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Martes 7 de Julio de 2020
02:04 hs.

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INTERNACIONAL
O que significa o acordo entre Estados Unidos e Irã
Claudia Cinatti
Buenos Aires | @ClaudiaCinatti
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No dia 2 de abril o G5+1 (as potências ocidentais mais a Rússia e a China), liderado pelos Estados Unidos chegou a um acordo preliminar com o Irã sobre o programa nuclear da República Islâmica, que deverá ser fechado em junho deste ano. Este é um passo importante para a estratégia de governo de Obama que necessidade da cooperação do regime iraniano para combater o Estado Islâmico no Iraque e na Síria e os talibãs no Afeganistão. O restabelecimento de relações entre Estados Unidos e Irã, suspendidas desde 1979, é fortemente resistido pela Arábia Saudita, Israel e Turquia, e já está produzindo um emaranhado no sistema de alianças no convulsionado Oriente Médio.

Fora do prazo previsto o chefe da diplomacia norte americana, John Kerry, à frente do G5+1 colocava um acordo com o regime iraniano sobre o programa nuclear de Teherã. Mesmo que não se conheçam ainda os detalhes do acordo que adquirirá forma definitiva em junho deste ano, o que já se sabe é que o Irã reduzirá em dois terços sua atividade nuclear e abrirá suas instalações à inspeção internacional, submetendo-se a esse controle por um prazo que está entre 10 e 15 anos. Em troca, as potências ocidentais levantarão as sanções que pesam sobre o Irã e que afetaram seriamente sua economia, reduzindo sua capacidade de produção de petróleo e gás.

Aos estados unidos se atribuirá o triunfo de ter distanciado a possibilidade de que o Irã se desfaça de armamentos militares pelo menos durante a próxima década. O regime iraniano deverá vendê-lo no mercado doméstico como uma legitimação de seu programa nuclear frente à comunidade internacional e como a via régia para liberar-se das sanções econômicas e iniciar um curso de investimento e crescimento.

Mas o significado do acordo excede ante o programa nuclear e fala muito dos conflitos regionais e dos dilemas da política norte-americana. Obama assumiu a presidência dos Estado Unidos com o objetivo de acabar com as duas experiências falidas da presidência de Bush, a ocupação do Iraque e Afeganistão, e poder reorientar dessa maneira a política exterior a outros ponto em que se encontra o interesse nacional imperialista, sobretudo no Pacífico Asiático onde os Estados Unidos visam recuperar a posição dos aliados (Japão, Coréia do Sul) frente ao avanço da China.

Desse ponto de vista, sua política exterior é falida. Terminará seu segundo mandato com os Estados Unidos participando de outra guerra no Iraque e Síria (e talvez na Líbia e/ou Iêmen) contra o Estado Islâmico e seus grupos afins, um inimigo advindo das mesmas condições criadas pela ocupação norte-americana do Iraque e alimentado pelo reacionário que tomou a situação com a derrota dos processos da Primavera Árabe.

Este é o marco para o giro pragmático do governo de Obama que priorizou acelerar um acordo com o regime iraniano ao redor de um programa nuclear. Os EUA necessitam de cooperação com o Irã para combater o Estado Islâmico (EI) e buscar restabelecer algum semblante de estabilidade no Iraque (e mais em geral manter sob controle as minores shiitas ativas em outros países), e assim, para avançar na retirada de tropas do Afeganistão, o que está se mostrando cada vez mais dificultoso frente à resistência persistente dos talibãs.

Com este acordo, os Estado Unidos admitem que não há para eles correlação de forças para destruir o programa nuclear do Irã, o que implicaria abrir outra frente militar em um país com 80 milhões de pessoas. O objetivo realista é mantê-lo controlado para que a atividade de enriquecimento do Irã esteja por baixo do limiar para a fabricação de armas nucleares.

A esperança norte-americana é que nos próximos anos se produza uma “mudança de regime” e que surja um governo mais próximo de seus interesses, seja ele produto de um processo evolutivo e pacífico – em que reformistas vão ganhando terreno e os conservadores se marginalizando – ou por um giro mais brusco da situação por um dinâmica social conflituosa. No caso de que este acordo se rompa, o cálculo dos Estado Unidos e de seus aliados é que teriam um ano para organizar a resposta e evitar que o Irã de um giro para obter armamento nuclear.

O mais importante é que este acordo implicaria no inicio do restabelecimento das relações entre Estados Unidos e Irã, interrompidas desde a revolução de 1979. este feito não é pequeno dada a importância histórica que o Irã teve na arquitetura do domínio norte-americano no Oriente Médio.

Obama se lança no final de seu mandato neste acordo. Como se sabe, há uma forte oposição interna ao Congresso de maioria republicana. No plano externo, esta política para o Irã é duramente repreendida pela Arabia Saudita, Turquia e Israel, onde o direitista Benjamin Netanyahu acaba de ganhar um novo mandato, talvez o porta voz mais estridente dos falcões que agitam contra a ameaça nuclear mas na realidade se opõem a que Irã passe de pária internacional a sócio dos Estados Unidos no Oriente Médio.

A alternativa deste setor leva inevitavelmente a um enfrentamento militar contra o Irã para resolver o dilema que deixou colocado a derrota da política militarista dos Estados Unidos. A invasão do Iraque e a queda de Saddam Hussein romperam os equilíbrios regionais que lá se sustentavam durante décadas. Seu principal efeito colateral foi o fortalecimento regional do Irã, o inimigo número um dos Estados Unidos e seus aliados – Arábia Saudita e Israel. O advento no Iraque da maioria shiita ao poder deu ao Irã uma projeção de potência regional que até o momento não tinha. Com um sistema de alianças baseado no regime de Bashar al Assad na Siria, Hezbollah no Líbano, Hamas nos territórios palestinos e Iraque, o regime iraniano se voltou em uma peça indispensável para a segurança dos Estado Unidos, não apenas no solo iraquiano mas também para conseguir encontrar uma saída estável à ocupação do Efeganistão e combater o Estado Islâmico. Isso mesmo faz com que se incremente a influência regional do Irã, que agora se estendeu ao Iêmen.

Enquanto isso, para a República Islâmica as coisas não estão tranquilas. A chegada ao poder em 2013 de Hassan Roahni, um clérigo moderado que representa o setor chamado “reformista” em oposição ao setor conservado do clero, facilitou este giro político de Washington que vê uma janela de oportunidade para lidar com o problema iraniano. Mas caso o acordo fracassasse, ou que hajam provocações de aliados norte-americanos, ressurgirão com força as fraturas do regime iraniano, que usa demagogicamente o anti norte-americanismo para justificar sua política de controle social.

Há que se esperar para ver se este acordo ajudará na estabilidade ou potencializará tensões e rivalidades. No Oriente Médio há uma imersão em uma situação por sua vez reacionária e altamente instável. Depois da enorme convulsão que significou a primavera árabe, que levou a queda de aliados fundamentais dos Estados Unidos, como Mubarak no Egito, o governo de Obama está se voltando a uma linha “realista” de buscar equilíbrio às potências regionais que disputam a hegemonia. Isto faz com que os Estados Unidos trabalhem em comum com o Irã no Iraque e Afeganistão e parcialmente na Síria, mas também que esteja enfrentando seus aliados na Síria e no Iêmen.

Se abriu um período de fortes disputas e rivalidades entre os diversos atores para chegar a um posicionamento mais favorável aos interesses de cada um. Esta situação levou alguns analistas a colocar que o destino da região esteja regido pelos contornos de uma “guerra fria” entre Irã e Arábia Saudita.

O conflito no Iêmen poderia ser a antessala de um embate maior, já que é ali onde se está provando a aliança “sunita” impulsionada pela Arábia Saudita para conseguir frear o avanço dos hutíes (e portanto do Irã).

A guerra contra o Estado Islâmico pode ser um processo prolongado e custoso, por isso o próprio governo norte-americano fala de anos mais do que de meses. Por outro lado não está dado que o EI seja a única ou a última organização deste tipo que cause problemas ao ocidente e seus aliados. A liquidação do islamismo moderado como agente de desvio, pela via da “reação democrática” dos processos da primavera árabe, alimenta o surgimento de variantes radicalizadas como o Estado Islâmico que encontram eco no solo nos países muçulmanos mas também nas comunidades árabes no ocidente.

Ao se tomar como parâmetro a última onda e ruptura de variantes radicalizas do islamismo sunita, como o Grupo Islâmico Armado argelino ou o grupo Gamaa Islamiya do Egito, o combate estatal contra esses grupos se estendeu no mínimo por uma década.

Como historicamente aconteceu, os conflitos na região tem projeção e alcance internacional. Os atentados em Paris janeira passado talvez sejam uma antecipação de uma tendência que pode estender-se nos próximos anos.

 
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