternação as atividades da burocracia stalinista. Mas eles justificam sua passividade dizendo:

"O que pode ser feito? É preciso ficar de boca fechada para não abalar os alicerces da ditadura." Essa posição não é só covarde, mas também, cega. O aparato oficial do partido, em vez de ser o fundamento da ditadura, torna-se cada vez mais um instrumento para sua desintegração. Este processo não pode se manter sob o silêncio. Explosões internas estão acontecendo com frequência cada vez maior e de forma mais ameaçadora. A luta contra o regime stalinista é a luta pelos fundamentos marxistas de uma política proletária e não pode ser alcançada se não houver democracia partidária. O regime plebiscitário de Stalin não pode, por sua própria natureza, ser duradouro. Portanto, para que não seja eliminado pelos inimigos de classe, é indispensável liquidá-lo com os esforços dos elementos avançados da Internacional Comunista. Esta é a lição do "caso Riazanov”!

Veja também: Um livro imprescindível sobre Marx e Engels, por Christian Castillo e Juan Dal Maso

Tradução de Vanessa Dias.

 
Izquierda Diario
Redes sociais
/ esquerdadiario
@EsquerdaDiario
[email protected]
www.esquerdadiario.com.br / Avisos e notícias em seu e-mail clique aqui