www.esquerdadiario.com.br / Veja online / Newsletter
Esquerda Diário
Esquerda Diário

Viernes 27 de Noviembre de 2020
00:28 hs.

Twitter Faceboock
História do Imperialismo Americano: O Golpe de 1991 no Haiti
Redação

No dia de hoje na história, em 1991, o governo democraticamente eleito de Jean-Bertrand Aristide no Haiti foi derrubado por um golpe. O imperialismo dos EUA, que interveio no Haiti ao longo do século 20, ajudou a devolver o governante deposto ao poder - mas apenas porque serviu aos interesses do capitalismo. Os Estados Unidos deram meia-volta e o derrubaram novamente na década seguinte.

Ver online

Em 29 de setembro de 1991, Jean-Bertrand Aristide, o presidente eleito do Haiti, foi derrubado por um golpe. Ex-padre católico influenciado pela teologia da libertação e crítico notável dos sucessivos governos ditatoriais haitianos, ele havia sido eleito no dezembro anterior com base em um programa de reformas ambiciosas destinadas a reconstruir o país mais pobre do hemisfério ocidental. A pequena burguesia do Haiti lamentou o dia em que permitiu eleições democráticas, e os Estados Unidos e os países imperialistas europeus ficaram insatisfeitos com a ascensão de Aristide ao poder, já que ela se deu com uma onda de apoio popular.

Os militares haitianos, liderados por Raoul Cédras, se levantaram e o expulsaram do país.

Para compreender os acontecimentos no Haiti, hoje ou em 1991, é necessário voltar a 22 de agosto de 1791 - o dia em que os escravos que libertaram a si mesmos no Haiti (então conhecido como São Domingos) começaram uma insurreição contra os colonos franceses, que terminou com a independência nacional em 1804. Foi a maior revolta de pessoas escravizadas desde a revolta malsucedida liderada por Spartacus contra a República Romana quase dois milênios antes. Os haitianos estabeleceram um Estado livre da escravidão, governado por não-brancos e ex-cativos - e assim desafiaram as visões racistas europeias sobre a inferioridade negra. O fato de os negros no Haiti organizarem polticamente um país logo depois de travar uma guerra bem-sucedida e disciplinada contra seus colonizadores assustou os proprietários de escravos em muitos lugares, e não apenas nos recém formados Estados Unidos. O exemplo da Revolução Haitiana ameaçou o colonialismo e a escravidão em toda a América Latina e no Caribe também. Os regimes que governavam as colônias da Europa tomaram medidas para reprimir possíveis levantes, e mesmo os colonos que pensavam em independência de suas metrópoles que se estabeleceram e estavam começando a buscar a independência - como os colonos dos EUA fizeram - trabalharam para garantir que o que aconteceu no Haiti não acontecesse nos lugares onde eles queriam estabelecer estados escravistas.

Tudo o que acontece no Haiti decorre dessa revolta. O imperialismo nunca perdoou o povo haitiano por sua audácia e, durante séculos, castigou o país com repressão e exploração.

Da Eleição à Posse

O período da campanha eleitoral de 1990 foi relativamente calmo. No entanto, houve violência nas ruas e um atentado a bomba em 6 de dezembro em um comício que matou seis apoiadores de Aristide e feriu outros 52. Mas em 16 de dezembro, com muitos observadores internacionais presentes de todo o mundo, a votação ocorreu. Aristide obteve uma vitória esmagadora em um cenário eleitoral de 11 candidatos, obtendo 67,5% dos votos.

Mas em 7 de janeiro, um mês antes do dia da posse, houve uma tentativa de golpe liderada por Roger Lafontant, um apoiador de longa data da ditadura de Duvalier que governou o Haiti de 1957 a 1986, junto com um segmento do exército. Ele obrigou o presidente provisório a renunciar, declarou-se presidente e disse na rádio nacional que “se juntou às Forças Armadas e à polícia para tomar o poder a fim de defender os interesses da pátria, para guiá-la no caminho à verdadeira democracia ” e “revelar ao mundo os erros e o fracasso total do comunismo internacional ”.

O palco estava sendo montado para o que viria no fim daquele ano. Tiros soaram perto do palácio presidencial. O Tonton Macoute - a força paramilitar criada em 1959 por François “Papa Doc” Duvalier - circulou pela capital do Haiti, Porto Príncipe, atirando e aterrorizando a população, que saiu às ruas e montou barricadas para impedir os Macoutes de fazerem suas rondas. Alguns foram capturados e enforcados. Aristide, ainda não empossado, apelou à paz.

Desta vez, o chefe das Forças Armadas esmagou a tentativa de golpe e prendeu Lafontant e alguns de seus seguidores. Aristide foi empossado com sucesso em 7 de fevereiro.

Aristide na presidência

Aristide havia se comprometido a promulgar reformas sociais e econômicas abrangentes para lidar com a extrema pobreza do Haiti. Ele reorganizou o exército, removendo vários generais e oficiais conhecidos por violações dos direitos humanos. Em poucos meses, ele promoveu o coronel Cédras, que chefiava o Comitê de Segurança Eleitoral, a comandante-chefe das Forças Armadas do Haiti.

Enquanto isso, a violência estatal continuou - com a frequente resposta de “justiça nas ruas”. Em 19 de março, na cidade costeira de Montrouis, dois policiais mataram um menino de 14 anos quando ele se recusou a dar a eles 150 dólares. Pessoas na cidade invadiram a delegacia local, arrastaram aqueles policiais para a rua e os mataram com o infame “colar” haitiano - colocar um pneu encharcado de gasolina em volta do pescoço da vítima e incendiá-lo. Isso é também conhecido como “tortura de Père Lebrun”, em homenagem a um ex-fabricante de pneus no país.

Ao longo desse período, várias prisões e mandados foram emitidos contra ex-generais e outras pessoas que haviam se envolvido em massacres durante as eleições anteriores ou contra manifestantes nos anos anteriores. Novas conspirações foram descobertas. Enquanto isso, o Haiti foi pego por uma grave crise econômica. Os preços dos alimentos básicos subiram, e a vizinha República Dominicana deu início a uma expulsão em massa dos haitianos que trabalhavam lá.

As reformas de Aristide fracassaram, os esforços para mudar o judiciário e o sistema penitenciário foram barrados, e ele não conseguiu separar as Forças Armadas e a polícia.

O golpe de 1991

Em 29 de setembro de 1991, as Forças Armadas do Haiti derrubaram Aristide, que foi preso, forçado a renunciar e então - após intervenções das embaixadas da França, dos Estados Unidos e da Venezuela - foi autorizado a viajar para Caracas. Uma junta militar liderada por Cédras assumiu o poder.

Os haitianos se revoltaram nas ruas. Porto Príncipe se tornou uma cidade de barricadas. Houve chamados para uma greve geral. Os militares atiraram nos manifestantes indiscriminadamente, o que evitou uma revolta em massa. Provavelmente centenas foram mortos e feridos nos primeiros dias, especialmente nos bairros mais pobres da capital.

As instituições internacionais intervieram quase imediatamente. As Nações Unidas e a Organização dos Estados Americanos condenaram o golpe, exigindo o retorno de Aristide ao poder. Ao longo do um ano e meio seguinte, uma série de manobras e negociações trouxeram o presidente deposto de volta ao cargo, no final de outubro de 1993, depois que Aristide e Cédras assinaram um pacto na cidade de Nova York em 3 de julho de 1993. Naquele “Acordo de Governadores da Ilha ”, Aristide concordou com a nomeação de um novo primeiro-ministro - aprovado pelas potências imperialistas - e com uma série de “reformas de livre mercado”. Abusos aos direitos humanos, no entanto, ainda persistiram no Haiti, ameaçando levar o acordo ao fracasso. Aristide fez um chamado às massas haitianas para conquistar a paz com a direita por meio da não-violência.

Em 23 de setembro, o Conselho de Segurança da ONU autorizou uma missão militar de 1.300 pessoas ao Haiti, com soldados (para funcionar como “supervisores policiais”), construção militar, e “instrutores” militares dos EUA. Cédras denunciou o plano como intervenção estrangeira disfarçada de assistência técnica. À medida que a violência continuava, os militares usaram representantes civis para apreender meios de comunicação em Porto Príncipe e ameaçaram a missão da ONU com um falso “ataque”. Um grupo paramilitar assassinou o ministro da Justiça e sua comitiva. O embargo de petróleo e armas ao Haiti, imposto pela ONU e levantado depois que o acordo de Nova York, foi restabelecido.

Cédras queria renegociar, insistindo especialmente na anistia para os crimes políticos cometidos durante o golpe. No fundo, a burguesia haitiana - desesperada para manter Aristide fora - pressionou os membros do Congresso dos EUA para impedir as “acomodações” do governo Clinton com Aristide. O governo se manteve firme, e isso atrasou o retorno de Aristide.

Intervenção Militar dos EUA

Mais tempo se passou enquanto a violência e o impasse político persistiram. No final de julho de 1994, o Conselho de Segurança da ONU autorizou uma intervenção militar para remover a junta militar. Em meados de setembro, enquanto soldados, marinheiros e fuzileiros navais liderados pelos EUA preparavam uma entrada forçada no Haiti, Cédras recebeu um ultimato e foi relembrado da facilidade com que os Estados Unidos haviam conquistado outros países do Caribe. Tropas aterrissaram. Aristide foi restaurado como presidente para cumprir o restante de seu mandato.

Não foi a primeira intervenção militar dos EUA no Haiti. Na verdade, os Estados Unidos ocuparam o Haiti de 1915 a 1934 para proteger os enormes investimentos do capitalismo americano no país, numa época em que a influência alemã sobre a economia estava crescendo. Naquele momento, como também agora, o Haiti estava fortemente endividado com bancos estrangeiros e, em dezembro de 1915, agentes do governo dos EUA roubaram $ 500.000 da dívida nacional haitiana, levaram-no para a cidade de Nova York para "custódia" e usaram essa apreensão como forma de controlar o banco em Porto Príncipe.

Quando um novo governo anti-estadunidense chegou ao poder no Haiti em 1915, o presidente Woodrow Wilson enviou os fuzileiros navais americanos. Eles desembarcaram naquele mês de julho para “restaurar a ordem” e proteger os interesses dos EUA, declarando a lei marcial, assumindo o controle da capital, ocupando os bancos e a alfândega e instituindo censura à imprensa. Algumas semanas depois, quando um presidente pró-EUA foi empossado, o futuro presidente dos EUA Franklin D. Roosevelt escreveu uma nova constituição para o Haiti, favorável aos interesses dos EUA - incluindo, pela primeira vez, uma cláusula que permitia a propriedade estrangeira de terras haitianas . As massas haitianas ficaram furiosas.

Essa ocupação durou até 1934.

Interesses do imperialismo

Por que os Estados Unidos se interessariam tanto por um país pobre como o Haiti? Claro, a punição de séculos pela revolta de 1791 fala por si só. Mas há também uma razão econômica particular, que dialoga com o interesse especial dos capitalistas, parasitas econômicos que vivem às custas das massas mundiais.

O Haiti é o maior produtor mundial de vetiver e fornece pelo menos metade do suprimento mundial. Vetiver é uma planta raiz usada para fazer perfumes luxuosos, óleos essenciais e várias outras fragrâncias. Não é algo importante para a maioria da população mundial, mas os mais ricos do mundo se preocupam muito com esse recurso natural. As exportações do Haiti são complementadas por uma série de outras safras, como manga, mamão, agrião e assim por diante.

O país não pode cultivar a maior parte dos alimentos de que sua população necessita, contando com as importações para mais da metade de seus alimentos básicos - e para 80% de seu arroz, uma parte básica da dieta. Assim, fornece ao imperialismo uma fórmula matemática complexa: como podemos manter o auxílio externo suficiente apenas para reproduzir a força de trabalho haitiana para que a metade da força de trabalho do país trabalhe no importante setor agrícola, mas sem compartilhar as riquezas em um nível que realmente ajude as pessoas a saírem da pobreza?

Entretanto, Aristide tem um legado. Ele continua sendo um herói para um grande setor das massas haitianas, apesar de todas as limitações de sua política reformista fracassada. Quando ele foi expulso de sua ordem religiosa católica em 1988 e condenado a deixar o país, dezenas de milhares protestaram, bloqueando o aeroporto. Naquela época, ele se manifestou sobre a decisão com palavras que ressoaram entre os pobres do Haiti: “O crime do qual sou acusado é o crime de lutar por comida para todos os homens e mulheres”. Ele descreveu sua luta como "um conflito entre classes, ricos e pobres". Essas declarações dialogam muito com as aspirações do povo haitiano - que está entre os mais oprimidos do mundo.

Depois que os militares americanos garantiram seu retorno à presidência, Aristide cumpriu o restante de seu mandato até 1996. Mais tarde, foi eleito presidente e governou de 2001 a 2004 - até ser novamente deposto por um golpe. Nesse golpe, as mãos dos Estados Unidos - o país que outrora o havia restaurado ao poder - estavam em toda a operação. É um testemunho do imperialismo dos EUA: não se engane quando os Estados Unidos parecerem tomar o lado da “democracia” em vez da “ditadura” a qualquer momento. O lado que o imperialismo toma é ditado por aquilo que serve aos seus interesses, não um compromisso ideológico com o que pode ser “certo” ou “melhor” para o povo oprimido em qualquer nação em que intervém.

 
Izquierda Diario
Redes sociais
/ esquerdadiario
@EsquerdaDiario
[email protected]
www.esquerdadiario.com.br / Avisos e notícias em seu e-mail clique aqui